Urubu: me diz que você pegou a referência a Augusto dos Anjos, por favor. (Foto: ChatGPT)
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A coisa tá feia. O mar não está para peixe. Há tempestade no horizonte. A coisa vai de mal a pior e a chapa não para de esquentar. Azedou o caldo. A vaca, tadinha, está indo para o brejo. E, para piorar, um urubu daqueles bem grandes e fedidos parece ter pousado na nossa sorte. Logo agora? Sim, logo agora. Estamos num mato sem cachorro. Entre a cruz e a espada. Num beco sem saída. Com a corda no pescoço.
Menos mal que há muita água para rolar por debaixo dessa ponte. Sem falar que o imponderável sempre dá o ar de sua graça nessas horas em que tudo parece que são trevas. Enquanto o milagre não acontece, contudo, vale observar. De preferência com o coração inchado por uma compaixão desmedida. Por você e por mim. Afinal, assim é a natureza humana. Assim somos nós e, se um dia vislumbramos paz em meio a esse caos todo, pode ter certeza: é porque estávamos distraídos.
Inventário dos fracassos
Paciência. É o que o momento exige e me dizem, me repetem. Finjo que não ouço, dizem novamente, mas não entendo ou talvez não queira entender. Talvez não saiba entender. Ãhn?! Como ser paciente num mundo que exige reações apressadas e conclusões mais apressadas ainda? Um mundo que distribui sentenças imediatas e definitivas com base em sensações. E, no entanto, obedeço. Sou paciente. Estou sendo. Agora. Aqui. Não percebe?! Inspira, expira. Inspira, expira.
E já que estamos nessa de exercitar o músculo atrofiado da paciência, aproveitemos para fazer um inventário dos nossos fracassos. Topa? Eu começo! Um – não conseguimos fomentar um ambiente de debate saudável. Dois – não conseguimos expor a tragédia em que vivemos. Três – não conseguimos. Quatro, dez, seiscentos, vinte mil. São muitos os fracassos, apesar das melhores intenções, que se somam a fim de compor esta imagem da crise que atravessamos.
Uma imagem que parece a de um urubu pousando em nossa sorte. Daqueles gordões e fedidos. Assim, bem no meio dela, a nossa alquebrada sorte. Mas que na verdade talvez tenha sido apenas o resultado de uma ou mais escolhas tristemente desesperadas que fizemos nos últimos anos. Sigamos, então. Com paciência – o que quer que seja isso.
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