Um direitista não pode se contentar em virar somente um cabo eleitoral do “menos pior”, vendo todas as suas pautas conservadoras serem destruídas no processo. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)
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Não há uma resposta simples a esta pergunta. Aquilo que é considerado direita pode abranger muitas bandeiras distintas. Mas há, creio, alguns denominadores comuns. Um direitista é alguém que desconfia sempre da concentração de poder no Estado. Ele compreende o alerta de Lord Acton: o poder corrompe. Quem é de direita quer descentralização de poder, menos estado, mais liberdade individual.
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A pessoa de direita não tem partido, muito menos político de estimação. Ela está preocupada com uma agenda que envolve, no campo da economia, privatizações e responsabilidade fiscal, e no campo dos costumes o respeito às tradições, à família e ao patriotismo. A direita coloca a lealdade aos princípios e valores acima da lealdade a políticos.
Se a esquerda costuma aderir à máxima marxista de que os fins justificam os meios, a direita tende a se mostrar bem mais intransigente com desvios de conduta e malfeitos. Passar pano para corruptos, portanto, não é algo condizente com quem se diz de direita. “Tudo pelo poder” é um slogan incompatível com a direita. Um direitista de verdade jamais aceitaria se transformar no monstro que está combatendo. Ele entende que isso seria não uma vitória, mas uma derrota.
Consigo entender que, pelo desespero de imaginar mais quatro anos de PT, muita gente esteja disposta a ignorar isso tudo. São aqueles que preferem atirar pedras e acusar as pessoas independentes de ‘fazer campanha para o Lula’, o que é ridículo
No afã de resgatar tais valores básicos da direita, que defendo há décadas, postei no meu X hoje cedo: “Bom dia a todos que não têm rabo preso nem corrupto de estimação!”. Nos comentários, inúmeros ataques de quem se diz de direita! Sim, chegamos a esse ponto: se você dá bom dia aos honestos sem corrupto de estimação, uma horda de bolsonaristas vem te atacar! O que aconteceu com a direita?! Um médico chamado Raphael comentou:
O bolsonarismo se reinventou e se adaptou tanto ao sistema e aos conchavos que perdeu a própria personalidade. Virou um movimento frankenstein que já não sabe o que é. Começou como um movimento contra os conchavos políticos. Hoje fecha com todo mundo em nome do tal pragmatismo, se vende a qualquer custo. Era a favor do livre debate de ideias e hoje esculacha aliado que discorda de uma coisa ou outra. Era contra estatização e hoje já fala abertamente em não privatizar. Defendia a autonomia do Banco Central e agora nem isso. Era liberal na economia e hoje critica os liberais. No fim, era de direita e já não é mais. Não é à toa que muita gente diz com orgulho “de direita não, sou bolsonarista”. É exatamente esse o problema. De tanto se contorcer pra caber em narrativa conveniente, o movimento foi perdendo a identidade até não sobrar nada. Uma pena. Tinha tudo pra ser diferente.
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Sabemos o que não é direita: defender o centrão fisiológico com unhas e dentes, perseguir de forma implacável qualquer crítico que ousa fazer perguntas incômodas, demonizar os liberais enquanto se elogia até Getúlio Vargas! A verdadeira direita, pelo visto, foi usurpada por uma turma liderada por Eduardo Bolsonaro que passou a pregar o oposto do conservadorismo. Ser contra o PT não basta para ser de direita: os tucanos sempre disputaram com os petistas o poder dentro do teatro das tesouras.
A eleição presidencial que se aproxima é crucial para o país, e derrotar o lulismo é necessário. Mas nem tudo é eleição presidencial. Ter um Senado mais à direita é fundamental também, e o bolsonarismo vem apoiando nomes do centrão, como André do Prado, Ciro Nogueira e Arthur Lira. O escândalo do Banco Master lambuzando o nome de Flávio arrasta junto candidatos de direita, o que pode prejudicar a oposição. E, por fim, é preciso pensar no longo prazo também: o que restará da direita se ela for totalmente engolida pelo centrão?
Consigo entender que, pelo desespero de imaginar mais quatro anos de PT, muita gente esteja disposta a ignorar isso tudo. São aqueles que preferem atirar pedras e acusar as pessoas independentes de “fazer campanha para o Lula”, o que é ridículo. Lula não poderia estar mais feliz do que com um adversário repleto de telhado de vidro como o Flávio. Se o melhor argumento para defender determinado candidato é que, ao menos, ele não é tão ruim quanto o Lula, então a coisa está muito feia.
E um direitista não pode se contentar em virar somente um cabo eleitoral do “menos pior”, vendo todas as suas pautas conservadoras serem destruídas no processo. O que restará da direita após tudo isso?
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
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