A eleição que pode levar Keiko à presidência também entrou para a história por ser uma das mais acirradas já vistas. (Foto: Renato Pajuelo/EFE)
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Em uma das eleições mais disputadas da história recente da América Latina, uma mulher voltou a dominar o debate político: Keiko Fujimori.
Esta não é sua primeira tentativa. Nem a segunda. Nem a terceira. Depois de três derrotas presidenciais, todas por margens apertadas, ela está novamente a poucos votos de chegar ao cargo mais importante do país.
A eleição que pode levar Keiko à presidência também entrou para a história por ser uma das mais acirradas já vistas. Com mais de 99% dos votos apurados, a diferença entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez chegou a ser de poucas centenas de votos. Até a conclusão deste artigo, o resultado oficial ainda não tinha sido divulgado.
E perceba que estamos falando de uma eleição que já deu o que falar no primeiro turno.
Rafael López Aliaga, o terceiro colocado e rotulado pela imprensa como “extrema direita”, denunciou os órgãos eleitorais por irregularidades que podem ter alterado o resultado.
Para entender melhor, liguei para um amigo peruano que conheci durante meu período no Cato Institute, em Washington DC. Alfredo Ferrero Galván acredita que as suspeitas não são tão absurdas quanto parecem. Segundo ele, atrasos na contagem dos votos em Lima, onde López era especialmente popular por ter sido prefeito, podem até ter influenciado a composição do segundo turno.
Keiko é uma política com um bom projeto econômico, firme na pauta de segurança pública e disposta a construir alianças
Mas, afinal, quem são os candidatos que podem governar o Peru em meio a tanta instabilidade?
Do lado esquerdo está Roberto Sánchez. Ele foi o único ministro que ficou até o fim no governo de Pedro Castillo, aquele que acabou preso após tentar dar um golpe de Estado em rede nacional. Sánchez nunca escondeu sua ligação com o chamado “castillismo”. Ao defender o indulto para o ex-presidente, ele deixa claro que seu plano é dar continuidade àquele projeto político.
Projeto político que representa a clássica agenda estatista da esquerda latino-americana: congelar preços e inflar a máquina pública. Sánchez chegou inclusive a sugerir a demissão de Julio Velarde, o presidente do Banco Central e o grande responsável por manter o sol peruano estável. A ideia de mexer na única instituição que realmente funciona assustou tanto a população que ele foi obrigado a recuar.
As preocupações não param por aí. Sánchez também é criticado por suas ligações com figuras radicais, como Antauro Humala, o líder de um levante armado que executou policiais a sangue frio e que hoje ameaça fechar as instituições do país.
Adversários também o associam ao Sendero Luminoso, o grupo terrorista maoísta responsável por desencadear a fase mais sangrenta da história peruana, deixando um rastro de mais de 30 mil mortos.
Do lado direito está então Keiko Fujimori. É nela que Alfredo Ferrero Galván decidiu votar no segundo turno. Segundo ele, Keiko é uma política com um bom projeto econômico, firme na pauta de segurança pública e disposta a construir alianças para enfrentar os principais problemas do país.
No exterior, a candidata de ascendência japonesa lidera com folga. Keiko depende justamente do peso dos votos dos imigrantes para reverter o placar e tentar sacramentar a virada na reta final da apuração.
Existe, no entanto, uma grande polêmica em torno da candidatura de Keiko. Ela é filha de Alberto Fujimori, um dos presidentes mais controversos da história peruana. Para seus críticos, o autoritarismo de ter dissolvido o Congresso em 1992 apaga qualquer conquista, enquanto seus apoiadores preferem focar no homem que salvou o Peru do terrorismo e da hiperinflação.
Na nossa conversa, Alfredo relembrou o tempo em que os peruanos tinham medo de chegar até a esquina de casa. Era a época em que carros-bomba explodiam nas ruas e o Sendero Luminoso ditava o ritmo do medo no país. Para ele, o Peru só conseguiu recuperar a segurança porque houve um enfrentamento implacável contra o terrorismo por Fujimori.
Isso não significa que não tenham ocorrido excessos. Ainda assim, para Ferrero, é impossível compreender o apoio que Fujimori mantém até hoje sem considerar o contexto de violência que o Peru vivia naquele momento.
Na economia, o impacto é o mesmo. O paralelo mais óbvio para nós é o Plano Real: Fujimori pegou o Peru destruído pela hiperinflação e fez as reformas que salvaram o sol peruano. O resultado é uma moeda que segue como uma das mais estáveis da América Latina, resistindo intacta a crises sucessivas e à troca de oito presidentes em apenas dez anos.
Por isso, Ferrero não vê o sobrenome Fujimori como um problema. “Keiko não é Alberto, vive em outro momento da história, enfrenta desafios diferentes e deve ser julgada por suas próprias propostas, não apenas pelas decisões tomadas por seu pai há mais de três décadas”, reforçou.
No fim, a eleição mais apertada da história do Peru é puro pragmatismo. Depois de três derrotas seguidas na trave, Keiko Fujimori está a poucas centenas de votos de finalmente chegar ao poder, empurrada por um eleitor que escolheu entre o medo do retrocesso econômico e o peso do seu sobrenome.
O resultado vai dizer se o fujimorismo ainda tem força para garantir alguma estabilidade institucional ou se o próximo governo será apenas mais um capítulo de paralisia política em um país ingovernável.
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