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O Brasil real é muito menos polarizado do que imaginamos

Líderes da Revolução Federalista, no fim do século 19: Brasil já viveu episódios graves de rivalidade e violência política. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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“Vivemos o momento de maior polarização da história”, diz-se nos quatro cantos do país, refletindo uma percepção que se equivoca quanto ao presente e também quanto ao passado.

Em 13 de agosto de 1894, um soldado subiu as escadarias do Palácio de Barro, então sede do governo do Rio Grande do Sul, levando uma caixa de chapéu em suas mãos. A caixa, que seria entregue ao presidente (como se chamava à época o governador) do estado, Júlio de Castilhos, continha nada mais, nada menos que a cabeça de Gumercindo Saraiva, seu maior opositor político.

Eram os dias da Revolução Federalista no sul do Brasil. Depois daquela, lutou-se uma guerra em 1823, e outra em 1824 – eu escrevo do Rio Grande do Sul, onde os conflitos deixaram profundas marcas na memória coletiva. Em 1930, um golpe de Estado levantou o Brasil em armas. Em 1932, a Revolução Constitucionalista, em São Paulo, foi o mais próximo que o Brasil já esteve de uma guerra civil. Em 1962, a Campanha da Legalidade conclamou todos que dispunham de armas a levantarem-se contra o Congresso para impor a posse de João Goulart.

Hoje, nos xingamos no X (o velho Twitter). Os fatos não parecem confirmar a hipótese de nunca termos experimentado uma radicalização política tão exacerbada. O passado foi muito mais polarizado do que pode supor quem não o estudou.

O passado foi muito mais polarizado do que pode supor quem não o estudou

O presente, ademais, também não é como pensam os defensores da tese da “maior polarização da história”.

As manchetes dos jornais, os programas políticos, os comentários televisivos e, principalmente, as redes sociais transmitem a sensação de que o Brasil está dividido em dois grandes blocos políticos perfeitamente organizados, em permanente estado de confronto, e capazes de explicar toda a dinâmica nacional.

Mas talvez a característica mais interessante da polarização brasileira seja justamente o fato de que ela parece muito maior no ambiente da comunicação e, portanto, na percepção do grande público, do que na vida cotidiana da maior parte dos brasileiros.

Pesquisa recente da Quaest mostrou que apenas 19% dos brasileiros se identificam como lulistas, enquanto 12% se declaram bolsonaristas. Os números chamam atenção por um motivo simples: eles indicam que aproximadamente dois terços do eleitorado brasileiro não se identificam diretamente com os dois principais polos políticos que florescem no debate nacional.

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Isso não significa que Lula e Bolsonaro não sejam as figuras centrais da política brasileira contemporânea. Evidentemente são. Tampouco significa que a polarização seja artificial ou inexistente. Ela existe, influencia eleições, organiza discursos políticos e molda parte importante da dinâmica institucional do país.

Mas talvez ela não ocupe na vida real dos brasileiros comuns o mesmo espaço que ocupa no ambiente da comunicação política.

A polarização domina o debate público porque ela tem enorme capacidade de produzir engajamento. Conflitos geram atenção. Antagonismos geram audiência. Disputas morais e políticas produzem reação emocional imediata. As redes sociais, por sua própria natureza, amplificam esse fenômeno. Elas privilegiam o confronto, a simplificação e a lógica das identidades políticas rígidas.

O algoritmo raramente recompensa moderação, nuance ou complexidade. Ele recompensa intensidade. O resultado é a formação de um ambiente comunicacional em que a polarização parece totalizante, como se todas as relações sociais, institucionais e pessoais do país estivessem permanentemente submetidas ao conflito político nacional.

Mas fora das redes sociais e dos círculos mais agudamente politizados, o Brasil real parece funcionar de forma mais complexa e menos ideológica do que frequentemente se imagina.

A polarização domina o debate público porque ela tem enorme capacidade de produzir engajamento

A maior parte das pessoas continua organizando sua vida em torno de preocupações muito mais concretas e imediatas: renda, emprego, segurança, custo de vida, saúde, transporte, educação dos filhos, oportunidades econômicas e estabilidade pessoal. A política aparece, muitas vezes, mais como pano de fundo que como elemento central da identidade individual.

Isso ajuda a explicar um fenômeno curioso da política brasileira contemporânea: embora a polarização domine as mídias (tradicionais e sociais), existe simultaneamente um eleitorado enorme, volátil e pouco rígido ideologicamente. Um eleitorado que transita, muda de opinião, vota pragmaticamente e frequentemente não se sente plenamente representado por nenhum dos polos políticos em disputa.

Talvez por isso as eleições brasileiras, apesar da retórica fortemente antagonizada, continuem sendo muito mais disputadas no centro do eleitorado do que nas extremidades mais mobilizadas.

Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Democracias contemporâneas vivem, em maior ou menor grau, uma dissociação entre o ambiente hiperpolitizado das redes e a vida prática das maiorias silenciosas. A comunicação política passa a operar em temperatura máxima permanente, enquanto grande parte da sociedade continua vivendo fora desse estado contínuo de mobilização ideológica.

A política passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais likes e cliques obtêm, e não necessariamente dos grupos que mais representam

O problema é que a política institucional frequentemente passa a reagir mais ao ambiente da comunicação do que ao país real. Governos, partidos, lideranças e até instituições acabam capturados pela lógica da polarização permanente, porque é nela que estão as pressões mais visíveis, os grupos mais organizados e os conflitos de maior repercussão pública. E assim o debate político nacional vai gradualmente se tornando mais radicalizado que a própria sociedade que pretende representar.

Talvez resida aí uma das maiores distorções da nossa midiática democracia contemporânea. A política passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais likes e cliques obtêm, e não necessariamente dos grupos que mais representam.

Enquanto isso, o grande espaço intermediário da sociedade brasileira – menos ideológico, mais pragmático e mais preocupado com problemas concretos – permanece relativamente sub-representado no debate público, embora seja provavelmente ele quem decida a maior parte das eleições nacionais.

A polarização existe. Mas talvez ela diga mais sobre o funcionamento da política contemporânea do que sobre a vida cotidiana da maioria dos brasileiros.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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