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A América Latina virou à direita ou é exaustão?

Estamos diante de uma dinâmica impiedosa na qual o voto tende mais a ser um instrumento de castigo que de aprovação. (Foto: Imagem produzida por Grok IA/Gazeta do Povo)

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Nos últimos dias estamos lendo e ouvindo que o atual ciclo político da América Latina se resume a uma guinada à direita. A cada virada de chave nas urnas regionais, os analistas correm para decretar o nascimento de uma nova “onda”. Seja ela vermelha, rosa ou, como se aponta agora, azul. Trata-se de explicações construídas a partir de visões de quem enxerga o mundo através de filtros puramente ideológicos.

O que os mapas eleitorais recentes desenham não é uma conversão doutrinária em massa ao conservadorismo ou ao liberalismo econômico. Tenho observado que o verdadeiro motor que tem definido os rumos da região nas últimas duas décadas não é a adesão a uma cartilha partidária, mas o colapso definitivo da paciência do cidadão comum com quem está no poder. Estamos diante de uma dinâmica impiedosa na qual o voto tende mais a ser um instrumento de castigo que de aprovação.

A prova irrefutável de que não há hegemonia ideológica, mas sim uma fratura social profunda, está na crueza dos números. Olhar para a margem de diferença das últimas grandes eleições na região é ver um continente rachado ao meio, onde governantes assumem sem qualquer espécie de cheque em branco. No Peru, em 2021, Pedro Castillo venceu Keiko Fujimori por uma margem microscópica de 0,25% dos votos. Na eleição desse ano, Keiko venceu por pouco. Muito pouco. Na Colômbia, em 2022, Gustavo Petro cruzou a linha de chegada com uma vantagem apertada de apenas três pontos percentuais contra Rodolfo Hernandez Suárez – um candidato folclórico. Neste ano, Abelardo de La Espriella venceu por menos de 1%.

Como falar em guinada ideológica se as eleições foram quase um cara ou coroa?

O caso brasileiro de 2022 segue exatamente a mesma lógica do equilíbrio pelo desespero. Jair Bolsonaro perdeu pela menor margem da história das eleições presidenciais do país desde a redemocratização: escassos 1,8 ponto percentual. Na esteira daquele resultado, partidos e intelectuais de esquerda caíram na tentação da autocomplacência, interpretando o resultado como um renascimento do progressismo e uma validação ideológica de suas teses. Foi um erro crasso de leitura. A realidade das urnas mostrou que Lula não foi o beneficiário de um clamor socialista, mas sim o canalizador de um pragmático voto de punição e de medo direcionado ao governante de turno. O eleitor não escolheu a utopia da esquerda; ele escolheu punir quem estava no poder. Pecado semelhante foi cometido por Bolsonaro em 2019 quando chegou ao poder acreditando que a sociedade brasileira, enfim, havia se endireitado (no sentido ideológico, que fique claro).

Para as lideranças de direita que hoje celebram vitórias ao longo do continente, o diagnóstico correto dessa realidade é uma questão de sobrevivência política

Quando o pêndulo oscila para a direita, a mecânica da rejeição opera com o mesmo vigor. O exemplo do Chile ilustra com perfeição esse ciclo de exaustão. Após a ascensão meteórica da nova esquerda com Gabriel Boric, o governo esbarrou na incapacidade de responder às demandas mais urgentes da população. O desgaste severo da gestão Boric, asfixiada pela explosão da criminalidade e pela crise migratória, abriu caminho para que José Antonio Kast capitalizasse a insatisfação popular. Kast venceu impulsionado pelo desejo de ordem de um eleitorado sufocado. Mas, novamente, seria um delírio analítico crer que o Chile se tornou repentinamente um enclave ultraconservador. O eleitor chileno agiu como o brasileiro, o colombiano e o peruano: usou o voto como uma ferramenta de legítima defesa contra quem não só não resolveu seus problemas, como criou um montão de outros.

Nas democracias hiperpolarizadas do continente parece que a ideologia é o único ingrediente, mas voto segue essencialmente utilitário. Diante da estagnação econômica persistente, da violência urbana endêmica e da deterioração visível dos serviços públicos essenciais, o eleitor não vai às urnas para validar dogmas; ele vai para punir o gestor do momento. Há um pragmatismo da sobrevivência que rege essas decisões. O cidadão médio (por isso, o eleitor do centro é tão importante) não está preocupado se as soluções para os seus problemas diários vêm da cartilha de Chicago ou do Foro de São Paulo. Ele quer segurança nas ruas, poder de compra no supermercado e um sistema de saúde que funcione.

Pergunte a um salvadorenho se ele está preocupado com os relatórios das organizações de direitos humanos que afirmam que o país deles está enfrentando um crepúsculo democrático. Mais de 90%, suponho, devem dizer que não se importa. O que é relevante na vida deles é que a bandidagem foi controlada e que os investimentos voltaram da mesma forma pela qual eles podem andar livremente pelas ruas sem serem mortos. Isso quer dizer que a democracia está em crise? Acho que não. Quem está em uma crise crônica é a América Latina que tem sido incapaz de entregar o mínimo para seus cidadãos.

Quando os governos de esquerda falham em entregar essa estabilidade básica, asfixiados pela incompetência fiscal, pelo populismo distributivo e por escândalos de corrupção, a resposta imediata das urnas é o deslocamento para a direita. No entanto, o inverso ocorre com exatidão matemática. Quando governos de direita assumem o poder prometendo reformas estruturais e choque de gestão, mas esbarram na incapacidade política de gerar empregos rápidos e combater a pobreza, o pêndulo oscila invariavelmente na eleição seguinte.

Parece haver uma tendência entre os analistas em considerar essa oscilação pendular com convicção ideológica. Mas, os eleitores latino-americanos não se tornam subitamente defensores ferrenhos do livre mercado em um ano, para virar um entusiasta do estatismo no ano seguinte. Ele está, na verdade, testando ferramentas. Se a chave de fenda não funcionou para consertar o que ele considera fundamental, ele tenta o martelo. Se o martelo falhar, ele o descartará sem o menor pudor e aposta na no serrote. Se também não dá certo, recorre à picareta. E assim vai.

Essa dinâmica utilitária ganha contornos ainda mais dramáticos em um ambiente de profunda polarização. As redes sociais e o discurso público inflamado criaram um cenário onde as campanhas são ganhas na base da rejeição ao adversário, e não pelo entusiasmo em relação às propostas. Vota-se contra o modelo atual muito mais do que a favor do modelo proposto. O resultado disso é a eleição de governantes que entram no palácio presidencial já com o prazo de validade quase vencido.

Além disso, a infraestrutura institucional da América Latina tem sido severamente testada pelo avanço do crime organizado transnacional e pela erosão da segurança pública, que são temas que hoje ocupam o topo das preocupações do eleitorado, superando muitas vezes a economia. Lideranças que adotam discursos de tolerância zero ou prometem reformas profundas no aparato de segurança conseguem canalizar o desespero de populações sitiadas pelo narcotráfico e pelas gangues. Mas, novamente, a sustentabilidade política desses projetos não dependerá da simpatia ideológica do povo pelas suas teses, mas da eficácia real em devolver a paz social às ruas. Se os índices de homicídios não caírem, a mesma mão que hoje aplaude será a que digitará o número do concorrente na urna amanhã.

A América Latina não se moveu ideologicamente à direita, assim como não havia se movido à esquerda. A região está, acima de tudo, exausta. Exausta de promessas vazias, de instituições disfuncionais e de uma elite política que gasta mais tempo debatendo narrativas do que entregando resultados palpáveis.

Para as lideranças de direita que hoje celebram vitórias ao longo do continente, o diagnóstico correto dessa realidade é uma questão de sobrevivência política. O poder que hoje detêm não é um cheque em branco de alinhamento ideológico; é um contrato temporário, precário e de cobrança imediata. Se falharem em compreender que o eleitor é pragmático e utilitário, serão atropelados pelo mesmo pêndulo da exaustão que os consagrou. No final do dia, o estômago e a segurança do cidadão sempre falarão mais alto do que qualquer cartilha partidária.

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