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“Democracia do eu primeiro” é a nova face da esquerda da Geração Z

Dois fatos coincidentemente ocorridos no início de junho me ajudaram a esclarecer uma dúvida antiga: se o comunismo já foi tentado em 47 países e nunca deu certo, por que tanta gente ainda vota na esquerda radical? O primeiro fato foi um painel realizado pela Sociedade de Sabedoria Judaica de Nova York sobre 150 dias de Mamdani como prefeito de Nova York. Como vocês sabem, a capital mundial do capitalismo elegeu um prefeito comunista/socialista.

O segundo foi um artigo de capa da revista The Economist com o título “Como Lutar Contra o Socialismo da Geração Z”. A Geração Z nasceu entre 1997 e 2012, sucessora dos millennials, a primeira geração a crescer totalmente imersa na internet e nas redes sociais. O que o editor da The Economist chama de “Socialismo da Gen Z” eu chamo de “Democracia da Vagabundagem”.

O artigo da The Economist cita Mamdani como exemplo. O texto deixa claro que os eleitores de esquerda, pelo menos nos países mais desenvolvidos, não são mais motivados por ideologias coletivistas ou pela conquista dos meios de produção: o socialismo da Geração Z é uma doutrina do “eu primeiro”. Motivados pela fúria em relação a Gaza, eleitores jovens foram conquistados “em um ritmo impressionante”. A Geração Z foi influenciada por uma “cartilha eleitoral” combinando três fatores:

Financiamento do antissemitismo global, disseminando ódio a judeus no mundo inteiro, alegando que Israel estaria cometendo genocídio em Gaza. Isso tem dois efeitos: gera votos para a esquerda ao identificar judeus como culpados (já vi esse filme muitas vezes antes) e desvia a atenção de crises econômicas e corrupção.

É importante esclarecer que, no caso de Mamdani, judeus não têm nenhum preconceito para votar em um muçulmano, já que Mamdani recebeu 33% dos votos de todos os judeus que votaram para prefeito de Nova York, principalmente jovens. Sobre o suposto “genocídio em Gaza”, a Convenção das Nações Unidas sobre o Genocídio (1948) especifica cinco critérios “com intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, como, por exemplo, “matar civis de forma indiscriminada”.

A Corte Internacional de Justiça não confirmou genocídio em Gaza. Até o processo ser concluído, o uso da palavra “genocídio” é prematuro, motivado por racismo antissemita politiqueiro. Afinal, que “genocídio” é esse em que a população palestina aumentou nove vezes (900%) desde 1948? Por outro lado, gritar “Palestina Livre do Rio (Jordão) ao Mar (Mediterrâneo)” equivale a clamar pelo genocídio de todos os judeus que vivem em Israel. Fico triste quando vejo que até o Brasil, um tradicional exemplo de convivência pacífica entre árabes e judeus, se transforma em berço de antissemitas que odeiam judeus por acreditarem que Israel estaria cometendo genocídio. Tanto Lula como Mamdani ajudaram a propagar essa mentira.

A Geração Z inaugura uma nova safra na esquerda com o ‘eu primeiro’: desprezo ao emprego, ao setor privado, dependência de subsídios estatais, uso de drogas e forte expectativa de que os ricos – resultado do capitalismo que eles desprezam – irão pagar por serviços públicos que seriam grátis para eles

Demagogia populista, prometendo serviços “grátis” (Mamdani prometeu ônibus grátis, mercados populares, aluguel congelado) e controle de preços por meio da taxação dos ricos. Está amplamente demonstrado, na teoria e na prática da gestão pública, que não existe serviço público “grátis”. Subsidiar serviços taxando os ricos excessivamente sempre gerou fuga de capital e investimentos.

O exemplo mais estudado é o famoso Imposto de Solidariedade sobre a Riqueza (ISF) francês. Economistas calcularam que essa política levou a uma fuga de capitais de aproximadamente € 200 bilhões entre 1988 e 2007, resultando em grande perda líquida de receita tributária para a França. Alemanha, Dinamarca, Holanda, Noruega, Suécia e, mais recentemente, o Brasil sofreram significativas perdas de recursos fiscais tentando políticas semelhantes.

No caso do Brasil, a situação é pior: há uma combinação perversa envolvendo descontrole nos gastos do governo, aumento da dívida pública, taxas de juros altas, vários casos de corrupção e insegurança jurídica.

Desprezo pela iniciativa privada e pela geração de empregos, preferindo benefícios governamentais e bolsas sociais. Ignorar a iniciativa privada é matar a galinha dos ovos de ouro. Governos não geram riqueza, apenas distribuem receita. Governos são maus empreendedores, como demonstrado pelo fracasso de todos os países comunistas de economia centralizada.

Hoje, a China pratica capitalismo estatal, reservando para o governo monopólios estratégicos nas áreas de energia e minerais raros, telecomunicações, defesa, bancos e finanças. Mas não despreza o setor privado: 60% do PIB é gerado por empresas privadas, e há mais bilionários na China do que na Europa. Na Rússia, os chamados oligarcas são poderosos bilionários que dominam a economia capitalista, mas seu poder é subordinado ao Kremlin, i.e., Putin e aliados.

Historicamente, a esquerda defendia a “igualdade” e o “fim do capitalismo”. Talvez por ter percebido que não havia outro meio de produção alternativo ao capitalismo, a esquerda se renovou nos anos 1960. Surgiu a neoesquerda (ou “contracultura”), estimulada por acadêmicos ativistas como Herbert Marcuse e outros que queriam “uma revolução para mudar o Ocidente”.

Eles reinventaram o feminismo, promoveram o antirracismo e agora defendem causas como LGBT+ e a ideologia woke. O problema é a falta de propostas políticas claramente definidas e acionáveis. Além disso, há um forte separatismo. Por exemplo, se eu sou de centro-direita, não posso mais ser contra o racismo e contra a discriminação de mulheres e gays? Vejo isso como um grave erro tático da esquerda.

A Geração Z inaugura uma nova safra na esquerda com o “eu primeiro”: desprezo ao emprego, ao setor privado, dependência de subsídios estatais, uso de drogas e forte expectativa de que os ricos – resultado do capitalismo que eles desprezam – irão pagar por serviços públicos que seriam grátis para eles, os eleitores de esquerda. Nos EUA, Europa e Brasil, os democratas da vagabundagem preferem receber benesses do governo a trabalhar. Assim como um vírus, a esquerda sobreviveu por meio de mutações para se manter relevante e aceita.

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Curiosamente, o falecido rabino de Londres, Lord Jonathan Sacks, descreveu o antissemitismo como um vírus que sempre evoluiu mudando de forma. Primeiro foi o ódio religioso (judeus teriam matado Jesus, apesar de o Vaticano já ter oficialmente negado essa acusação falsa), seguido do ódio racial (nazismo), e atualmente temos o ódio político que ataca a legitimidade de Israel, criando mitos conspiratórios sobre um suposto “genocídio”, “colonialismo”, “roubo de terras”, “assassinato de crianças” e outros.

Mas lembrem a lição da História: o ódio que começa contra judeus nunca acaba apenas em judeus. Absurdamente, hoje vemos até negros sendo nazistas e gays defendendo o Hamas.

O painel que debateu os 150 dias do prefeito Mamdani em Nova York chegou a uma conclusão controversa. Há dois “Mamdanis”: o ideológico e o administrador. O Mamdani ideológico prometeu o que não podia cumprir – moradia barata, mercados populares e ônibus de graça – porque depende de dotações estaduais. Alguns analistas já antecipam recessão, crise fiscal e insegurança urbana. O Mamdani administrador vai tentar entregar uma Nova York com transporte eficiente e seguro, lixo coletado, ruas limpas, diminuição do crime e tranquilidade na cidade.

Resumindo, um bom administrador promove incentivos para aumentar sua base tributária, respeitando quem produz, enquanto implementa programas sociais sem populismo paternalista. Se houver uma crise em Nova York, não será a primeira vez. E a cidade poderá se reerguer elegendo prefeitos republicanos menos ideológicos e mais pragmáticos, como Fiorello La Guardia (1934 a 1945) e Rudolph Giuliani (1994 a 2001).

Nos EUA, na Europa ou no Brasil, a solução se chama trabalho: incentivar a geração de riqueza, atrair investimentos, combater o crime e premiar aqueles que querem contribuir com a sociedade agregando valor, e não apenas reclamando direitos.

O populismo ideológico pode ser tentador, mas, no fundo, é a habilidade administrativa para oferecer bons serviços públicos que verdadeiramente define o valor de qualquer político, seja em uma prefeitura ou na Presidência da República.

Jonas Rabinovitch é arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como conselheiro sênior em inovação, gestão pública e desenvolvimento urbano da ONU em Nova York.

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