Em abril de 2026, o mundo ultrapassou um marco histórico que, embora tratado por parte da imprensa apenas como consequência de guerras recentes, talvez represente uma transformação profunda na ordem internacional. Segundo levantamento do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), principal centro independente de estudos estratégicos do mundo, os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilhões em 2025, o maior valor registrado desde o início das medições sistemáticas consolidadas após o fim da Guerra Fria.
Trata-se do décimo primeiro ano consecutivo de crescimento. Em apenas uma década, o aumento acumulado ultrapassou 40%. Pela primeira vez desde os momentos mais tensos do século XX, praticamente todas as regiões do planeta ampliaram simultaneamente seus orçamentos de defesa.
Esse aumento não é apenas uma resposta episódica à guerra na Ucrânia, à rivalidade sino-americana, ao agravamento das tensões no Indo-Pacífico ou ao interminável conflito no Oriente Médio. O que está em curso é uma mudança estrutural na percepção das grandes potências sobre o futuro da ordem internacional, baseada na dissolução gradual da arquitetura política, econômica e psicológica que sustentou o mundo pós-1989.
O sistema internacional construído após a queda do Muro de Berlim fundava-se em três premissas: a globalização reduziria incentivos para guerras ou competições estratégicas entre grandes potências; a interdependência produtiva geraria estabilidade; e a hegemonia americana funcionaria como garantia estrutural da ordem. Países profundamente integrados não fariam guerras entre si porque os custos seriam altos demais. O comércio substituiria a geopolítica. Mercados substituiriam disputas de poder. Cadeias globais de produção produziriam estabilidade.
Essa hipótese moldou a arquitetura global pós-1989. A Europa desmontou parte significativa de suas capacidades militares. A Alemanha transformou-se em uma potência econômica deliberadamente desmilitarizada e, por que não, emasculada. A Otan entrou em uma crise existencial após o colapso soviético. Falava-se em “dividendos da paz”. Defesa passou a ser vista como resquício de um século ultrapassado, coisa de brucutus iletrados. Durante quatro décadas, o Ocidente viveu o que o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm chamou de “anomalia histórica”, um raro período em que as grandes potências não se preparavam para guerras de alta intensidade entre si.
Esse diagnóstico revelou-se equivocado. O pós-Guerra Fria não aboliu a geopolítica, apenas a suspendeu temporariamente sob a unipolaridade americana, ou unimultipolaridade, nos termos do cientista político americano Samuel Huntington, que descreveu um sistema internacional híbrido, com os EUA como única potência militar global, mas com o poder econômico repartido entre vários centros.
Essas premissas entraram em colapso simultaneamente. A ascensão chinesa, a recuperação militar russa, o desgaste relativo da capacidade americana de impor ordem global após o Iraque e o Afeganistão e a crescente instrumentalização econômica da tecnologia recolocaram a competição entre Estados no centro da política internacional. Sistemas unipolares raramente são permanentes, e a evolução da sociedade internacional quase nunca se comporta como imaginam os teóricos liberais do fim da história.
Ao longo das últimas décadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econômico. Diferentemente do que ocorre nas grandes potências, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de política industrial, inovação tecnológica, formação de capital humano avançado e projeção estratégica do Estado
O crescimento dos gastos militares não se apresenta, portanto, apenas como fenômeno orçamentário, mas civilizacional. As grandes potências já não acreditam que o futuro será necessariamente mais estável que o passado. O mundo voltou a operar sob a lógica da insegurança estrutural e da geopolítica clássica, e essa talvez seja a transformação mais importante do século XXI até agora.
Como advertiam Morgenthau, Kennan e Kissinger, competição entre Estados, equilíbrio de poder e percepção de vulnerabilidade jamais deixaram de constituir o núcleo organizador da política internacional. Entretanto, a ideia de que prosperidade econômica produz automaticamente convergência política dominou o pensamento estratégico das elites ocidentais desde a década de 1990, moldando a relação com a China, a Rússia e a arquitetura financeira global. O erro analítico fundamental dessa premissa foi imaginar que racionalidade econômica substituiria racionalidade histórica, identitária e estratégica e que a burocracia tecnocrática substituiria a força dos nacionalismos. Não substituiu. Não substitui.
Essa interpretação confundiu uma conjuntura histórica específica com uma real transformação da natureza da política internacional. Historicamente, forças centrífugas de fragmentação têm se mostrado mais resilientes do que forças centrípetas de convergência. A China usou precisamente a integração econômica para financiar sua ascensão, incorporando cadeias globais, absorvendo tecnologia, expandindo capacidade manufatureira, acumulando reservas gigantescas e construindo um modelo de capitalismo de Estado orientado para competição estratégica de longo prazo.
A Rússia seguiu trajetória distinta, mas igualmente reveladora. Enquanto o Ocidente acreditava que a integração reduziria impulsos revisionistas, Moscou interpretava o avanço da Otan em sua periferia como ameaça existencial. A invasão da Geórgia, em 2008, a anexação da Crimeia, em 2014, e a invasão da Ucrânia, em 2022, demonstraram que cálculos geopolíticos continuavam prevalecendo sobre a racionalidade econômica estrita.
O caso iraniano é ainda mais emblemático e revela outra limitação dessa visão liberal: a crença de que sanções econômicas e isolamento financeiro seriam suficientes para neutralizar ambições estratégicas de Estados revisionistas. Submetido durante décadas a pesadas restrições econômicas, o Irã não abandonou seus objetivos geopolíticos. Ao contrário. Desenvolveu sofisticada arquitetura de guerra assimétrica baseada em mísseis balísticos, drones, guerra cibernética e redes de proxies regionais, tornando-se um dos principais polos de instabilidade do Oriente Médio. Em vez de buscar simetria militar convencional com os EUA, Teerã construiu capacidade de impor custos desproporcionais a adversários muito superiores militarmente. O caso iraniano demonstra que, em contextos de rivalidade estratégica profunda, resiliência ideológica, percepção de ameaça existencial e ambição regional prevalecem sobre a racionalidade econômica convencional.
Essa mudança tornou-se explícita na própria formulação doutrinária americana. As recentes National Security Strategy (NSS) e National Defense Strategy (NDS) abandonaram a linguagem da globalização e passaram a definir o cenário internacional como competição sistêmica entre grandes potências, percepção que ajuda a explicar por que os gastos militares crescem simultaneamente em praticamente todas as regiões estratégicas do planeta.
A nova corrida armamentista, entretanto, não se parece com a do século XX. O poder militar já não se mede apenas por arsenais nucleares, divisões blindadas, superioridade aérea e naval e capacidade industrial pesada. Hoje, a natureza do poder tornou-se mais difusa, sofisticada e integrada à estrutura econômica das sociedades, às cadeias produtivas, à infraestrutura digital, à inteligência artificial, aos semicondutores, às telecomunicações, ao espaço, à energia, à mineração, ao espaço virtual e ao controle de dados. Defesa, tecnologia, agro, indústria, comércio, segurança pública e soberania econômica deixaram de ser esferas separadas para formar um único ecossistema de poder nacional.
A trajetória é instrutiva. Na Guerra do Golfo, os EUA demonstraram uma superioridade tecnológica inédita. À época, muitos acreditaram que o futuro da guerra seria marcado apenas pela supremacia tecnológica americana. Mas as guerras do Iraque e do Afeganistão revelaram os limites da superioridade convencional diante de insurgências relativamente baratas e altamente adaptáveis.
Posteriormente, a ascensão chinesa expôs outra dimensão do problema: competição geopolítica depende não apenas de superioridade militar direta, mas da capacidade de controlar cadeias industriais críticas, dominar tecnologias emergentes e reduzir vulnerabilidades econômicas. Pequim não buscou apenas expandir suas Forças Armadas, mas construir autonomia sistêmica de poder, ao controlar infraestrutura logística global, ampliar domínio sobre minerais críticos, liderar setores estratégicos e reduzir dependências tecnológicas externas.
Reativamente, Washington passou a restringir exportações de semicondutores avançados, subsidiar a produção doméstica de chips, reorganizar cadeias produtivas estratégicas e tratar setores econômicos inteiros como ativos de segurança nacional. A política industrial, algo que parecia quase heresia liberal nos anos 1990, voltou ao centro da estratégia geopolítica.
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O conflito na Ucrânia acelerou essa transformação e revelou a nova natureza da guerra. Drones relativamente baratos passaram a destruir plataformas militares multimilionárias, alterando a lógica tradicional de custo-benefício dos conflitos. Satélites comerciais tornaram-se instrumentos operacionais essenciais, e empresas privadas de tecnologia passaram a exercer influência direta sobre o campo de batalha. Guerra eletrônica, inteligência em tempo real, integração digital, capacidade de adaptação tecnológica, reposição industrial contínua e resiliência logística tornaram-se tão importantes quanto blindados, superioridade aérea e naval ou sofisticação militar convencional. A guerra voltou, em grande medida, a ser uma disputa entre Estados capazes de mobilizar sistemas nacionais integrados de poder.
Talvez seja esse o principal fenômeno geopolítico da atualidade: a militarização gradual da economia internacional, não no sentido clássico das economias de guerra total do século XX, mas no de que comércio, energia, tecnologia, dados e cadeias produtivas passaram a ser tratados como ativos centrais de segurança nacional. Os EUA compreenderam isso ao iniciar um processo de reindustrialização estratégica. A China já opera nessa lógica há décadas. A Europa tenta adaptar-se rapidamente após perceber sua vulnerabilidade energética e industrial diante da Rússia e sua vulnerabilidade econômica diante dos EUA.
Nesse cenário, o caso brasileiro torna-se particularmente revelador. O Brasil reúne praticamente todos os elementos de uma potência geopolítica: dimensões continentais, abundância de recursos naturais, liderança agroalimentar, reservas energéticas estratégicas, vasta projeção no Atlântico Sul e uma das maiores biodiversidades do planeta. Sob qualquer critério geopolítico clássico, deveria possuir uma cultura estratégica sofisticada.
Entretanto, talvez nenhuma grande potência territorial tenha desenvolvido percepção tão limitada sobre sua própria dimensão estratégica. Parte disso possui raízes históricas. Diferentemente da Europa, o Brasil não foi moldado por guerras interestatais recorrentes. Desde a Guerra do Paraguai, o país não enfrentou ameaças externas existenciais.
Aos poucos, consolidou-se a percepção difusa de um “isolamento geopolítico benigno”, que conformou e condicionou uma “ilusão estratégica brasileira”, assentada em um pacifismo estrutural involuntário e em cinco pressupostos: a crença de que a distância geográfica protegeria o país; a de que a diplomacia poderia substituir o poder material; a de que recursos naturais gerariam relevância automática; a de que a ausência de guerras regionais equivaleria à ausência de ameaças; e a de que a soberania seria garantida prioritariamente pelo direito internacional, e não pela capacidade nacional.
Essa ilusão não é apenas um traço difuso da cultura política nacional, mas uma doutrina operante dos que atualmente “formulam” nossa política externa. O segundo e o quinto pressupostos constituem o próprio sistema nervoso do atual pensamento diplomático. Morgenthau lembrava que a diplomacia é o cérebro do poder nacional, não seu substituto; entre nós, inverteu-se a equação, e passou-se a crer que a eloquência, o prestígio e o argumento jurídico poderiam compensar a ausência de capacidade material. O resultado é uma diplomacia farta de princípios e escassa de instrumentos.
Trata-se de uma herança que já foi racional. Para um Estado fraco, fazer-se “país do direito internacional” era uma estratégia inteligente de sobrevivência. Mas o tempo do Barão do Rio Branco, em que a diplomacia brasileira pensava em termos de território e poder, cedeu lugar a um juridicismo que toma a norma como anterior à força, quando a história ensina o contrário: o direito acompanha o poder, raramente o precede.
A esse desvio doutrinário soma-se um vício institucional. O Brasil não dispõe de uma instância capaz de fundir diplomacia, defesa, economia, tecnologia e inteligência em uma estratégia única: o Itamaraty pensa em um silo, o Ministério da Defesa em outro, a área econômica em um terceiro, e a política externa é conduzida como uma sequência de gestos e reações, não como execução de um desígnio. Onde os EUA preservam, de governo a governo, a continuidade de suas estratégias, o Brasil reescreve a sua a cada mandato, oscilando entre alinhamento automático e terceiro-mundismo reflexo, sem jamais acumular capital estratégico ao longo do tempo.
Daí uma cegueira específica e perigosa: a da interdependência convertida em arma. Enquanto as grandes potências mapeiam vulnerabilidades e transformam cadeias de suprimento, sistemas de pagamento e fluxos de dados em instrumentos de coerção, os formuladores brasileiros seguem lendo comércio e investimento como relações puramente comerciais, de ganhos mútuos. Negociamos acesso a mercados enquanto outros desenham gargalos. E, porque a estratégia não se ensina, o déficit se reproduz: a formação de nossas elites e a dos próprios diplomatas subestima tecnologia, geoeconomia, defesa e inteligência, perpetuando uma classe dirigente que não foi treinada para pensar em termos de poder e que, por isso, transmite a própria cegueira às gerações seguintes.
E segue-se operando com pressupostos estratégicos de um mundo que deixou de existir. Vulnerabilidades estratégicas já não se manifestam apenas na forma clássica de invasões militares. Dependência tecnológica, fragilidade cibernética, precariedade logística e infraestrutural, insuficiência industrial e disputa por recursos críticos passaram a integrar o núcleo da competição internacional.
O Brasil depende externamente de semicondutores, sistemas avançados de comunicação, satélites, GPS, componentes eletrônicos críticos, sistemas antiaéreos, smart weapons, defesa cibernética, inteligência artificial, drones, sensores e fertilizantes. Em muitos desses setores, a dependência externa, mais do que econômica, é geopolítica.
E, justamente quando o mundo amplia investimentos em defesa e reindustrializa setores estratégicos, o Brasil segue direção oposta. Sob Lula 3, o orçamento de defesa sofreu retração significativa, caindo de cerca de 1,5% do PIB para aproximadamente 1,1%, com redução acumulada superior a 11% nas despesas discricionárias, justamente a parcela responsável por investimentos, manutenção operacional, aquisição de equipamentos e modernização.
O contraste é eloquente. Europeus que durante décadas reduziram seus gastos militares passaram a elevar rapidamente seus orçamentos após a invasão da Ucrânia. A Alemanha criou um fundo extraordinário de € 100 bilhões para reequipamento militar e assumiu o compromisso de atingir 2% do PIB em defesa. A Polônia já ultrapassa 4% do PIB. Os EUA mantêm gastos superiores a US$ 950 bilhões anuais. A China segue ampliando seus investimentos em taxas reais de crescimento acima da expansão econômica global. Mesmo potências médias asiáticas vêm acelerando programas de modernização naval, espacial, cibernética e industrial.
O Brasil, em sentido inverso, reduziu sua capacidade relativa de investimento justamente quando se volta a tratar segurança, indústria e tecnologia como dimensões inseparáveis da soberania. O debate nacional continua aprisionado a simplificações ideológicas e fiscais de curto prazo, oscilando entre dois chavões igualmente pobres – “o Brasil gasta demais com militares” ou “o Brasil investe pouco em defesa” – que ignoram o núcleo real do problema.
A fragilidade brasileira não reside apenas no volume de recursos, mas na própria arquitetura da defesa nacional. O orçamento militar permanece rigidamente consumido por despesas obrigatórias, especialmente pessoal e Previdência, comprimindo o investimento em modernização operacional, pesquisa, inovação, prontidão logística e desenvolvimento tecnológico e produzindo um paradoxo: Forças Armadas relativamente grandes em efetivo, mas com limitada capacidade de dissuasão de alta intensidade.
Ao longo das últimas décadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econômico. Diferentemente do que ocorre nas grandes potências, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de política industrial, inovação tecnológica, formação de capital humano avançado e projeção estratégica do Estado. A consequência foi uma espécie de isolamento em relação aos grandes ciclos de transformação econômica, tecnológica e industrial do país.
Essa desconexão produziu efeitos cumulativos. O Brasil perdeu densidade industrial em setores críticos, ampliou dependências tecnológicas externas e reduziu sua capacidade de transformar projetos militares em plataformas estruturantes de desenvolvimento nacional.
Essa fragmentação enfraqueceu a própria cultura geopolítica do Estado brasileiro. Sem integração entre defesa, indústria, tecnologia, infraestrutura, energia e planejamento econômico, o país perdeu capacidade de formular uma visão de longo prazo compatível com sua dimensão continental. O resultado é uma estrutura que preserva símbolos de poder estatal, mas com dificuldade crescente de converter potencial geográfico, econômico e demográfico em influência estratégica efetiva.
O Brasil é uma das poucas potências territoriais cujas elites perderam quase completamente o hábito de pensar geopoliticamente. Pensa-se excessivamente em gestão e cada vez menos em poder; em equilíbrio fiscal de curto prazo, mas não em resiliência estratégica; em commodities, mas não em autonomia tecnológica; em orçamento anual, mas não em projeção histórica de longo prazo.
Isso ajuda a explicar por que projetos fundamentais sofrem contingenciamentos sucessivos, interrupções e instabilidade orçamentária permanente, em um cenário no qual o Brasil permanece aprisionado à lógica fiscalista anual, à fragmentação burocrática e à ausência de coordenação entre política de defesa e projeto nacional de desenvolvimento.
Essa contradição salta aos olhos porque o Brasil possui programas tecnologicamente sofisticados, como o Prosub, o Gripen, o KC-390, as Fragatas Tamandaré e iniciativas espaciais e cibernéticas, capazes de gerar encadeamentos industriais relevantes, transferência tecnológica, formação de mão de obra altamente qualificada e fortalecimento da autonomia produtiva nacional. No entanto, à semelhança do Sisfron, sufocado há quase 20 anos pela imprevisibilidade orçamentária, criando espaços de obsolescência tecnológica e conceitual, esses projetos são tratados como despesas fiscais contingenciáveis, e não como instrumentos estruturantes de autonomia tecnológica e poder nacional.
Defesa não é assunto apenas militar, mas ativo de toda a sociedade. Envolve política industrial, universidades, infraestrutura crítica, inteligência artificial, espaço, energia, investimentos, promoção comercial e ecossistemas de financiamento e garantias de produção e exportação. Países incapazes de dominar tecnologias estratégicas tornam-se dependentes não apenas economicamente, mas geopoliticamente. Lideranças políticas brasileiras ainda não compreenderam essa transformação e talvez esse seja seu maior risco: a ausência de consciência estratégica compatível com sua dimensão geopolítica.
Raymond Aron advertia que “a história é trágica” e costuma punir países que confundem estabilidade efêmera com garantias permanentes de paz, sobretudo aqueles que ignoram mudanças históricas e só enxergam o perigo quando ele se torna inevitável.
Mas a tragédia, em política, raramente é destino: é quase sempre escolha ou omissão repetida até virar hábito. A ilusão estratégica brasileira não foi imposta por nenhum inimigo. Foi cultivada em casa, paciente e voluntariamente, como quem confunde a ausência de tempestade com a solidez do telhado.
Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (Camex), é doutor em Segurança Internacional.


