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Estudo com 4 milhões de casos associa casamento a menor risco de câncer

Um estudo realizado pela Universidade de Miami sugere que adultos que já foram ou são casados apresentam um risco menor de desenvolver certos tipos de câncer do que aqueles que nunca estiveram em um casamento.

Na pesquisa, em que mais de quatro milhões de casos foram analisados, especialistas da universidade americana apontaram que as taxas de incidência da doença eram 85% maiores em mulheres solteiras e 70% maiores em homens solteiros.

Entretanto, os estudiosos ressaltam rigorosamente que a pesquisa não deve ser interpretada como uma prova de que o casamento previne o câncer, nem como uma recomendação para que as pessoas se casem o quanto antes com o objetivo de se prevenirem da doença.

Os tumores cancerígenos não distinguem estado civil. Entretanto, alguns fatores de risco podem estar associados a eles e ao casamento, como ter filhos, cuidados médicos de rotina, e até tabagismo e estresse.

“Isso significa que, se você não for casado(a), deve prestar atenção redobrada aos fatores de risco de câncer, fazer todos os exames de rastreio necessários e manter-se atualizado(a) em relação aos cuidados de saúde”, afirma à Science Alert Frank Penedo, diretor do Sylvester Comprehensive Cancer Center, parte da Universidade de Miami.

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Pesquisa realizada em grande escala

Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram um grande conjunto de dados de 2015 a 2022, abrangendo 12 estados americanos, com informações demográficas e de câncer de mais de 4 milhões de casos em uma população superior a 100 milhões de pessoas.

Foram analisados tumores malignos diagnosticados em adultos com 30 anos ou mais, comparando as taxas de diferentes tipos de câncer por estado civil, com subdivisões por sexo e raça e ajuste por idade.

O estudo categorizou o estado civil em dois grupos: adultos que eram ou haviam sido casados, divorciados e viúvos e os que nunca se casaram.

A análise dos dados partiu de 2015 porque esse foi o ano em que a Suprema Corte dos Estados Unidos passou a obrigar os estados a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo, possibilitando que casais homossexuais fossem incluídos na categoria dos casados.

No levantamento demográfico da pesquisa, um em cada cinco (20%) adultos nunca havia se casado.

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Por que os resultados surpreenderam

Segundo o professor de epidemiologia do câncer do Departamento de Ciências da Saúde Pública da Miller School e coautor do estudo, Paulo Pinheiro, à Science Alert, era de se esperar algumas associações entre casamento e fatores de estilo de vida, mas os resultados surpreenderam.

Adultos que nunca se casaram apresentaram maiores índices de desenvolvimento de câncer, com taxas maiores para alguns tipos:

  • Homens que nunca foram casados tiveram cerca de cinco vezes mais risco de desenvolver câncer anal do que homens casados;
  • Mulheres nunca casadas tiveram cerca de três vezes mais risco de câncer cervical (colo do útero) do que mulheres que já foram ou são casadas

Ambos os cânceres (anal e cervical) estão fortemente relacionados à infecção pelo HPV (sexualmente transmissível). Ou seja, essas diferenças se dão, provavelmente, por variações na exposição ao vírus e, em casos de câncer cervical, também por diferenças na realização de exames preventivos.

Já cânceres como o endometrial (desenvolvido na camada interna do útero) e o ovariano apresentam um risco maior de desenvolvimento em mulheres que são ou foram casadas. Segundo os especialistas, ambos se explicam pelos efeitos da gravidez — algo mais recorrente em mulheres casadas.

Segundo Pinheiro, esse resultado é “um sinal claro e forte de que alguns indivíduos correm maior risco”.

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Quem se beneficia mais no casamento?

No resultado final do estudo da universidade americana, há uma pequena discrepância percentual entre homens e mulheres que, segundo a pesquisa, indica que a incidência de câncer era 85% maior em mulheres solteiras e 70% maior em homens solteiros.

Para os especialistas, é comum que os homens se beneficiem mais do casamento do que as mulheres; entretanto, neste caso, em relação à prevenção do câncer, as mulheres parecem ser as mais beneficiadas na relação.

Associações mais fortes entre casamento e câncer foram observadas em tumores relacionados a infecções, tabagismo ou consumo de álcool e — para as mulheres — cânceres relacionados à reprodução (ovariano e endométrio).

Por outro lado, o estudo encontrou associações mais fracas para cânceres que contam com programas robustos de rastreamento, como os de mama, tireoide e próstata.

“Esses resultados sugerem que fatores sociais, como o estado civil, podem servir como importantes marcadores de risco de câncer em nível populacional”, aponta o epidemiologista Paulo Pinheiro.

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Quais são as limitações da pesquisa

A universidade afirma que o estudo apresenta limitações e o próprio diretor ressalta que “casar-se não previne o câncer magicamente”.

“Mas a associação entre estado civil e risco de câncer é uma observação nova e interessante que merece mais pesquisas”, afirma Pinheiro.

Em um próximo estudo, os pesquisadores querem subdividir ainda mais a categoria em casados, divorciados e viúvos, e acompanhar os indivíduos ao longo de décadas para melhor compreender como as transições conjugais afetam o risco de câncer.

Um dos grupos excluídos da pesquisa é o de indivíduos que não são casados, mas que mantêm relacionamentos estáveis. Para Pinheiro, esse grupo provavelmente é pequeno em relação ao tamanho do conjunto de dados, “mas vale a pena explorá-lo em pesquisas futuras”.

Qual a incidência de câncer no Brasil

Segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde (SIH/SUS), entre 2015 e 2023 o câncer anal causou mais de 38 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS) e mais de seis mil mortes no período.

Segundo o especialista Pedro Basílio, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), o câncer anal é pouco conhecido por ser pouco divulgado e sua transmissão está relacionada à relação sexual sem preservativo, contato íntimo e compartilhamento de objetos sexuais sem proteção.

Também transmitido pelo vírus HPV, o câncer do colo do útero, considerado prevenível e evitável, no Brasil, é o terceiro tumor cancerígeno em incidência, e deixou mais de 7 mil mortes apenas em 2025.

Com uma estatística de cerca de 20 mortes de mulheres por dia no ano passado, o câncer cervical pode ser evitado por meio da vacina contra o HPV.

Mais comum em mulheres após a menopausa, o câncer de endométrio é o sexto tumor cancerígeno diagnosticado em mulheres brasileiras, com 9.650 casos estimados para o ano de 2026.

Das pacientes, aproximadamente 32% dos casos são diagnosticados em estágio avançado.

Menos frequente que o câncer de endométrio e o do colo do útero, mas com maior mortalidade proporcional, o câncer ovariano é considerado um dos tumores mais letais, podendo, inicialmente, ser assintomático.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), em 2023 foram estimados 7.310 novos casos desse câncer no Brasil.

Os três tumores mais prevalentes em mulheres — câncer do colo do útero, do endométrio e de ovário — são as neoplasias ginecológicas mais comuns no Brasil.

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