Protesto do Black Lives Matter em Washington, em 2020: auge da cultura woke (Foto: EFE/EPA/Shawn Thew) (Foto: )
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Durante uma prova estudantil de atletismo realizada em abril de 2025 em Frisco, no Texas, o adolescente americano Austin Metcalf, de 17 anos, estava abrigado da chuva junto com seus colegas numa tenda, quando foi brutalmente assassinado por um aluno da escola rival.
O assassino, Karmelo Anthony, também de 17 anos, quis infiltrar-se no grupo e foi solicitado diversas vezes a se retirar, mas se recusava a fazê-lo e chegou a desafiar a turma a tirá-lo de lá. Os ânimos se acirraram e Metcalf lhe deu um leve empurrão, segundo depoimentos das testemunhas e imagens gravadas da cena. Mas foi o suficiente para Anthony pegar uma faca na mochila e cravá-la no peito de Metcalf. O garoto morreu na hora, em meio a poças de sangue, nos braços de seu irmão gêmeo, que estava junto com ele na tenda.
Diante do ocorrido, seria natural que o crime sórdido cometido por Anthony, pelo qual ele foi condenado a 35 anos de prisão na semana passada, gerasse um sentimento de indignação e revolta de forma praticamente unânime na população. A reação que se seguiu, porém, mostrou como a chaga do identitarismo – que contagiou não só os Estados Unidos nas últimas décadas, mas quase todo o Ocidente, inclusive o Brasil – tem deturpado a verdade dos fatos e ampliado a divisão entre os diferentes grupos da sociedade.
Como Metcalf era branco e Anthony, negro, o que deveria ser visto como um ato de violência vil, sem grandes questionamentos, transformou-se num caso de suposto racismo. Embora não tenha sido apresentada qualquer evidência de que Metcalf ou algum de seus colegas tenha dirigido qualquer ofensa racial contra Anthony, ele e sua família procuraram se escorar nisso e na alegação de “legítima defesa”, para tentar justificar o crime, mesmo que sua vida não estivesse em risco.
“Supremacia branca”
Como a gente infelizmente está cansado de ver por aí, boa parte da esquerda e do movimento negro americanos saiu em apoio ao autor do crime, procurando explorar a tragédia para inflamar tensões raciais e ganhar cliques nas redes sociais. De repente, numa inversão de valores destinada a relativizar a violência de Anthony, Metcalf– assassinado a sangue frio num evento escolar – passou a ser o culpado pela própria morte e seu algoz tornou-se vítima indefesa do crime bárbaro que cometeu.
Por mais absurdo que possa parecer, foi criada até uma “vaquinha”, que arrecadou cerca de US$ 600 mil em doações online, para ajudar Anthony a pagar sua fiança, fixada em US$ 250 mil, e seus advogados. Na época, um porta-voz da família afirmou que as contribuições –parte das quais teria sido empregada na compra de um carro de US$ 150 mil e na entrada de numa casa de US$ 900 mil– eram para ajudar “a luta contra a supremacia branca”.
Com a propagação da narrativa da “injúria racial” e da “legítima defesa”, a família de Metcalf se tornou alvo de todo tipo de ameaça e de cinco chamadas de emergência para a polícia durante as investigações do caso. Várias testemunhas tiveram seus nomes e endereços expostos nas redes.
Ao longo do julgamento, que durou cinco dias e atraiu atenção nacional e internacional, apesar de ter obtido pouco destaque no Brasil, apoiadores brancos e negros de Anthony se reuniram na frente do tribunal bradando “f*da-se Austin” e evocando o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que ganhou os holofotes após a morte de George Floyd, em 2020, durante uma abordagem feita pela polícia.
Composição do júri
Por ter acreditado, provavelmente, que a narrativa da vitimização iria funcionar mais uma vez para livrar Anthony da prisão, sua mãe saiu do tribunal chorando e dizendo que seu filho “não queria machucar ninguém”. Sua avó deixou a corte chamando a decisão, que rejeitou a tese de autodefesa, de “racista, enviesada, parcial”.
Seu pai, por sua vez, procurou questionar a composição étnica do júri, que não tinha nenhum negro, embora tivesse integrantes de origem diversa – asiáticos, hispânicos, indianos e árabes. O mesmo argumento foi levantado por Bernice King, filha de Martin Luther King, o grande líder das conquistas de direitos civis pelos negros nos anos 1960.
Após a sentença, proliferam memes nas redes sociais com pessoas urinando na sepultura de Metcalf. O podcaster Larry Reid, conhecido por discutir a “igreja negra”, a espiritualidade e a redenção pessoal, clamou por um “êxodo em massa” dos negros americanos para a África. “Eu não dou a mínima para a vida dos brancos. F*da-se aquele branquela”, disse outro apoiador de Anthony nas redes, num sinal evidente de que, para esse pessoal, como para o STJ (Superior Tribunal de Justiça) no Brasil, o tal do “racismo reverso” é uma peça de ficção.
“Isso não é justiça. É tentar fazer (desse caso) um exemplo”, afirmou a rapper americana Cardi B, que considerou a decisão da justiça “nojenta” e anunciou a doação de US$ 250 mil para Anthony recorrer da sentença. “Só os brancos podem se defender e se livrar disso. Todos os meus filhos são negros e sempre vou me levantar pelo meu povo.”
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O caso de Anthony é um exemplo perfeito de como as questões identitárias distorcem a realidade com base numa suposta ofensa racial – e isso vale para o Brasil também, onde o mesmo tipo de movimento vem ganhando força nos últimos anos.
Apesar da tentativa de transformar seu crime hediondo num ato de “legítima defesa” e de “racismo”, a verdade dos fatos acabou prevalecendo desta vez, ao menos na primeira instância. Anthony, no entanto, já recorreu e, embora o juiz do caso tenha procurado blindar a decisão seguindo a letra fria da lei, ela ainda poderá ser revertida pelas Cortes Superiores.
O consolo é que, nos EUA, ele já começará a cumprir sua pena desde já, sem que a família de Metcalf, que perdeu Austin de forma precoce, tenha de esperar pelo “trânsito em julgado” que vigora aqui por decisão do Supremo Tribunal Federal, para que seja feita justiça.
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