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A Patrulha Búfalo: lembranças do meu tempo de escoteiro

(Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Fui escoteiro. Quer dizer: primeiro fui lobinho, a categoria inicial do escotismo. Minha mãe me levou a uma loja no centro de Salvador para comprar a farda azul escura, o chapéu e o lenço que usávamos em volta do pescoço. Ainda sinto o cheiro daquela farda: cheiro de aventura. Nossa Akelá – a líder do grupamento de lobinhos – era uma jovem senhora, bonita, alta, de cabelos negros e sobrancelhas grossas. No início de nossas reuniões cantávamos o hino nacional e hasteávamos a bandeira.

Quando virei escoteiro, tudo mudou: mudamos para um uniforme cinza e passei a fazer parte da Patrulha Búfalo. Nosso grito de guerra era “Búfalo, Búfalo, hurra !”. Nosso quartel-general era uma espécie de depósito que ficava no meio de uma encosta, do lado de fora do campo de futebol do Colégio Padre Antônio Vieira.

Ali fazíamos reuniões e recebíamos instruções sobre as coisas que um escoteiro deve saber, como fazer uma fogueira, dar nós e sinalizar no código das bandeiras. O líder da Patrulha Búfalo era Kelsen, um rapaz gentil, forte e decidido, que provocava suspiros nas meninas. Seu auxiliar – não sei qual era a designação oficial do cargo – era Papagaio que, como todo melhor amigo de herói, desempenhava um papel cômico.

Era 1971, dois anos antes de nos mudarmos para o Rio. Eu ainda estava descobrindo o mundo e começando a transição para a adolescência. O Brasil estava em convulsão – como quase sempre está – mas nada daquilo afetava a minha vida. Eu nunca tinha ouvido falar de crime

Nosso primeiro e único acampamento foi em uma fazenda abandonada em Buraquinho, no litoral norte de Salvador. Achamos um local no meio de um descampado, limpamos o chão, montamos as barracas e esticamos os sacos de dormir. Quando escureceu, saímos andando pelo terreno da fazenda; eu, que tinha medo de fantasmas, fui contaminado pela coragem dos meus companheiros.

A única luz vinha da lua. No meio da caminhada, quando já retornávamos às barracas, encontramos uma casa abandonada, fechada e toda escura – talvez a antiga sede da fazenda. Liderada por Kelsen, a tropa se aproximou da casa e subiu na varanda. Alguns se sentaram, outros se deitaram. De repente, sem qualquer aviso, Kelsen começou a cantar. “Que falta eu sinto de um bem”, ecoou sua voz na noite. No segundo verso outras vozes se juntaram à dele: “que falta me faz um xodó”. Era uma música do sanfoneiro Dominguinhos, um sucesso da época. Eu cantei junto. Depois cantamos outras músicas. Eu não sabia que escoteiros cantavam; eu não sabia que homem cantava; eu não sabia que eu cantava. Meu Deus, que felicidade.

Era 1971, dois anos antes de nos mudarmos para o Rio. Eu ainda estava descobrindo o mundo e começando a transição para a adolescência. O Brasil estava em convulsão – como quase sempre está – mas nada daquilo afetava a minha vida. Eu nunca tinha ouvido falar de crime. Eu só tinha medo de fantasmas e dos cachorros que uivavam ao longe nas madrugadas do bairro da Pituba. Nossa casa, no Boulevard Paulo VI, número 373, era rústica para os padrões modernos. O quintal era de terra e a porta da sala vivia suja da lama que trazíamos das excursões pelos terrenos do outro lado da rua. 

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Quando acabou a cantoria, a Patrulha Búfalo voltou em fila indiana, nosso líder à frente, rumo às barracas e ao sono debaixo da lua.

No dia seguinte, caminhamos por uma estrada de terra até chegar a uma praia de águas claríssimas e cheia de gente. Ali, dentro da água, a Patrulha Búfalo organizou o que, segundo me disseram, era uma brincadeira tradicional dos escoteiros. Um de nós era escolhido para se afastar do grupo levando consigo a ponta de uma corda. A outra ponta era segurada pelo resto da patrulha.

Quando o escolhido chegava a uns 20 metros de distância ele segurava firme na corda e mergulhava. Esse era o sinal para que o resto da patrulha puxasse a corda com toda a força. O escoteiro sortudo atravessava a água em alta velocidade até chegar ao grupo. Era uma espécie de jet ski submarino que durava apenas alguns segundos.

Em 1973 nos mudamos para o Rio e a Patrulha Búfalo ficou para trás. Kelsen e Papagaio, onde quer que você estejam, espero que a vida os tenha tratado tão bem como vocês nos trataram.

Búfalo, Búfalo, hurra!

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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