VILLA NEWS

É preciso ver para crer no acordo entre Estados Unidos e Irã

No domingo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou em seus perfis de mídias sociais que um acordo de paz entre EUA e Irã será assinado na próxima sexta-feira, dia 19. A informação foi confirmada pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que vinha atuando como intermediador entre os dois países desde março, um mês depois dos primeiros ataques norte-americanos e israelenses ao Irã. Os preços internacionais do petróleo já caíram nesta segunda-feira, diante da perspectiva de uma reabertura total do Estreito de Ormuz, mas este é um dos típicos casos em que será necessário ver para crer. Primeiro, porque os próprios termos do acordo ainda são vagos em muitos pontos; segundo, porque a própria paz já está sob ameaça, a julgar por declarações iranianas e israelenses.

O fim do programa nuclear iraniano – um objetivo totalmente justificável, já que Teerã buscava ativamente a obtenção de uma bomba atômica, o que elevaria a “ameaça existencial” que o regime dos aiatolás já representa para Israel – não está garantido, ao menos considerando o que se sabe sobre o acordo. Segundo o site Axios, Estados Unidos e Irã negociarão por dois meses as questões relacionadas ao enriquecimento de urânio e ao destino do material radioativo atualmente em posse dos iranianos. Durante a guerra, Teerã vinha afirmando que não abriria mão de seu programa nuclear, e parece improvável que desista agora; o que acontecerá se persistir um impasse a esse respeito?

Um Oriente Médio mais seguro depende do fim do programa nuclear iraniano, da eliminação das ameaças à existência de Israel, e do restabelecimento da navegação livre

Nem mesmo o ponto que mais preocupa os mercados internacionais – a reabertura do Estreito de Ormuz para a navegação internacional – pode ser dado como certo. Embora Trump tenha falado de uma reabertura “sem pedágios” em suas publicações, os iranianos afirmam que cobrarão taxas após o período de negociações, que cobririam “serviços de navegação, proteção ambiental, potencialmente seguro de navios e outros serviços oferecidos pelo Irã e Omã”. Em outras palavras, não deixaria de ser um pedágio, ainda que disfarçado de “cobrança de taxas” que não existia antes da guerra.

Além disso, enquanto todas as atenções se voltam ao Estreito de Ormuz, uma outra passagem marítima importante também tem sido alvo de interferência iraniana com repercussão muito menor: trata-se do Estreito de Bab El-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico. Ali, os iranianos agem para causar disrupção na navegação e no comércio internacional por meio de seus aliados, os houthis do Iêmen, país que controla o estreito ao lado dos africanos Djibuti e Eritreia. Antes que os houthis começassem a atacar navios com mísseis e drones, em 2023, 30% do comércio mundial por navios de contêineres e 12% dos carregamentos marítimos de petróleo passavam por Bab El-Mandeb. Se a lógica de pedágios e bloqueios prevalecer, um princípio importante do Direito Internacional, a liberdade de navegação, estará em xeque.

VEJA TAMBÉM:

Por fim, o Irã condiciona qualquer assinatura de um acordo de paz ao fim das ações israelenses no Líbano – Israel tem atacado instalações do grupo terrorista Hezbollah, uma das entidades dedicadas à destruição de Israel pelas quais Teerã “terceiriza” suas agressões ao Estado judeu, isso quando não ataca diretamente o território israelense, como passou a fazer desde abril de 2024. No entanto, membros do governo de Israel têm dito que não estão vinculados ao que for decidido entre EUA e Irã, e que não encerrarão a campanha militar enquanto o Hezbollah continuar ameaçando Israel com suas operações no Líbano.

“Quando as pessoas virem este acordo – esperamos divulgar o texto esta semana –, elas vão perceber que isso tornará toda a região mais segura”, prometeu o vice-presidente norte-americano, J.D. Vance. Entre as condições para um Oriente Médio mais seguro, no entanto, estão o fim do programa nuclear iraniano, a eliminação das ameaças à existência de Israel, e o restabelecimento da navegação livre pela região. Sem isso, a região pode até viver tempos de relativa tranquilidade, mas ainda não estará perto da paz verdadeira.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *