Tem histórias que, por si só, explicam a dimensão da tragédia institucional que vive um país. Não porque sejam excepcionais, mas justamente porque revelam aquilo que se tornou cotidiano em um regime político como o venezuelano. A história de Victor Hugo Quero Navas e de sua mãe, Carmen Navas, é uma dessas histórias. No último mês, poucas notícias causaram tanto impacto humano na Venezuela quanto esta. Não apenas pela morte de um preso político sob custódia do Estado – algo que, infelizmente, já não surpreende muitos venezuelanos –, mas pela crueldade silenciosa de tudo o que aconteceu depois.
Porque esta não é apenas a história de um homem preso. É a história de uma mãe idosa que passou meses procurando um filho que as autoridades já sabiam estar morto.
Victor Hugo Quero Navas era pai viúvo e comerciante. Segundo familiares e pessoas próximas, não tinha militância política nem participação ativa em organizações partidárias. Ainda assim, no dia 3 de janeiro de 2025, foi preso sob acusações de traição à pátria, conspiração e terrorismo e, desde então, passou meses desaparecido dentro do sistema repressivo venezuelano. Sua família não sabia ao certo onde Victor Hugo estava, não conseguiu manter contato com ele e desconhecia suas condições de saúde. Tampouco havia informações claras e consistentes sobre sua situação jurídica ou mesmo sobre o centro de detenção em que se encontrava.
Desde sua detenção, a família passou a navegar por um labirinto de informações desencontradas, negativas, versões contraditórias e silêncio institucional. Em alguns momentos, autoridades indicavam um paradeiro; em outros, nada podia ser confirmado. Nunca houve certeza sobre onde Victor Hugo estava, em que condições se encontrava ou o que efetivamente acontecia com ele. Foi então que começou a longa peregrinação de Carmen Navas.
Segundo cifras da organização de direitos humanos Provea, Victor Hugo tornou-se o 27º preso político a morrer sob custódia do Estado venezuelano desde 2024. Vinte e sete vidas foram interrompidas enquanto estavam sob responsabilidade direta do Estado
Com 81 anos, a senhora Carmen fez aquilo que qualquer mãe faria: recusou-se a aceitar o silêncio. Percorreu centros de detenção em Caracas, insistiu diante de autoridades, buscou respostas onde quer que alguém estivesse disposto, ou fingisse estar disposto, a ouvi-la. Passou por prisões como El Rodeo I, bateu em portas, fez denúncias públicas, falou com jornalistas e pediu ajuda a organizações da sociedade civil.
Em troca, recebeu evasivas, indiferença e, segundo denúncias públicas, até intimidações por parte de grupos coletivos – grupos de choque, alguns armados, criados pelo chavismo para defender seu projeto político e exercer o controle social de bairros populares da Venezuela.
“Aqui ele não está.” “Por que continua insistindo?” Imagine, por um instante, o que significa ouvir isso repetidamente enquanto se procura um filho preso. Agora imagine algo ainda pior: fazer tudo isso sem saber que o Estado já conhecia a resposta.
No último dia 7 de maio, um comunicado oficial do Ministério de Assuntos Penitenciários revelou que Victor Hugo Quero havia morrido em 23 de julho de 2025, ou seja, quase dez meses antes da notificação à família, e que tinha sido enterrado em um cemitério nas proximidades de Caracas.
A justificativa oficial beira o inacreditável: Victor Hugo não teria informado adequadamente dados sobre sua filiação. Uma explicação difícil de sustentar diante da notoriedade pública que o caso adquiriu ao longo de meses graças à luta incansável de Carmen, com o apoio da imprensa independente e de organizações defensoras dos direitos humanos.
E existe um detalhe ainda mais perturbador nessa história. Semanas antes da confirmação da morte, a senhora Carmen solicitou que o filho fosse beneficiado pela chamada Lei de Anistia para a Convivência Democrática, aprovada pelo Parlamento chavista em fevereiro. O pedido foi negado porque, segundo as autoridades, Victor Hugo não se enquadrava nos critérios legais. Naquele momento, porém, segundo a própria cronologia oficial divulgada depois, o Estado já sabia que ele estava morto.
Como explicar isso a uma mãe? Como justificar institucionalmente que alguém negue um pedido de anistia para uma pessoa já falecida, enquanto a família continua desesperadamente procurando respostas?
Não se trata apenas de ineficiência estatal. Não é mera burocracia. O que essa história revela é algo muito mais profundo: a deterioração moral das instituições venezuelanas. Porque há algo particularmente devastador quando um Estado deixa de tratar cidadãos como seres humanos e passa a administrá-los por meio do silêncio, da opacidade e do medo.
Que a memória de Carmen Navas sirva não apenas como denúncia da crueldade que marcou os últimos anos da Venezuela, mas também como inspiração para reconstruir um país onde nunca mais seja necessário tanto sofrimento para exigir justiça
E então veio o desfecho ainda mais doloroso. No dia 17 de maio, dez dias após o anúncio da morte de Victor Hugo, os venezuelanos se depararam com a notícia do falecimento da senhora Carmen Navas. Familiares relatam que não havia, inicialmente, nenhuma condição clínica particularmente grave. Mas aqueles que acompanharam sua trajetória dizem que, depois do segundo enterro de Victor Hugo, a senhora Carmen foi se apagando aos poucos.
O caso de Victor Hugo Quero não é um episódio isolado. Tampouco uma exceção dentro do sistema repressivo venezuelano. É, na realidade, a ponta de um iceberg muito mais profundo, sombrio e doloroso. Segundo cifras da organização de direitos humanos Provea, Victor Hugo tornou-se o 27º preso político a morrer sob custódia do Estado venezuelano desde 2024. Vinte e sete vidas foram interrompidas enquanto estavam sob responsabilidade direta do Estado. Vinte e sete famílias marcadas pela dor, pela impunidade e pela ausência de respostas.
E, assim como Carmen Navas, existem hoje muitas famílias venezuelanas que continuam procurando notícias sobre seus familiares detidos, profundamente alarmadas diante da possibilidade de que a história de Victor Hugo não seja uma exceção, mas um presságio.
De acordo com dados da organização Foro Penal, desde 2014 mais de 14 mil pessoas foram detidas na Venezuela por razões políticas. Desse total, até 19 de maio, pelo menos 429 ainda permaneciam presas.
Trata-se de pessoas envolvidas pela incerteza de saber se conseguirão sair dos centros de detenção, apesar dos recorrentes anúncios feitos nos últimos dias pela ditadora interina, Delcy Rodríguez.
Essa incerteza é produto de um sistema de Justiça que, há décadas, vem sendo minado pelo regime chavista e instrumentalizado para submeter, torturar e, em muitos casos, eliminar cidadãos inocentes. Um sistema no qual o destino dos presos políticos, dependendo de sua relevância pública, passou a ficar sob o controle de alguns hierarcas do chavismo. Diversos familiares têm evitado fazer denúncias públicas ou procurar apoio de organizações defensoras de direitos humanos por medo de represálias.
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Além de tudo isso, também é importante lembrar daquelas pessoas que não têm familiares que, como a senhora Carmen, possam tornar pública sua situação. Pessoas que pereceram em prisões colapsadas pela superlotação, pela insalubridade, pelas doenças e pela fome.
E essa incerteza persiste inclusive diante das contradições no comportamento das lideranças chavistas. Enquanto continuam sendo utilizados aparatos de segurança do Estado para conter protestos de idosos, estudantes e trabalhadores, jornalistas seguem sendo intimidados. Paralelamente, importantes figuras do chavismo continuam expressando publicamente sua convicção de permanência no poder, mesmo diante da crescente deterioração econômica, institucional e social do país. Tudo isso ocorre diante dos olhos da comunidade internacional.
É difícil saber quantas pessoas ainda se lembrarão do nome de Carmen Navas daqui a alguns meses. Mas acredito que os venezuelanos não deveriam esquecê-la.
Porque sua história diz muito sobre o país em que a Venezuela se transformou: um lugar onde uma mãe de 81 anos precisou converter os últimos meses de sua vida em uma peregrinação desesperada em busca de um filho, sem saber que ele já não estava entre os vivos.
Mas a história de Carmen Navas e Victor Hugo Quero também nos deixa um outro lembrete, talvez o mais importante em tempos tão difíceis: o de que a coragem e o amor seguem tendo um extraordinário poder mobilizador na luta contra a injustiça, mesmo quando partem das pessoas mais indefesas.
A senhora Carmen não se resignou ao silêncio. Não aceitou a indiferença. Não desistiu de procurar respostas quando tantos já teriam perdido as forças. Sua voz tornou-se, ainda que involuntariamente, a voz de muitas outras pessoas na Venezuela que seguem buscando seus filhos, sua verdade e sua dignidade.
Que a memória de Carmen Navas sirva não apenas como denúncia da crueldade que marcou os últimos anos da Venezuela, mas também como inspiração para reconstruir um país onde nunca mais seja necessário tanto sofrimento para exigir justiça.
Porque a Venezuela precisará de mais pessoas como Carmen Navas: pessoas com a coragem de enfrentar o medo, insistir na verdade e lutar pela Justiça e pela democracia, mesmo quando tudo parece impossível.
William Clavijo é cientista político venezuelano, mestre e doutor em Políticas Públicas pela UFRJ. É presidente da Associação Venezuela Global e fellow do Instituto Amplifica.


