Retrato do ex-presidente Ronald Reagan no Salão Oval da Casa Branca, enquanto Donald Trump faz um pronnciamento. (Foto: Jim Lo Scalzo/EFE/EPA/Pool)
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Apenas dois presidentes dos Estados Unidos mudaram a direita norte-americana (e do mundo) desde o início da Guerra Fria: Ronald Reagan e Donald Trump. Do primeiro, Reagan, originou-se a expressão “Reagan Republican”, a nova persona do Partido Republicano americano, que amalgamava conservadorismo e liberalismo ao máximo possível. O segundo, Trump, motivou o surgimento do fenômeno Maga (“Make America Great Again”), mudando a orientação do partido rumo a um nacionalismo político e econômico.
As diferenças entre Reagan e Trump servem para entendermos as diferenças entre a Guerra Fria original, entre Estados Unidos e União Soviética, e essa “nova” Guerra Fria, contra China e Rússia. Não apenas o adversário norte-americano mudou, como também sua própria pauta e doutrina.
A diferença fundamental entre Reagan e Trump não está no estilo, na personalidade ou mesmo na política econômica. Está em algo muito mais profundo: Reagan sustentava que a Guerra Fria era uma disputa pela liberdade. Trump fala da disputa com a China principalmente como uma questão de comércio, empregos e poder.
Reagan disse, em 1985, ao preparar-se para um encontro com Mikhail Gorbachev:
“Quando falamos de paz, não devemos nos referir apenas à ausência de guerra. A verdadeira paz repousa sobre os pilares da liberdade individual, dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos e do respeito ao Estado de Direito. Construir um futuro mais seguro exige que enfrentemos com franqueza todas as questões que nos dividem, e não apenas uma ou duas delas, por mais importantes que possam ser.”
A ameaça chinesa, avaliada pelas falas de Trump, parece ser apenas econômica e geopolítica. Mas o problema é muito maior: a China é um totalitarismo liberticida
Reagan entendia muito bem que o poder norte-americano estava assentado na superioridade em três campos: moral, econômico e militar. O argumento era lógico: Os Estados Unidos são fortes militarmente. E o são porque o país é rico. Mas o país só e rico porque é livre. Tanto a sua capacidade econômica quanto sua potência militar dependem fundamentalmente de uma posição moral superior: enquanto a União Soviética era um totalitarismo ditatorial, a América era um país livre.
Havia inclusive dúvidas sobre a vantagem militar americana, posto que os soviéticos mascaravam sua verdadeira capacidade e produziam volumosa propaganda, da qual os desfiles de mísseis por Moscou eram apenas uma parte. Até mesmo a economia soviética era superdimensionada, com a manipulação dos dados. Mas a diferença fundamental era incontornável e inequívoca: o modelo de sociedade e de organização política.
Reagan refletia isso em todas as suas falas importantes. Jamais deixava de falar em liberdade. Era, afinal, a liberdade a grande causa. Era ela que motivava a Guerra Fria pelo lado americano. Sim, era uma batalha geopolítica, e sim, os interesses americanos existiam e eram protegidos pelo governo dos Estados Unidos. E a história mostra que os EUA não se constrangiam em apoiar ditaduras quando isso fosse necessário nessa esgrima com o regime soviético.
Mesmo assim, a sustentação de toda a estratégia americana estava na retórica da liberdade. A vitória veio, no fim, pela queda do Muro de Berlim – que não foi um ato militar nem econômico: foi um ícone cultural de restauração da liberdade. Sem o “sonho americano”, sem a estética das calças jeans e do rock and roll, sem a Coca-Cola e a guitarra, não haveria a avassaladora vitória cultural que garantiu ao Ocidente livre a hegemonia nos anos que se seguiram.
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Daí a relevância das diferenças entre Trump e Reagan, e entre as escaramuças com União Soviética e com a China.
A liberdade saiu do discurso norte-americano. A ameaça chinesa, quando avaliada apenas a partir das falas de Trump, parece ser apenas econômica e geopolítica – como se o problema fossem apenas os empregos, o investimento, o déficit da balança comercial, ou a influência sobre os demais países.
Mas o problema é muito maior: a China é um totalitarismo liberticida, que pode ter sucesso econômico (e com ele vem indubitavelmente maior capacidade militar), mas que jamais pode ser considerada sem que se tenha em mente essa perspectiva. O avanço econômico chinês não é mero ganho de mercados, é um instrumento de uma batalha muito mais profunda, como era a batalha da Guerra Fria. O que está em jogo é o futuro da liberdade – muito mais do que os empregos.
Quando os Estados Unidos não marcam suficientemente essa diferença, deixam de lado o aspecto fundamental de seu poder: a superioridade moral de um modelo político baseado em liberdades individuais, direitos humanos, democracia e Estado de Direito. E isso tem consequências.
A principal consequência imediata é a falta de apoio internacional. Os EUA perdem aliados quando a disputa é apresentada apenas em termos de poder, território ou influência, ou quando Trump fala como se a geopolítica fosse a causa, e não um instrumento da causa maior (a liberdade). Se a economia e a geopolítica são tudo o que importa, os EUA descem a um nível de equivalência com a China. Passam a ser dois países “iguais” disputando mercados e influência.
Vencer a Nova Guerra Fria exigirá dos EUA um encontro com seu passado, com suas raízes, com sua mais importante tradição: a defesa da liberdade
Mas a consequência de médio e longo prazo é o enfraquecimento da causa da liberdade. Quando as diferenças entre um modelo livre e um modelo totalitário deixam de ser ressaltadas diariamente, elas vão sumindo atrás da bruma da disputa econômica do dia. A opinião pública já não vê a China como um país totalitário, e o Ocidente é muito mais benevolente com ela do que era com os soviéticos. No longo prazo, quem será vencedor na batalha por corações e mentes?
Cabe ao presidente do Estados Unidos marcar a diferença. É a ele que incumbe a tarefa de apresentar-se como “líder do mundo livre”. É o ônus (ou privilégio) de posicionar-se como reserva moral da liberdade no mundo. Reagan sabia disso. Trump parece escolher outro caminho. Mas pode mudar, e um caminho para isso seria exigir mudanças no modelo chinês, como Reagan pressionou constantemente por abertura na União Soviética. Ele sempre acreditou que era preciso derrotar o comunismo, não apenas vencê-lo economicamente: “A marcha da liberdade e da democracia relegará o marxismo-leninismo ao aterro de lixo da história, como já fez com outras tiranias que sufocam a liberdade e silenciam a voz dos povos”.
Seria injusto ignorar que Trump foi o primeiro presidente americano em décadas a reconhecer a dimensão estratégica do desafio chinês. Enquanto republicanos e democratas apostavam que a integração econômica transformaria a China em uma sociedade mais livre, Trump percebeu que o Partido Comunista Chinês utilizava essa integração para fortalecer seu próprio poder.
No entanto, vencer a Nova Guerra Fria exigirá dos Estados Unidos um encontro com seu passado, com suas raízes, com sua mais importante tradição: a defesa da liberdade. O aniversário de 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos marcará, nesse 4 de julho, uma oportunidade ímpar. Mais do que força militar e força econômica, a América precisa mostrar que ainda é um farol de liberdade. O verso do hino americano é quase um slogan: “land of the free, home of the brave”, ou seja, “terra dos livres, lar dos bravos” – um registro dessa relação dual entre força e moral. Esse laço jamais pode ser rompido, e dele depende, hoje como sempre, o futuro do Ocidente.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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