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Lula tenta transformar saúde em ativo político mesmo durante tratamento de câncer

Enquanto enfrenta novos cuidados médicos e acumula episódios de problemas de saúde nos últimos anos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou a estratégia de associar sua imagem pública à disposição física de olho na reeleição.

Em outubro de 2025, Lula se tornou o primeiro presidente octogenário em exercício no Brasil. Na ocasião, afirmou que nunca havia se sentido “tão vivo” e declarou ter “a mesma energia de quando tinha 30 anos”.

O tema voltou ao debate após o presidente iniciar sessões de radioterapia preventiva em razão de um carcinoma basocelular, tipo de câncer de pele considerado menos agressivo.

Parte da comunidade médica, no entanto, tem visto com estranheza a conduta adotada, já que nesses casos o padrão é que o paciente passe por uma cirurgia para remover a pele afetada, mas fazer sessões de radioterapia em seguida não é o protocolo comum.

O tratamento se soma a outros episódios recentes envolvendo a saúde do petista, como a cirurgia no quadril por conta de artrose, o histórico de câncer na laringe tratado em 2011 e as consequências de décadas de tabagismo. 

Soma-se a isso o acidente doméstico de outubro de 2024, quando sofreu uma queda no banheiro privativo do Palácio da Alvorada, bateu a cabeça e teve duas lesões cerebrais. Ele precisou levar cinco pontos na nuca. O acidente ocorreu enquanto ele cortava as unhas sentado em um banquinho. Na época, o petista afirmou que o impacto foi intenso e que teve muito sangramento.

Apesar disso, o Planalto tem reforçado a imagem de vitalidade do presidente com divulgação frequente de vídeos de exercícios físicos, caminhadas, viagens internacionais e agendas extensas dentro e fora do país.

No feriado de Corpus Christi (4), a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, usou sua conta no Instagram para mostrar Lula realizando atividades físicas. “Feriadão nesse pique”, disse Janja na publicação em que o petista apareceu correndo na esteira sem camisa.

A estratégia ocorre em meio a um cenário no qual a idade e a saúde de Lula passaram a ocupar espaço crescente no debate político, especialmente após a pressão sofrida pelo então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, durante a campanha de reeleição de 2024.

Aos 81 anos, Biden enfrentou questionamentos sobre capacidade física e cognitiva após aparições públicas consideradas confusas e desconexas. O quadro complexo fez com que ele desistisse da disputa e fosse substituído por Kamala Harris como candidata do Partido Democrata.

No Brasil, embora o contexto seja diferente, analistas avaliam que a idade de Lula tende a ganhar relevância eleitoral conforme se aproxima a sucessão presidencial. 

Para o cientista político Elias Tavares, Lula procura responder antecipadamente às dúvidas que podem surgir em razão da idade. “Ele sabe que a questão da idade estará presente no debate eleitoral. Por isso, ao mesmo tempo em que trata o problema de saúde com transparência, procura reforçar sinais de vitalidade, mantendo agenda pública, compromissos oficiais e uma rotina ativa”, opina.

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Tratamento chama atenção de parte da comunidade médica 

A indicação de radioterapia após a retirada de um carcinoma basocelular despertou questionamentos entre alguns profissionais de saúde ouvidos pela reportagem. Esses especialistas observam que o carcinoma basocelular costuma ser considerado um tumor de baixa agressividade e que, na maioria dos casos, é tratado apenas com cirurgia.

Outra fonte também apontou a possibilidade de Lula estar tratando algo mais grave. Na avaliação desses profissionais, a utilização de radioterapia complementar após a remoção da lesão não representa o protocolo mais frequente para esse tipo de câncer.

Alguns dos médicos que falaram com a reportagem preferiram não se identificar porque não têm acesso a exames e a dados técnicos da evolução de saúde de Lula. Por outro lado, médicos que atendem a presidência normalmente preferem manter sigilo sobre detalhes dos prontuários de chefes de Estado.

Falando com base em dados que vieram a público, o radio-oncologista Alexandre Arthur Jacinto, da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) e do Hospital de Amor, explica que o procedimento de radioterapia pelo qual Lula passou funciona como um complemento ao tratamento cirúrgico. Os efeitos colaterais mais comuns, segundo ele, costumam ser locais, como vermelhidão, irritação e descamação da pele na área tratada.

Jacinto também ressalta que o câncer de pele diagnosticado no presidente não tem relação com o câncer de laringe tratado em 2011. “São tumores distintos, com origens distintas e tratados de maneira diferente.” 

Segundo o médico, quando cirurgia e radioterapia são utilizadas de forma complementar nos casos indicados, as taxas de controle da doença costumam superar 90%. 

O médico Iago Vinícius Gonçales Siqueira Oliveira pondera que o fato de um paciente ser submetido à radioterapia após a remoção de um carcinoma basocelular não implica, necessariamente, uma doença subjacente mais grave. “Contudo, tal indicação embasa uma curiosidade médica sobre os fatores que levaram a equipe assistente a optar por essa complementação terapêutica”, observa o profissional.

Oliveira diz ainda que é natural que médicos levantem questões adicionais sobre as características da lesão e os motivos da indicação do tratamento complementar. Isso ocorre porque informações que compõem a complexidade inerente a qualquer prontuário médico raramente são divulgadas integralmente em comunicados públicos.

“De acordo com o histórico político e eleitoreiro do atual presidente, pressupõe-se que é necessário colocar várias ‘pulgas atrás da orelha’ para acreditar na apresentação de saúde plena que o Planalto e as redes sociais querem demonstrar”, completa o médico.

Lula tenta passar mensagem política

Em aparições públicas recentes, Lula tem retirado o chapéu, que passou a usar por recomendação médica, para mostrar a cicatriz da cirurgia realizada para a retirada de um câncer de pele.  

O gesto reforça a estratégia de comunicação relacionada à saúde. Enquanto passa por sessões de radioterapia, o petista busca transmitir uma mensagem política de que, aos 80 anos, continua apto a governar e disputar mais uma eleição presidencial. 

O presidente iniciou em 25 de maio um ciclo de 15 sessões de radioterapia no Hospital Sírio-Libanês, em Brasília. O tratamento deve durar três semanas e ocorre pouco mais de um mês após a cirurgia realizada em 24 de abril para retirada de um carcinoma basocelular no couro cabeludo. Segundo informações divulgadas pelo governo, a lesão foi totalmente removida durante o procedimento. 

Analistas avaliam que o impacto político de um problema de saúde raramente permanece restrito ao campo médico. 

“A doença desperta empatia, solidariedade e aproxima o eleitor daquela figura pública. Independentemente da posição política, as pessoas enxergam alguém enfrentando uma dificuldade que poderia atingir qualquer cidadão”, afirma o cientista político Elias Tavares. 

Segundo ele, a divulgação do tratamento não tem apenas a função de informar a sociedade sobre o estado de saúde do presidente. “Quando um líder passa por um problema de saúde e demonstra capacidade de seguir trabalhando, transmite uma mensagem de resiliência, superação e comprometimento com a função que exerce”, explica Tavares. 

Em casos recentes, lembra o cientista político, episódios de saúde acabaram fortalecendo a imagem pública de lideranças políticas. Entre eles estão o ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas, que enfrentou tratamento contra o câncer durante a campanha à reeleição; o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fuad Noman, reeleito enquanto realizava tratamento médico. Covas e Noman morreram em decorrência do câncer.

Tavares cita ainda o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, que sofreu uma facada durante a campanha eleitoral de 2018. O atentado exigiu cirurgias e um longo período de recuperação, além de gerar desdobramentos médicos que se estenderam ao longo de seu mandato e seguem até os dias atuais.

Segundo o cientista político, o episódio passou a fazer parte da trajetória pública de Bolsonaro e influenciou a forma como parcela do eleitorado acompanhou sua atuação política.

“Problemas de saúde não produzem necessariamente desgaste político. Em alguns casos, podem fortalecer a conexão emocional entre eleitor e candidato”, avalia. 

Lula tenta construir imagem de vitalidade 

A analista política Yolanda Tolentino avalia que o governo não busca esconder os procedimentos médicos, mas controlar a forma como eles serão interpretados pelo eleitorado. 

“Há uma tentativa deliberada, e cada vez mais sofisticada, de transformar a idade e a trajetória de superação de Lula em ativos políticos”, afirma. 

Segundo ela, a divulgação dos tratamentos costuma ser acompanhada de imagens e informações que reforçam a ideia de normalidade, atividade e capacidade de trabalho. 

“O objetivo não é apenas informar sobre a saúde do presidente, mas controlar a forma como o tema será percebido pelo eleitorado”, observa Yolanda. 

Na avaliação da analista, a estratégia também conecta a experiência pessoal do presidente à agenda governamental. Durante eventos relacionados à saúde pública e ao tratamento oncológico, Lula tem defendido que a população tenha acesso ao mesmo tratamento que recebe como chefe de Estado. 

Ao mesmo tempo, a manutenção das agendas e viagens durante o tratamento transmite outra mensagem. “A demonstração constante de disposição funciona como um contraponto à narrativa de que a idade poderia representar uma limitação para um novo mandato”, afirma. 

Para a analista, a disputa política não se dá em torno do diagnóstico em si, mas da interpretação dos fatos. “Os mesmos acontecimentos que o governo utiliza para reforçar a imagem de experiência e resiliência podem ser apresentados pelos adversários como sinais de desgaste acumulado.” 

Segundo Yolanda, enquanto o Planalto procura associar idade à experiência, estabilidade e resistência, a oposição tende a explorar a ideia de renovação política. 

Tratamento de Lula tem contraste com a realidade do SUS 

Apesar de Lula tentar reforçar a ideia de que quer proporcionar aos brasileiros o mesmo tratamento que recebe, o caso lança luz sobre um problema estrutural da saúde pública brasileira: o acesso à radioterapia. 

Segundo o radio-oncologista Alexandre Jacinto, a rapidez com que Lula iniciou o tratamento representa uma realidade distante para milhares de brasileiros. O especialista explica que o início da terapia dentro do prazo adequado pode ser determinante para o sucesso do tratamento oncológico. 

No caso de Lula, as sessões começaram cerca de um mês após a cirurgia, intervalo considerado adequado pelos especialistas. 

Já entre pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), a realidade costuma ser diferente. De acordo com Jacinto, entre 70 mil e 100 mil brasileiros deixam de receber radioterapia anualmente. “Chega perto de um milhão de pessoas em uma década. É um número muito grande para um tratamento tão efetivo e tão importante”, destacou Jacinto. 

O médico afirma que o principal gargalo não está na falta de profissionais, mas na infraestrutura disponível. “Não falta profissional. Nós temos médicos. O que precisamos é de equipamentos e de condições para ampliar a oferta do tratamento”, ponderou Jacinto.

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