Durante décadas, a Copa do Mundo foi apresentada como uma celebração universal capaz de suspender, ainda que temporariamente, conflitos políticos, rivalidades históricas e diferenças culturais. O futebol aparecia como uma linguagem comum, compreendida em qualquer continente, apta a unir povos em torno de uma competição esportiva. A edição de 2026, entretanto, parece desafiar essa narrativa de maneira particularmente intensa. Realizada simultaneamente nos Estados Unidos, no México e no Canadá, a maior Copa da história, com 48 seleções participantes, surge cercada por controvérsias que ultrapassam os limites do gramado e revelam tensões profundas do mundo contemporâneo.
A dimensão econômica do torneio constitui um dos primeiros elementos de inquietação. A Fifa adotou um sistema de preços dinâmicos para a comercialização dos ingressos, mecanismo que ajusta valores de acordo com a demanda do mercado. Embora essa prática seja comum em setores como transporte aéreo e hotelaria, sua aplicação em um evento esportivo de alcance global despertou críticas severas. Os preços alcançados para determinadas partidas, especialmente para a final, transformaram a experiência de assistir ao torneio em um privilégio acessível a uma parcela extremamente reduzida da população.
A lógica mercantil parece ter avançado sobre um espaço tradicionalmente ocupado pela paixão popular. O torcedor comum, figura que historicamente conferiu identidade às Copas do Mundo, corre o risco de ser substituído por consumidores de alto poder aquisitivo e clientes corporativos. A consequência simbólica é relevante: um evento construído sobre a mobilização emocional de milhões de pessoas passa a ser percebido como um espetáculo direcionado prioritariamente às elites econômicas globais.
As dificuldades relacionadas às políticas migratórias representam outra fonte de preocupação. A escolha dos Estados Unidos como principal sede da competição coloca em evidência um paradoxo difícil de ignorar. Enquanto a Fifa promove discursos de integração entre os povos, a entrada de visitantes em território norte-americano continua submetida a regras rígidas e procedimentos burocráticos complexos. A obtenção de vistos tornou-se um desafio para torcedores de diversos países, especialmente aqueles provenientes de regiões consideradas sensíveis sob a ótica da segurança nacional.
Grandes competições internacionais movimentam recursos bilionários, mobilizam governos e influenciam a imagem global de países inteiros. Diante dessa magnitude, torna-se difícil sustentar que futebol e política ocupam universos completamente separados
O caso do Irã tornou-se emblemático. As tensões diplomáticas entre Washington e Teerã produziram obstáculos que ultrapassam a esfera esportiva. Relatos de dificuldades para o ingresso de integrantes ligados à delegação iraniana alimentaram questionamentos sobre a capacidade de uma competição internacional funcionar adequadamente quando inserida em um ambiente caracterizado por conflitos geopolíticos tão expressivos. A situação expõe uma fragilidade estrutural: o país anfitrião possui instrumentos de soberania capazes de afetar diretamente a participação de atletas, dirigentes e torcedores.
Essa realidade conduz a uma reflexão mais ampla sobre a relação entre futebol e política internacional. A Copa de 2026 será disputada em um período de intensificação das disputas estratégicas entre grandes potências, crescimento de movimentos nacionalistas e recrudescimento de conflitos regionais. Sob essas circunstâncias, os jogos deixam de ser apenas eventos esportivos e passam a funcionar como símbolos de disputas históricas, identitárias e diplomáticas.
Algumas partidas possuem potencial para despertar memórias que transcendem a competição. Confrontos envolvendo antigas potências coloniais e países anteriormente submetidos a seus domínios tendem a reacender debates sobre imperialismo, exploração econômica e desigualdades históricas. França e Senegal, Inglaterra e Gana, por exemplo, não carregam apenas trajetórias futebolísticas distintas; representam também capítulos complexos da história colonial africana. O campo de jogo converte-se, assim, em um espaço de representação simbólica onde narrativas nacionais são reafirmadas, contestadas ou reinterpretadas.
A crescente militarização das relações internacionais também contribui para ampliar a carga política do torneio. Quando países participantes mantêm relações diplomáticas hostis ou se encontram envolvidos em disputas diretas ou indiretas, qualquer partida pode adquirir significado que extrapola o placar final. Protestos de atletas, manifestações de torcedores e posicionamentos de governos possuem potencial para transformar jogos em episódios de repercussão global.
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Paralelamente, a questão ambiental emerge como uma das críticas mais consistentes dirigidas à competição. A realização da Copa em três países distintos exige uma logística sem precedentes. As distâncias entre cidades-sede são enormes, exigindo deslocamentos constantes de delegações, equipes de apoio, jornalistas e milhões de torcedores. O resultado é uma pegada de carbono monumental.
Estimativas apontam para a emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono associadas ao torneio. Embora os organizadores até possam apresentar programas de compensação ambiental, especialistas questionam a efetividade dessas iniciativas. A crítica central reside no fato de que compensar emissões não equivale necessariamente a evitá-las. Em outras palavras, plantar árvores ou financiar projetos sustentáveis não elimina imediatamente os impactos provocados pelo transporte aéreo intensivo e pelo elevado consumo energético associado ao evento.
O debate ganha ainda mais relevância diante da crescente urgência das mudanças climáticas. Enquanto governos, empresas e cidadãos são incentivados a reduzir emissões e adotar práticas sustentáveis, megaeventos esportivos continuam operando sob uma lógica de expansão permanente. A Copa de 2026 simboliza essa contradição de maneira particularmente evidente. Nunca houve uma edição com tantas seleções, tantas cidades envolvidas e tamanha necessidade de deslocamento internacional.
As controvérsias envolvendo a neutralidade institucional da Fifa acrescentam outro elemento ao debate. A proximidade entre lideranças da entidade e figuras políticas influentes tem alimentado dúvidas sobre a capacidade da organização de manter equidistância diante de temas sensíveis. A exclusão da Rússia de competições internacionais em razão da guerra na Ucrânia foi interpretada por muitos como uma decisão coerente com determinadas exigências da comunidade internacional. Ao mesmo tempo, críticos argumentam que critérios semelhantes nem sempre são aplicados com uniformidade quando se trata de outros Estados envolvidos em conflitos armados ou disputas geopolíticas.
Esta discussão revela uma questão antiga: a neutralidade absoluta no esporte talvez seja mais uma aspiração do que uma realidade concreta. Grandes competições internacionais movimentam recursos bilionários, mobilizam governos e influenciam a imagem global de países inteiros. Diante dessa magnitude, torna-se difícil sustentar que futebol e política ocupam universos completamente separados.
Também merecem atenção os impactos sociais produzidos pelas obras e investimentos associados ao torneio. Projetos de infraestrutura podem gerar valorização imobiliária acelerada, deslocamento de moradores e processos de gentrificação em áreas urbanas estratégicas. Embora as intervenções sejam muitas vezes justificadas em nome do desenvolvimento econômico, os benefícios nem sempre são distribuídos de maneira equilibrada entre os diferentes grupos sociais.
A Copa do Mundo de 2026, portanto, apresenta-se como muito mais do que uma competição esportiva. Ela funciona como um retrato das contradições contemporâneas, revelando tensões entre mercado e acesso popular, soberania estatal e integração internacional, crescimento econômico e sustentabilidade ambiental, neutralidade esportiva e interesses políticos. O futebol continuará sendo o centro das atenções, mas dificilmente será o único protagonista. Ao redor dos estádios, desenrola-se uma disputa silenciosa sobre os rumos da globalização, o papel das instituições internacionais e os limites éticos dos megaeventos do século XXI.
Mauro Vasni Paroski é juiz do Trabalho em Londrina (PR).


