VILLA NEWS

Influenciador comunista deixa partido que queria “socializar” seu canal no YouTube

Dono de uma base de mais de 2 milhões de seguidores, o pernambucano Jones Manoel é o influenciador mais popular da esquerda radical no Brasil. E chegou lá fazendo algo considerado improvável há poucos anos: vendendo o comunismo para uma geração que cresceu vendo a direita dominar as redes sociais.

Mas o historiador de 36 anos, que cita Lenin de cabeça e defende a superação do capitalismo como missão histórica, recentemente procurou a direção de seu partido com uma preocupação nada ideológica. A mesma que aflige milhões de pequenos comerciantes todos os meses: “Como ficam as minhas contas?”.

No início de abril, Jones saiu do PCBR (o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, ainda sem registro no TSE) para entrar no PSOL, onde se apresenta agora no pré-candidato a deputado federal por seu estado. O rompimento, no entanto, não foi muito amigável. Segundo ele, a legenda queria tomar o controle do Farol Brasil, seu canal no YouTube e sua principal fonte de renda.

E foi aí que a teoria (no caso, a marxista) encontrou a realidade.

Das ideias para as planilhas

Os grandes canais de política hoje funcionam como operações profissionais — com programação diária, equipe técnica, investimentos para atrair a audiência, custos permanentes. O Farol Brasil não é diferente.

E, quando as contas fecham no vermelho, é o próprio Jones Manoel quem cobre o prejuízo. Esse dinheiro, ele diz, deveria ir para sua mãe, seus sobrinhos e até uma madrinha que dependem de sua ajuda. “Como todos os camaradas sabem, sou o pilar financeiro da minha família”, explicou o influenciador em um vídeo.

Os dirigentes do PCBR viam o empreendimento de outra forma. Seguindo a tradição leninista de centralização da propaganda, eles defendiam que um veículo tão importante para a organização não deveria existir como um patrimônio individual.

A proposta da cúpula era incorporar o Farol Brasil à estrutura partidária. Mas um problema apareceu quando a conversa saiu do campo das ideias e chegou nas planilhas.

Jogou na cara

Quem pagaria os salários? Quem assumiria os gastos? Quem garantiria a renda familiar? Segundo Jones Manoel, essas perguntas não receberam soluções concretas.

“Várias coisas básicas foram ignoradas e nunca respondidas. Eu perguntava sobre a situação financeira dos trabalhadores do canal que seriam demitidos, mas nunca vinha uma resposta direta. Era tratada como uma ‘não-questão’”, afirma o influenciador.

Jones ainda jogou na cara dos dirigentes que o PCBR sequer conseguia manter uma publicação impressa mensal sem dificuldades. “O partido tinha condições de acompanhar diariamente a produção jornalística do Farol Brasil? Aparentemente não, porque nem o jornal do próprio partido eles conseguem dar conta, quem dirá mais essa tarefa”, afirmou.

Princípios revolucionários

Para o Comitê Central do PCBR, o conflito em torno do canal não era uma questão de contas a pagar, mas de princípios revolucionários. Na avaliação da direção, um partido de vanguarda não poderia afrouxar sua disciplina interna para se adaptar à lógica do “personalismo digital”.

Os dirigentes também rebateram a preocupação de Jones Manoel de que sua família ficaria desamparada. Segundo uma nota oficial, a organização sugeriu um modelo de transição que incluía a “incorporação gradativa mediante profissionalização do camarada Jones”.

Outra proposta previa que o Conselho Nacional de Finanças do PCBR tivesse acesso às contas do canal — para estudar formas de garantir o sustento do militante e o uso político correto da plataforma. Mas Jones não aceitou ceder o controle administrativo de seu “aparato de comunicação”.

O historiador, aliás, também tentou enquadrar o impasse dentro da teoria marxista. Segundo ele, um canal no YouTube não funciona como um meio de produção clássico, porque quem vive de vídeos na internet depende de algoritmos e das regras do Google.

Sendo assim, entregar o Farol Brasil ao partido não seria socializar nenhuma riqueza, e sim abrir mão da própria fonte de renda.

Beijou a mão de Lula

A gota d’água dessa relação veio da situação eleitoral do PCBR. Como o partido não tem registro, seus membros precisam entrar em outras legendas para disputar cargos públicos nas urnas.

É o que eles chamam de “filiação democrática” (uma expressão curiosa para um movimento assumidamente alinhado com regimes autoritários). E foi esse caminho que Jones Manoel escolheu ao se abrigar no PSOL para concorrer a uma vaga na Câmara.

O problema é que o novo partido exigiu beijar a mão de Lula ainda no primeiro turno. E, para a cúpula do PCBR, esse apoio é uma “barreira que não pode ser cruzada”. Na mesma nota oficial, a direção afirma que se alinhar a Lula e Alckmin é tomar parte de um governo que apenas “apresenta uma gestão humanizada da barbárie”.

Sem um acordo, Jones acabou se desligando da organização que ajudou a fundar em 2024 (depois de ser expulso do PCB, acusado de formar uma facção interna paralela e priorizar o engajamento digital). Quando a vida real se impõe, até os revolucionários mais radicais acabam falando em propriedade, renda, gestão eficiente e responsabilidade financeira — tudo dentro da boa e velha lógica do capitalismo.

VEJA TAMBÉM:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *