Poste com sigla do Comando Vermelho em Belém (PA): Amazônia é nova fronteira da ação das facções. (Foto: Sebastião Moreira/EFE)
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“O Brasil será um dos países mais respeitados do mundo no crime organizado.” (Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de sanção do PL Antifacção, em março de 2026)
Para compreender por que a decisão do governo Trump de classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas provocou tanto frenesi no campo lulopetista – e nos seus satélites habituais no mercado financeiro, na academia e no establishment midiático –, é necessário recuar até onde tudo começou: uma ilha no litoral do Rio de Janeiro, nos anos finais da ditadura militar.
No Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, militantes da Ação Libertadora Nacional, do MR-8 e de outros grupos de esquerda armada dividiam celas com assaltantes, ladrões de banco e criminosos comuns. Os guerrilheiros tinham algo que os bandidos não tinham: disciplina clandestina, estrutura celular, códigos de solidariedade interna, métodos de resistência coletiva ao Estado. Mais do que um catecismo marxista-leninista, o que se ministrou nesse convívio foi algo mais durável e mais perigoso: um conjunto de técnicas organizacionais que transformou uma gangue de presídio na primeira grande facção criminosa moderna do Brasil. Nasceu assim a Falange Vermelha, antecessora direta do Comando Vermelho. O lema era “Paz, Justiça e Liberdade” – vocabulário cuja proveniência dispensava maiores apresentações.
Nos anos 1960, a esquerda revolucionária brasileira havia absorvido a ideia de que o bandido poderia ser agente disruptivo da ordem burguesa
Antes que acidente, tratava-se ali do desdobramento natural de uma reorientação doutrinária que o historiador marxista Jacob Gorender apontou em Combate nas Trevas: nos anos 1960, a esquerda revolucionária brasileira havia absorvido, sob influência de Fanon, Guevara e Mao, a ideia de que o lumpemproletariado – o marginal, o delinquente, o bandido – poderia ser “arrancado da colaboração com a polícia e convertido em revolucionário”. O criminoso como agente disruptivo da ordem burguesa: “Seja marginal, seja herói”, como sintetizaria Hélio Oiticica. Quando essa mentalidade encontrou os presos comuns de Ilha Grande, o resultado foi o Comando Vermelho.
Um outro capítulo da mesma história foi escrito em São Paulo. Em dezembro de 1989, às vésperas do segundo turno que disputaria com Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva viu o seu empresário-símbolo, Abílio Diniz, ser sequestrado por um grupo internacional composto por brasileiros, argentinos, canadenses e militantes do MIR chileno – o Movimiento de Izquierda Revolucionaria, organização marxista-leninista que integrava o mesmo universo político do PT e que figuraria entre as organizações associadas ao Foro de São Paulo. Preso o bando, parte dos sequestradores foi parar no Carandiru. Anos depois, Lula admitiu publicamente ter procurado FHC – e também o então ministro da Justiça, Renan Calheiros – para interceder pela soltura desses presos. A justificativa apresentada foi humanitária: eles estavam em greve de fome. Mas chama atenção que a solidariedade humanitária de Lula tenha se mobilizado precisamente em favor de militantes do MIR, parceiros no Foro de São Paulo, e não, digamos, em favor das vítimas de seus crimes. O que esses presos deixaram no Carandiru foi igualmente relevante: tecnologias de comunicação clandestina via celular que transformariam qualitativamente a capacidade de coordenação do PCC – capacidade que, por fim, o levaria de uma gangue paulistana a uma organização narcoterrorista transnacional.
O terceiro capítulo foi continental. Em 1990, Lula e Fidel Castro fundaram o Foro de São Paulo – a grande articulação da esquerda latino-americana no pós-Guerra Fria, que reunia, sob o mesmo teto, partidos legais, movimentos guerrilheiros e organizações revolucionárias de diversas matizes, incluindo o próprio MIR. O Foro não inventou o narcotráfico, mas forneceu a cobertura ideológica para que regimes como o venezuelano transformassem a cocaína num instrumento geopolítico. Sob Hugo Chávez e depois Nicolás Maduro, a Venezuela tornou-se o narcoestado por excelência do hemisfério.
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O sociólogo Roberto Briceño-León, do Observatório Venezuelano da Violência, documentou o mecanismo com precisão: a explosão de crimes violentos durante o chavismo não foi acidental, mas resultado de um cálculo político deliberado. O governo desacreditou sistematicamente a polícia, promoveu o desarmamento das forças de segurança e estimulou, nos meios de comunicação estatais, a narrativa de que a violência pode ser um instrumento legítimo de transformação social. Em 1998, quando Chávez chegou ao poder, a Venezuela registrava 4.550 homicídios anuais. Em 2004, após seis anos de governo, o número quase triplicara. Com Maduro, chegaria a 92 homicídios por 100 mil habitantes. Para o chavismo, a explosão de criminalidade não era um problema, mas um projeto.
No Brasil de 2026, a investigação sobre o escândalo do INSS tem revelado uma rede de dezenas empresas de fachada que movimentou bilhões de reais, e que vem sendo utilizada por criminosos do PCC e do Hezbollah libanês. Deolane Bezerra, presa há alguns dias no âmbito de uma investigação sobre lavagem de dinheiro da mesma facção, não é um fenômeno isolado: é um nó visível numa teia que atravessa advogados, influenciadores, artistas e operadores políticos. Que o presidente da República e sua esposa tenham encontrado tempo para lhe dispensar atenção e afeto não é um detalhe de coluna social, mas um sintoma da relação promíscua entre a política de esquerda e o banditismo – relação que vem se cultivando, como vimos, desde Ilha Grande.
Nesse contexto, a decisão do Departamento de Estado de classificar CV e PCC como organizações terroristas foi tudo menos um capricho geopolítico. Trata-se do reconhecimento formal de que o PCC e o CV são organizações transnacionais que operam na Europa, na África e nas Américas, financiam campanhas políticas, patrocinam carreiras no Judiciário, bancam influenciadores e artistas para promover a narcocultura, e defendem pautas – desmilitarização das polícias, desencarceramento progressivo – que coincidem, com notável regularidade, com as bandeiras históricas da esquerda revolucionária brasileira.
O diálogo cabuloso durou décadas, mas Washington acaba de interceptar a ligação
A articulação de Flávio Bolsonaro – com o apoio de seu irmão Eduardo e do jornalista Paulo Figueiredo – junto ao governo Trump merece ser celebrada sem rodeios: enquanto o governo Lula fazia lobby em Washington para blindar essas organizações da classificação terrorista, a oposição brasileira trabalhava para que a realidade fosse nomeada pelo seu nome. O posicionamento de Flávio Bolsonaro também abre caminho para que o Brasil integre o Escudo das Américas – a coalizão de combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional criada por Trump em março –, com compartilhamento de inteligência, coordenação operacional e rastreamento de lavagem de dinheiro em escala global. Uma oportunidade histórica, mas que depende, por óbvio, da queda do regime luloalexandrino.
O campo lulopetista reagiu como de costume: com a histeria de quem viu o lobby que financiou ser desfeito por decreto. Parte do mercado financeiro reclamou de insegurança jurídica. A academia produziu notas de repúdio. Os jornais de referência mobilizaram suas bancadas para explicar que a medida era politicamente motivada – “mais um golpe do bolsonarismo”, chegou a dizer uma extremista de esquerda na Globo News. Especialistas foram convocados para denunciar o risco de violação da soberania nacional. Uma desembargadora entrevistada pela CNN chegou a lamentar que as medidas houvessem – creiam! – aumentado o preço da cocaína no mercado. Um horror! Nenhum deles se deu ao trabalho de explicar por que o governo brasileiro vinha fazendo lobby em Washington precisamente para evitar que as organizações agora designadas terroristas recebessem essa denominação.
O diálogo cabuloso durou décadas, mas Washington acaba de interceptar a ligação. E, nos próximos anos, as coisas não devem ficar bonitas para os signatários e herdeiros do velho Pacto de Ilha Grande.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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