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O que o relógio de Flávio Bolsonaro revela sobre a política brasileira

Quando a cantora Shakira descobriu uma traição do marido, Gerard Piqué, com a ex-garçonete Clara Chía, ela fez uma música dizendo que o ex-jogador espanhol havia trocado “um Rolex por um Casio”. A escolha por um Casio no lugar de outro modelo mais caro parece ter sido também uma escolha do senador e pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O motivo, nesse caso, tende a ser mais político do que sentimental.

Flávio tem aparecido com mais frequência usando um modelo muito semelhante à linha G-Shock. No site da fabricante japonesa, é possível comprar um deles por R$ 450. Até entrar na pré-campanha, o senador era sempre visto com um Apple Watch, aparentemente da linha Ultra – os modelos mais recentes não saem por menos de R$ 10.499, segundo o site brasileiro da marca.

E o que pode ter levado o herdeiro político de Jair Bolsonaro a fazer a troca? Apesar de ambos os modelos marcarem a hora com precisão, o relógio mais caro conta com uma infinidade de recursos, que vão de rastreador GPS ao monitoramento cardíaco, com direito a exames como ecocardiograma.

Relógios e pastéis de feira: a heurística da similaridade

Uma possível explicação é o que o marketing político chama de heurística da similaridade. O nome é complicado, mas o significado é simples: um atalho mental que as pessoas utilizam para tomar decisões rápidas baseadas em padrões conhecidos.

Na prática, é esse atalho que nos faz imaginar que uma pessoa vestindo um jaleco branco possa ser uma profissional da saúde, até mesmo um médico, mesmo que essa pessoa seja, na verdade, uma vendedora de colchões. Ou que um produto, por ter uma embalagem mais elaborada, tenha melhor qualidade do que seus similares, o famoso “julgar um livro pela capa”.

Um dos exemplos mais clássicos da aplicação da heurística da similaridade na política é o famoso pastel de feira com caldo de cana, que muitos candidatos incluem em seus cardápios justamente em tempos de campanha. É o ápice do momento em que eles buscam se mostrar “gente como a gente”.

O que Flávio parece estar fazendo é extrapolar o campo da gastronomia. Afinal, um relógio de mais de dez mil reais pode aproximar a imagem do político à elite, enquanto um modelo mais popular pode trazer o efeito oposto. Se líderes do passado se esforçavam para projetar uma imagem de poder e riqueza, a expansão das democracias inverteu essa lógica: por vezes, vale mais a pena posar com alguém comum, com o qual o cidadão médio pode se identificar. No Brasil, sobretudo, essa lógica parece ser mais forte.

Tradição começou com os corn dogs nos EUA

Aparecer ao lado dos eleitores comendo um petisco popular parece ser irresistível para os políticos, e não é de hoje. A prática vem sendo registrada há mais de um século nos Estados Unidos. A Feira Estadual de Iowa é um dos mais tradicionais palcos políticos norte-americanos – é no estado que começa o processo de escolha dos candidatos conhecido como caucus.

E é lá também que esses políticos costumam aparecer nas fotos comendo os famosos corn dogs, uma salsicha empanada no palito equivalente ao nosso pastel. O ritual é o mesmo do realizado aqui: comer uma comida do povo, do lado do povo, para se mostrar como alguém do povo.

Democratas e republicanos, todos seguem o mesmo ritual. Há, como sempre, as exceções. Em vez de encarar a salsicha no palito, Donald Trump, em seu tempo como candidato, preferiu um pedaço de carne de porco em sua visita à feira de Iowa.

“Eleitor tem um detector de falsidade muito aguçado”

Mas o tiro pode sair pela culatra, principalmente quando a vontade de parecer autêntico é maior do que a própria autenticidade do candidato. Aconteceu com Ed Miliband, ex-líder do Partido Trabalhista britânico fotografado enquanto tentava manter a dignidade ao comer um tradicional sanduíche inglês de bacon.

De acordo com os jornais locais, ele claramente perdeu a batalha contra o lanche por evidente falta de prática com a iguaria. Mais do que isso: com sua foto publicada na capa de um dos tabloides mais lidos do país na véspera das eleições locais de 2015, ele sofreu outra derrota nas urnas.

“O eleitor tem um detector de falsidade muito aguçado. As redes sociais fazem com que a verdade venha transparecer em algum momento. O eleitor perdoa o político que não come pastel, mas ele não perdoa o político que finge que gosta do pastel”, resumiu João Ricardo Matta, professor de Marketing Político na FGV.

Para o professor, adotar esse tipo de postura popular funciona melhor com quem vive essa experiência na prática. À Gazeta do Povo, ele lembrou que o ex-presidente Jair Bolsonaro assinou o termo de posse no cargo com uma caneta BIC, enquanto seus antecessores usaram modelos mais opulentos, como Mont Blanc ou Cartier.

“Quem conheceu o Bolsonaro antes dele ser presidente o viu andando de chinelo, com sacola de mercado, nas ruas da Barra da Tijuca. Aquele café da manhã com bolacha água e sal e margarina é dele. Ele tem esse DNA mais popular. E é algo que talvez o Flávio não tenha, e por isso essa preocupação em mostrar que é ‘gente como a gente’”, analisa Matta.

Mais do que um gestual de campanha, essa aproximação – às vezes forçada – dos políticos com a população em geral vem da volatilidade do cargo. Afinal, diferente de um servidor público concursado, com estabilidade, um político precisa colocar seu futuro à prova a cada eleição. “Essas táticas são absolutamente necessárias para os políticos. O eleitor precisa ‘comprar’ essa imagem a cada eleição, e é a partir dessa imagem que o candidato terá ou não uma sobrevida política”, avaliou o cientista político Mário Sérgio Lepre.

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