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Apostar em Deus: por que é melhor crer do que ser ateu

Se os relatos estiverem corretos, a religião está recuperando espaço entre os jovens nos Estados Unidos e em outros lugares. Mas, em termos absolutos, o número de ocidentais praticantes continua historicamente baixo, enquanto o número dos chamados “sem religião” – ateus, agnósticos e indiferentes – é maior do que nunca. O que os crentes poderiam fazer para transformar esse recente crescimento do teísmo em um renascimento religioso mais amplo?

Difundir argumentos racionais tradicionais em favor da existência de Deus, como as cinco vias de Tomás de Aquino, talvez não seja muito útil. Esses argumentos pressupõem que seus ouvintes concordem que existem verdades imutáveis e transcendentes e que é melhor viver de acordo com elas do que ignorá-las. Mas muitos hoje não possuem tais convicções.

Os marxistas críticos acreditam que a verdade transcendente é irrelevante para as necessidades reais das pessoas. Para eles, a “realidade ou irrealidade do pensamento” é determinada apenas pelo que funciona na “prática”. Aqueles que raciocinam segundo princípios transcendentes e a lógica, dizem eles, apenas procuram impor suas preferências aos outros; todo argumento racional seria mera racionalização.

As verdades, no máximo, seriam as conclusões da ciência empírica, constantemente revisadas; a verdade não seria uma realidade eterna situada acima de nós. Tecnocratas que aceitam esse materialismo, mas não o espírito revolucionário e disruptivo do marxismo, procuram subordinar a religião – e todo idealismo voltado para a busca da verdade – ao “bem-estar” material.

Se Deus existe, é infinitamente melhor acreditar nele e, consequentemente, alcançar o céu, do que rejeitá-lo e, por isso, sofrer condenação eterna

Há também as incontáveis multidões que vivem como se Deus não existisse, mesmo quando se consideram religiosas. Elas experimentam a vida como algo “desencantado”, pobre de significado, sentindo cada dia como apenas “uma maldita coisa atrás da outra”.

Para muitos, a vida parece um jogo conduzido por forças além do nosso controle, sejam elas a “evolução”, “o mercado”, o “Estado profundo” ou os algoritmos das redes sociais. Nossas vidas são organizadas por tecnologias que a maioria de nós não compreende; confiamos na tecnologia e nos “especialistas” que a criam simplesmente porque ela funciona. E, ainda assim, os especialistas nem sempre entendem aquilo que produzem, como ocorre com a chamada “inteligência artificial”.

Apelos à verdade absoluta, moral ou de qualquer outra natureza, dificilmente persuadirão pessoas formadas pela lógica prática e experimental de nosso tempo. Uma defesa melhor do teísmo talvez seja seguir o caminho adotado pelo matemático e filósofo francês do século XVII Blaise Pascal.

O jogo da vida

A França de quatrocentos anos atrás não era uma tecnocracia secular, mas partes dela começavam a experimentar a mesma desilusão espiritual que permeia o mundo atual. Cansados das guerras religiosas e impressionados pelas novas ciências empíricas, muitos dos contemporâneos instruídos de Pascal passaram a duvidar da existência – ou ao menos da relevância – de verdades transcendentes que não pudessem ser comprovadas por experimentos científicos.

Essas dúvidas eram particularmente fortes quando se tratava da questão de Deus. Pascal resumiu assim o argumento desses céticos: “Se existe um Deus, Ele é infinitamente incompreensível, pois, não possuindo partes nem limites, não tem afinidade alguma conosco. Somos incapazes, portanto, de saber o que Ele é ou mesmo se Ele é. Sendo assim, quem ousará decidir essa questão? Certamente não nós, que não temos afinidade com Ele”.

Em resposta, Pascal decidiu escrever um livro em defesa do teísmo e, em particular, do cristianismo. Nunca o concluiu, mas muitas de suas anotações foram preservadas e publicadas postumamente sob o título Pensées (Pensamentos).

Se Deus não existe e não há vida após a morte, acreditar nele não causa prejuízo e ainda produz benefícios nesta vida, como o crescimento na virtude moral

Uma das notas mais extensas – e talvez a mais famosa – é A Aposta. Nela, Pascal apresenta um argumento em favor do teísmo diferente daqueles utilizados por Aquino e por outros apologistas religiosos pré-modernos.

Pascal aceita o julgamento do cético de que a existência de Deus não pode ser conhecida pela razão. Afinal, São Paulo admite que o cristianismo parece “loucura” para aqueles que ainda não creem.

Contudo, Pascal responde que essa suposta incapacidade da razão para conhecer Deus é um argumento insuficiente contra a religião. Pois, se a razão não pode determinar se Deus existe, como afirma o cético, ela também não pode responder à pergunta sobre se devemos acreditar nele.

Qualquer uma das posições torna-se uma espécie de opinião, um assentimento por decisão, em que a vontade precisa mover a pessoa a crer – ou não crer –, porque não há evidências racionais suficientes para levar o intelecto ao assentimento por si só.

E, se não pode haver evidência decisiva, então a decisão torna-se completamente arbitrária, como em um jogo de azar, por exemplo o lançamento de uma moeda. Embora as probabilidades de cara ou coroa sejam conhecidas, ninguém pode prever racionalmente qual lado aparecerá em cada lançamento; só é possível apostar.

Assim, Pascal pergunta ao cético: “Em que você apostará” quando se trata de Deus?

Ele propõe, em essência, que, se Deus existe, é infinitamente melhor acreditar nele e, consequentemente, alcançar o céu, do que rejeitá-lo e, por isso, sofrer condenação eterna.

Se Deus não existe e não há vida após a morte, acreditar nele não causa prejuízo e ainda produz benefícios nesta vida, como o crescimento na virtude moral à medida que o crente procura tornar-se digno do céu.

Portanto, a melhor aposta é acreditar em Deus.

Muitos questionaram a correção do raciocínio de Pascal. Alguns observam que, se Deus é realmente incompreensível, então, mesmo que exista, não podemos saber se recompensa os bons ou se, ao contrário, pune aqueles que não possuem razões suficientes para suas crenças.

Muitas dessas objeções poderiam ser respondidas pelas defesas tradicionais do teísmo, como as provas metafísicas de Aquino. Infelizmente, Pascal dificilmente pode recorrer a esse auxílio, porque ele próprio é, em certa medida, um cético.

Existem apenas dois fins possíveis para a existência humana: viver apenas para si mesmo ou viver para o Outro transcendente e, por meio dele, para todos os demais

Ele afirma que “se ofendermos os princípios da razão, nossa religião será absurda e ridícula”, mas também despreza as “provas metafísicas da existência de Deus” como sendo “tão distantes do raciocínio humano e tão intrincadas que produzem pouco efeito”.

Ele chega até mesmo a questionar o primeiro princípio da metafísica – o princípio da não contradição –, afirmando: “A contradição não é mais sinal de falsidade do que a ausência dela é sinal de verdade”.

Mas essas fragilidades não comprometem o ponto mais importante de Pascal. A força da Aposta reside menos na certeza de sua conclusão final – de que acreditar em Deus é a melhor aposta – do que em sua intuição inicial: a de que a perspectiva incerta do ceticismo funciona tanto a favor do teísmo quanto contra ele.

Se alguém duvida da existência de realidades metafísicas imutáveis – seja com a hesitação do cético, seja com a confiança do ateu –, aceita a possibilidade de que a realidade, embora pareça ordenada para todos nós, esteja fundamentada em processos não inteligentes tão aleatórios quanto o resultado de um lançamento de moeda.

Mas, se é possível que a razão de toda a humanidade esteja tão enganada – percebendo uma ordem fundamental onde ela não existe –, então a razão humana não possui uma conexão necessária com o mundo real.

Cada mente seria como a de um homem à deriva no mar, sem sequer uma tábua à qual se agarrar, afogando-se em um universo caótico. Se o conhecimento humano é tão incerto assim, então acreditar em Deus é, no mínimo, tão aceitável quanto não acreditar.

Por isso, Pascal adverte seu interlocutor: “não atribua erro àqueles que fizeram uma escolha [por Deus], pois você nada sabe sobre isso”.

No referencial cético, a crença do teísta é incognoscível – incapaz de ser analisada racionalmente – porque não seria racional. Mas o mesmo vale para a descrença do ateu.

E o ceticismo agnóstico, para o qual Pascal imagina seu interlocutor recuando, nem sequer é uma possibilidade.

“Sim, mas você precisa apostar. Não é opcional. Você já está embarcado”, responde Pascal.

Ou, com Nietzsche, renunciamos a Deus e tentamos, em vão, “nos tornar deuses”, preenchendo o vazio de uma vida sem Deus; ou, com São João da Cruz, aceitamos nossa dependência de Deus Todo-Poderoso e abraçamos o caminho do amor que se esvazia de si mesmo e conduz à plenitude da alegria.

Existem apenas dois fins possíveis para a existência humana: viver apenas para si mesmo ou viver para o Outro transcendente e, por meio dele, para todos os demais.

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Talvez seja verdade, afinal

Alguns céticos ou ateus podem afirmar que estão comprometidos com a verdade e a razão. Mas, se forem sinceros nessa afirmação, já deixaram o mundo do acaso aleatório, sem o qual o ateísmo se torna insustentável; mais cedo ou mais tarde terão de admitir a existência de Deus, como argumentaram Maimônides, Avicena, Aristóteles, Aquino, Leibniz e outros.

Mas, se permanecerem em um universo mental em que a vida é apenas um jogo de dados, apelos ao que é certo provavelmente terão pouco efeito.

O teísta faria melhor em apresentar a questão de Deus como Pascal fez: uma aposta.

Em qual crença você está disposto a apostar o curso de sua vida?

Que o sentimento de culpa ou alegria que você experimenta diante de suas ações é produto de uma evolução material aleatória? Ou que ele é a voz silenciosa de uma inteligência soberana que existe além de você?

Você apostaria que nosso universo ordenado surgiu do nada? Ou que foi criado por um Ser sábio que existe por sua própria natureza?

Se a explicação teísta do mundo parece mais provável, por que não tentar acreditar em Deus, começando por pedir a Ele ajuda para acreditar?

Se alguém perseverar nessa decisão por mais do que alguns dias – o suficiente para ultrapassar a própria zona de conforto –, a vida talvez continue parecendo um jogo, mas de uma forma diferente: não como uma sucessão interminável de problemas, mas como um conjunto de desafios que, quando enfrentados com coragem, nos tornam melhores e revelam possibilidades em nós mesmos que antes não percebíamos.

Talvez a pessoa passe a sentir-se menos como um peão empurrado por uma mão invisível sobre um tabuleiro de xadrez e mais como um jogador em um campo esportivo, acompanhado e encorajado pela sabedoria silenciosa, porém constante, de Deus.

Os teístas que apresentam o caso de Deus dessa forma podem surpreender-se com o efeito que isso produz até mesmo em céticos aparentemente convictos.

Ao apontar a incerteza da “fé” do ateísmo, Pascal pode despertar os céticos de sua autoconfiança, de modo semelhante à história de um rabino que certa vez desconcertou um incrédulo seguro de si.

Um adepto do Iluminismo, homem muito erudito, visitou o Rabino de Berdichev para refutar, como costumava fazer, as antigas provas da fé religiosa.

Ao entrar no aposento do rabino, encontrou-o andando de um lado para outro com um livro nas mãos, absorto em seus pensamentos. O rabino não prestou atenção ao visitante.

De repente, parou, lançou-lhe um rápido olhar e disse: “Mas talvez seja verdade, afinal.”

O estudioso tentou em vão recompor-se. Seus joelhos tremiam. Tão impressionante era a figura do rabino, e tão perturbadora sua simples frase.

Então o rabino voltou-se para ele e falou calmamente: “Meu filho, os grandes estudiosos da Torá com quem você debateu desperdiçaram suas palavras. Ao sair, você ria deles. Eles não conseguiram colocar Deus e Seu Reino sobre a mesa diante de você, e eu também não posso. Mas pense, meu filho: talvez seja verdade.”

John Doherty é diretor financeiro do Instituto Witherspoon.

©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Betting on God

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