Só no frio é possível demonstrar seu carinho pelas autoridades. (Foto: ChatGPT)
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Desconfio de quem gosta de calor. Do militante do calor. O sujeito que acorda com aquela sensação térmica de indústria metalúrgica e diz que é um dia perfeito para uma caminhada. Para onde, camarada? Só se for para o inferno! Porque sou do frio. Friozão, friozinho ou friaca. Da geada, o Barigui todo branquinho. Do vapor saindo pela boca. Será que este ano vai nevar? Dos dentes batendo. Sou do exército do frio civilizatório em guerra eterna contra a barbárie do calor.
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Nem vou pedir para você me dizer se estou ou não certo porque sei que estou: o calor é moralmente reprovável. Em tantos níveis… Da camisa regata à música alta na praia. Mas pior do que isso é efeito psicológico de qualquer temperatura acima dos 17 graus. Frita os miolos do indivíduo mesmo. A tal ponto que, veja só!, ele acredita que o calor o obriga a parecer feliz. “Bora viver!”, diz o admirador do calor. Essa parafilia. “Vitamina D, uhu!”, se empolga ele, ignorando a pressão baixa, as noites insones, o suor azedo e as nuvens de mosquitos. Calor é coisa de gente feia.
Eu também teria vergonha
Taí. Calor e frio. Essa é a única polarização que me interessa. A única capaz de um dia me fazer pegar em armas. Esquerda e direita? Lula e Bolsonaro? Nah. Cansei dessas discussões que não levam a nada, ao contrário de “amo o frio” e “prefiro o calor” – isso, sim, papo de gente inteligente & sofisticada. Aliás, já reparou que quem gosta de calor tem vergonha e prefere dizer que odeia o frio? Pois repare. Se bem que, bom, eu também teria vergonha. E agora me deixe aproveitar a geada para escrever no capô do carro: “Fora, Alexandre de Moraes”. Porque sim.
Esse é o debate que importa. Porque nem eu nem o maluco que prefere o calor acreditamos que vamos mudar o mundo, salvar a Civilização Ocidental ou proteger a democracia. O sol tá lá, ardendo quando é para arder. E as massas de ar polar vêm e vão quando querem. Delícia. É nessa discussão tão eterna quanto inútil que se manifesta o que resta da nossa sanidade, da nossa capacidade de convivência entre os diferentes. Da nossa tolerância, não!, da nossa compaixão para com essa gente que, por defeito de fabricação ou falha de caráter, prefere o calor.
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