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Hugo Motta perde margem de articulação na Câmara após ser ligado ao Master

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), está sofrendo pressão após ter seu nome relacionado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e vê seu poder de negociação diminuir a cada dia. A avaliação de analistas políticos ouvidos pela reportagem é que o deputado precisará mudar de postura para não se tornar refém do governo Lula.

Hugo Motta chegou ao comando da Câmara com ampla capacidade de ditar o ritmo das votações, posição que o colocava como interlocutor em pé de igualdade com o Executivo, segundo a jurista Yolanda Tolentino, especialista em política e gestão estratégica internacional pela FAAP e UFRJ.

No entanto, esse equilíbrio foi abalado com a descoberta pela Polícia Federal de que ele teria pedido um empréstimo de R$ 22 milhões para uma cunhada e recebido mimos, como viagens e hospedagens de luxo.

“Um presidente da Câmara com mensagens no celular de um banqueiro investigado, viagens em jato particular e hospedagem em suíte de hotel de luxo custeadas pelo mesmo banqueiro não tem a mesma margem para confrontar o Executivo. Ele precisa demonstrar utilidade institucional, e rápido”, avalia.

Autonomia de Hugo Motta em relação ao governo é colocada em dúvida

Analistas avaliam que Motta está atendendo a demandas do Planalto na Câmara na esperança de obter algum tipo de proteção política no contexto das investigações do Caso Master. Uma dessas ações seria retardar a pauta de projetos que podem gerar custos adicionais ao Tesouro, como o aumento do piso salarial para médicos e dentistas, aposentadorias especiais para agentes de saúde e refinanciamento de dívidas agrícolas. Elas vêm sendo classificados pelo governo como “pautas bomba”.

Segundo Juan Carlos Arruda, diretor do think tank Ranking dos Políticos, a posição do presidente da Câmara é delicada: ao mesmo tempo em que o governo precisa de Motta para barrar as pautas bomba, o presidente da Câmara precisa da bancada do governo para sobreviver politicamente.

“Hugo Motta não me parece atuar como um presidente governista clássico. Ele tende a operar mais como um fiador da governabilidade possível, liberando espaço para votações quando há ambiente político, mas sem entregar ao Planalto controle automático da agenda. A Câmara continua muito fragmentada e muito sensível ao humor das bancadas”, explica.

Hugo Motta chegou ao comando da Câmara com o capital político de quem foi eleito por ampla maioria e com perfil de articulador pragmático. O Caso Master e a teia de interesses que o cerca colocam esse capital em xeque na avaliação de especialistas.

A pergunta que os corredores da Câmara começam a fazer é se Hugo Motta ainda tem autonomia suficiente para presidir a Casa em ano eleitoral conturbado pelo Caso Master.

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Adiamento da CPI do Master pode desencadear crise

A pressão vem também da oposição na Câmara. O pedido de instalação da CPI do Caso Master está parado, após Motta optar por colocá-lo em uma fila de requerimentos com base na ordem cronológica que, na prática, inviabiliza a instalação.

Para Arruda, do Ranking dos Políticos, o presidente da Câmara terá de usar toda a sua habilidade para evitar uma crise com os partidos de oposição e, por consequência, com o andamento da pauta no plenário.

“Na relação com a oposição, ele precisa calibrar bem. A oposição quer usar casos como o Master para desgastar o governo e cobrar investigações mais duras. Se Hugo Motta fecha demais a porta, tensiona a relação com esse campo. Se abre demais, pode transformar a Câmara em palco permanente de crise. O desafio dele é justamente administrar essa pressão sem perder autoridade sobre a pauta”, avalia.

Por enquanto, Motta tem conseguido segurar a pressão dos partidos de oposição. A CPI do Master não é de interesse do Planalto nem do Centrão, cujas lideranças também aparecem nas investigações. Entre os citados estão o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) e o presidente do Partido Progressista, senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Nesse sentido, a base governista na Câmara tem papel importante. Aliada aos interesses de Motta em relação ao Caso Master, ela continua alheia aos esforços da oposição pela instalação da CPI, como explica o líder do partido Novo na Câmara, deputado Gilson Marques (SC).

“Queremos que tudo venha à luz e seja investigado. Quem não tem rabo preso não esconde e nem recua. Hoje sabemos que o esquema do Master vai muito além do BRB, com tráfico de influência, transferência de recursos a ministros e familiares. Não vejo por que não investigar tudo. A esquerda, que tenta jogar esse escândalo no colo da direita, é quem mais tem atrapalhado a instauração da CPI”, afirma.

Hugo Motta é ligado à Operação Compliance Zero

O nome de Motta apareceu nas investigações da Compliance Zero a partir de mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Segundo relatórios da PF, cujo sigilo foi derrubado pelo STF, as conversas indicam que o presidente da Câmara teria solicitado ao banqueiro a liberação de um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões para uma empresa ligada à cunhada dele.

A operação, firmada em março de 2024, antes de Motta assumir o comando da Câmara, teria sido usada para a compra de um terreno em João Pessoa (PB), onde está previsto um empreendimento imobiliário.

Questionado, Hugo Motta não confirmou ter solicitado o empréstimo, mas sustentou que a operação foi regular. “O empréstimo está dentro da legalidade”, afirmou. Em outra resposta, declarou que a empresa está honrando normalmente as parcelas. Os investigadores, porém, apuram se houve contrapartida política: uma emenda apresentada por Motta sobre créditos de carbono, que poderia beneficiar negócios ligados à família de Vorcaro, está no radar da PF.

Além do empréstimo, os documentos da Compliance Zero revelam que Vorcaro custeou despesas de Motta e do senador Ciro Nogueira em uma viagem a Lisboa, incluindo hospedagem em hotel de alto padrão e jantar reservado. Em fevereiro de 2025, já eleito presidente da Câmara, Motta aparece mencionado em mensagem do banqueiro como participante de um jantar com seis empresários na residência oficial.

A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025, após investigações iniciadas em 2024, a pedido do Ministério Público Federal. No centro do esquema está Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso no aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar para Dubai em seu jato particular. As suspeitas incluem gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, emissão de títulos sem garantias suficientes e corrupção de agentes políticos.

Motta quer Refis do Agro para depois do recesso

A fragilidade de Hugo Motta diante do Caso Master tem reflexos diretos na condução da pauta legislativa. O presidente da Câmara sinalizou ao governo e ao Senado que não pretende colocar em votação, antes do recesso parlamentar, os projetos classificados pelo governo como “pautas bomba”, medidas com alto impacto fiscal que o Planalto rejeita e que foram aprovadas pelos senadores sob articulação de Davi Alcolumbre (União-AP).

A principal vítima desse recuo é o Projeto de Lei 5.122/2023, o crédito rural emergencial, conhecido como Refis do Agro. A Frente Parlamentar da Agropecuária diz que o texto não é uma pauta bomba e que vai gerar despesas muito mais baixas do que o governo vem propagandeando.

O texto, aprovado pelo Senado em 10 de junho, e que retornou à Câmara após alterações, prevê a renegociação de dívidas de produtores rurais afetados por calamidades climáticas. A bancada do Agronegócio pressiona por votação na Câmara antes do anúncio do Plano Safra 2026/2027, previsto para o início de julho.

Motta pretende defender o projeto junto ao governo e sinalizou para os membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) que a indefinição sobre a data de votação vai se estender até a próxima semana.

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