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Cuba, o Estado criminoso cada vez mais perto de um julgamento

O atual ditador de Cuba, Miguel Díaz-Canel, ao lado de seu antecessor Raúl Castro: EUA avaliam opções para provocar a derrubada do regime castrista (Foto: EFE/ Ernesto Mastrascusa)

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O indiciamento de Raúl Castro pela morte de quatro americanos no abate dos aviões dos Hermanos al Rescate, em 1996, não é apenas um ajuste tardio de contas com a Justiça. É a abertura de uma fresta no muro de impunidade que protegeu a ditadura cubana por mais de seis décadas. Raúl, então ministro da Defesa, é acusado de responsabilidade direta na destruição de duas aeronaves civis desarmadas, abatidas por caças MiG da Força Aérea cubana sobre águas internacionais. O episódio foi tratado, durante anos, como mais um “incidente” da longa crise entre Washington e Havana. Não foi. Foi terrorismo de Estado.

Mas o caso dos aviões é apenas a ponta visível de um iceberg muito mais profundo. Cuba não se tornou um Estado criminoso por acidente, nem por deformação periférica de uma revolução originalmente idealista. O crime foi incorporado ao método de governo.

Sob Fidel Castro, depois sob Raúl e agora sob Miguel Díaz-Canel, a ilha desenvolveu um modelo de poder baseado na fusão entre partido único, polícia política, inteligência externa, repressão interna, sabotagem regional e economias ilícitas.

A ditadura cubana não apenas reprimiu seu próprio povo. Ela exportou instabilidade, treinou guerrilhas, protegeu terroristas, instrumentalizou governos aliados e transformou a geografia caribenha em ativo estratégico para operações clandestinas

O narcotráfico ocupa lugar central nessa história. Durante décadas, parte da esquerda latino-americana tentou separar Havana do crime organizado, como se a ilha fosse apenas uma potência ideológica, sem participação direta nos circuitos de cocaína que explodiram nos anos 1980. E/

ssa narrativa não resiste ao peso dos testemunhos, das investigações e dos episódios que o próprio regime tentou sepultar. Ayda Levy, viúva de Roberto Suárez, o chamado “Rei da Cocaína” boliviano, relatou em suas memórias os contatos entre grandes traficantes sul-americanos e a cúpula cubana.

Carlos Lehder, fundador do Cartel de Medellín, também descreveu a importância de Cuba como rota para o envio de cocaína aos Estados Unidos. Em meu livro Hugo Chávez: O Espectro, tratei desse eixo como uma das peças centrais para entender a conversão do socialismo revolucionário em sistema de poder criminalizado.

O caso do general Arnaldo Ochoa é indispensável para compreender esse mecanismo. Herói militar da revolução, veterano das campanhas cubanas na África e homem de prestígio dentro das Forças Armadas, Ochoa foi preso, julgado e fuzilado, em 1989, sob acusação de narcotráfico e traição. Com ele, foram executados Antonio de la Guardia e outros oficiais ligados ao aparato de segurança. A narrativa oficial dizia que Fidel havia descoberto uma quadrilha infiltrada no Estado. A realidade é bem diferente.

Ochoa e seus operadores sabiam demais. O regime sacrificou peças importantes para proteger o centro da estrutura. A operação serviu, simultaneamente, para eliminar potenciais rivais militares, enviar uma mensagem de terror à elite interna e fingir, perante o mundo, que Cuba estava “limpando” suas instituições.

Nada disso terminou em 1989. O modelo foi exportado e aperfeiçoado na Venezuela. Fidel Castro foi o pai intelectual do Cartel dos Sóis. Não porque tenha usado esse nome, mas porque concebeu a lógica que o tornou possível: transformar um Estado aliado em plataforma de guerra assimétrica contra os Estados Unidos, usando cocaína, inteligência, militares, guerrilhas e corrupção como instrumentos de poder. Hugo Chávez não inventou sozinho a criminalização do Estado venezuelano. Ele recebeu de Havana o manual, os conselheiros, os operadores de inteligência e a doutrina.

A Venezuela bolivariana passou a funcionar como profundidade estratégica de Cuba: petróleo para sustentar Havana, território para abrigar redes ilícitas, instituições capturadas para dar cobertura formal ao crime e retórica revolucionária para disfarçar a expansão de uma empresa político-criminal.

É por isso que chamar Cuba apenas de “ditadura” já não basta. Ditaduras convencionais reprimem, censuram e controlam. Cuba fez tudo isso, mas foi além. Criou uma infraestrutura de subversão regional, colocou a inteligência no centro da política externa e fez da ilegalidade uma extensão da razão de Estado. O G2 cubano não é apenas uma polícia política. É uma escola de penetração institucional, infiltração, chantagem, vigilância e engenharia de poder.

Na Venezuela, na Nicarágua, na Bolívia e em outros espaços da esquerda autoritária latino-americana, a mão cubana aparece não como ideologia, mas como tentáculo e expansão de poder e desestabilização

Díaz-Canel não representa uma ruptura com esse sistema. Representa sua fase burocrática. Sem o carisma brutal de Fidel nem o controle militar direto de Raúl, ele administra a continuidade de uma máquina falida, mas ainda perigosa. A ilha empobreceu, apagou-se economicamente, perdeu milhões de cidadãos para o exílio e transformou a sobrevivência cotidiana em humilhação nacional. Ainda assim, sua elite segue protegida por conglomerados militares, redes de inteligência e alianças com regimes hostis aos Estados Unidos.

A miséria cubana não é consequência natural do Caribe, nem simples produto do embargo. É resultado de um Estado que preferiu financiar repressão, espionagem e aventura geopolítica a permitir liberdade econômica, alternância política e soberania popular.

O indiciamento de Raúl Castro tem valor simbólico porque rompe uma tradição de complacência. Por décadas, o mundo democrático tratou os crimes da revolução cubana como excessos históricos, justificáveis pela Guerra Fria ou pelo antiamericanismo romântico de universidades, artistas e diplomatas. Cuba não é apenas uma ilha governada por velhos comunistas. É o laboratório mais longevo da criminalização revolucionária no hemisfério ocidental.

Um regime que aprendeu a sobreviver sem produzir prosperidade, legitimidade ou liberdade, mas produzindo medo, dependência, exílio e desestabilização. O processo contra Raúl Castro não encerra essa história. Apenas começa a nomeá-la corretamente.

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