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Estrela entra em recuperação judicial. Mas a crônica não é sobre isso

Para a IA, esse sou eu, criança, brincando com os brinquedos da Estrela. (Foto: ChatGPT)

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Em geral, as manchetes do noticiário econômico doem no bolso e atiçam medos primitivos, de fome e penúria. Mas esta dói mesmo é no coração: a Estrela entrou em recuperação judicial. A empresa, fabricante de brinquedos clássicos da minha, sua e nossa infância, como o Banco Imobiliário de tantas brigas e o Ferrorama de tantos tédios, acumula prejuízos de mais de R$600 milhões. Não é falência, ainda, mas é uma perda simbólica.

E este é um bom exemplo de como lemos uma notícia, essa notícia: não como mero sinal de crise econômica ou má administração, e sim como um verdadeiro testemunho da mudança dos tempos. A Estrela, aqui, não é apenas uma empresa e os produtos que ela fabrica e talvez em breve deixe de fabricar não são apenas produtos. São saudade e também expectativa. Afinal, quem nunca quis que seus filhos largassem o celular para brincar de Jogo da Vida? Quem não tem memórias do Pogobol ou dos Comandos em Ação? Do Boca Rica?!

“Toda criança tem a Estrela dentro do coração”

“A Estrela é nossa companheira, nossa brincadeira, nossa diversão”, dizia o jingle da empresa nos anos 1980. E era mesmo. Hoje, contudo, as companheiras, brincadeiras e diversões das crianças são as telas. E aqui vou resistir ao discurso saudosista. É o que é e não faz sentido ficar dizendo que antes era melhor, embora fosse. Agora olha esse trecho do jingle e me diz se não é um golpe baixo da publicidade: “Toda criança tem a Estrela dentro do coração”. Tínhamos mesmo. E talvez ainda tenhamos.

Sigo lendo a notícia, que menciona o aumento do custo de capital e o acesso restrito ao crédito como outros fatores para o pedido de recuperação judicial da Estrela. Ok. Papo chato. Papo de adulto. Que ignoro para me ver transportado ao tempo em que ter todos os sonhos do mundo não era um problema. Muito menos sina ou cruz. Brinco de Pega Varetas, de Aquaplay, de Pegasus e de Trombada. E, quando dou por mim, evoco os célebres versos de Manoel Bandeira, que parafraseio: “A vida inteira que poderia ter sido. E foi. Não como eu gostaria que tivesse sido. Mas foi. Está sendo. E será por um bom tempo ainda”.

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