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Como bebida catarinense chegou ao topo da Cúpula da Cachaça

“Meu avô ergueu o alambique em plena Segunda Guerra, com pouco dinheiro, muita dificuldade e uma certeza: queria fazer uma cachaça de qualidade desde o começo.” A frase é de Márcio Van Den Bylaardt, neto de Wilibaldo, o descendente de holandeses que, em 1943, concluiu a construção do alambique em Santa Catarina, que hoje dá origem à cachaça eleita a melhor do Brasil.

O local de produção segue o mesmo no município de Luiz Alves, no Vale do Itajaí, mas o rótulo do produto mudou de patamar: em maio de 2026, a Bylaardt Extra Premium foi escolhida a “cachaça do ano” no ranking nacional da Cúpula da Cachaça.

No início do negócio, segundo Van Den Bylaardt, não havia energia elétrica para a produção. A cana era moída na força da água, em uma roda que girava devagar, produzindo pequenas quantidades por dia. A produção era limitada, mas carregava a ideia central, que atravessou gerações: antes de pensar em volume, cuidar da qualidade. “Continuamos trabalhando de forma artesanal, respeitando o tempo da bebida e priorizando a qualidade acima do volume”, ressalta o neto do fundador da empresa, 83 anos após a primeira safra.

Esse princípio culminou em um projeto improvável, décadas após o ensinamento do patriarca. A empresa familiar passou a manter um destilado por 18 anos em barris de carvalho. A ideia surgiu durante uma conversa de balcão, ainda na década de 1970, quando um cliente comentou que a cachaça da família já era muito boa, mas poderia “chegar a outro nível” se envelhecida em carvalho.

Na época, Van Den Bylaardt lembra que conseguir barris era uma aventura logística. “Meu pai trouxe os primeiros dez barris de Jaraguá do Sul em uma picape, sem ter certeza se aquilo realmente daria certo. Quando colocou a cachaça nos barris e começou a oferecer aos clientes alguns meses depois, a aceitação foi imediata. A partir dali percebemos que o envelhecimento poderia transformar a bebida em algo ainda mais especial”, relembra ele.

A Extra Premium de 18 anos nasce exatamente dessa estratégia de longo prazo, que valoriza a produção de alta qualidade. Guardar, esperar, investir em barris, espaço e paciência para, um dia, colocar no mercado uma cachaça que não se parecesse com nada do que a maioria dos brasileiros tem em mente quando ouve a palavra “pinga”.

Hoje, o alambique abriga milhares de barris de carvalho francês, todos novos. “Poucos produtores conseguem manter uma estrutura assim por tanto tempo”, afirma o empresário, explicando que o estoque precisa ser planejado em décadas, não em safras. É nesse cenário que nasce a Bylaardt Extra Premium, que em 2026, sai do anonimato dos barris para o centro de um dos palcos mais respeitados da cachaça brasileira.

A Bylaardt Extra Premium foi escolhida a “cachaça do ano” no ranking brasileiro. (Foto: Divulgação/Alambique Bylaardt)

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Ranking é considerado a “copa” da cachaça no Brasil

O palco, no caso, é o ranking da Cúpula da Cachaça, uma espécie de copa do destilado nacional. A prova começa muito antes de qualquer jurado encher a taça.

Primeiro, segundo Van Den Bylaardt, a cachaça precisa existir na “cabeça de quem bebe”: é a fase do voto popular, em que consumidores indicam seus rótulos preferidos e ajudam a formar uma lista inicial de candidatos. Depois, entra um painel de especialistas formado por jornalistas, bartenders, pesquisadores e confrarias, que afunila a lista com prioridade para a qualidade dos finalistas.

Na etapa final, as 50 cachaças classificadas perdem o nome. As garrafas são padronizadas, numeradas, escondidas atrás de um código. Nenhum rótulo aparece na mesa. O líquido que está na taça poderia vir de Minas Gerais, da Paraíba, do interior do Rio ou de uma cidade de 3,6 mil habitantes em Santa Catarina e, naquele momento, isso não importa. O que os jurados têm diante de si é o destilado avaliado pela cor, aroma, sabor e textura.

A Bylaardt já tinha currículo para entrar nesse grupo seleto. Levava no histórico medalhas importantes em concursos nacionais e internacionais, incluindo prêmios em Bruxelas e Lyon, além de um duplo ouro conquistado em 2019 em um dos principais concursos do país. Mas, para o empresário, o prêmio da cúpula tem outro peso. “É um reconhecimento muito respeitado no setor porque envolve votação popular, avaliação especializada e degustação às cegas”, explica.

Quando o alambique do município de Luiz Alves viu seu nome entre as 50 finalistas, a sensação já era de vitória parcial. Para a marca, era o sinal de que os 18 anos em carvalho francês e décadas de insistência em uma produção limitada, paciente, tinham sido notados por quem prova cachaça profissionalmente.

O prêmio não muda apenas a vida da família Bylaardt. A cidade, que já levava orgulhosamente o apelido de “capital catarinense da cachaça”, ganha agora um rótulo que funciona como cartão de visita para o país inteiro. “Esse reconhecimento ajuda a valorizar não apenas a nossa marca, mas toda a tradição da cidade”, diz o proprietário.

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Como e onde provar a campeã nacional das cachaças

Para quem só conhece cachaça em copinho de boteco, a campeã brasileira é quase outra bebida. Van Den Bylaardt descreve o destilado como “uma bebida suave, elegante e muito equilibrada”. Na prática, o que chega ao copo é uma cachaça com bouquet intenso e complexo, resultado direto dos 18 anos em carvalho francês. “Uma cachaça que pode sentar à mesa ao lado de grandes whiskies e outros destilados premium, sem se envergonhar”, compara.

Para provar, a experiência pode começar no próprio alambique. Em Luiz Alves, a família recebe visitantes para conhecer a estrutura, entender o processo e participar de degustações em que a campeã é provada ao lado de rótulos mais jovens da casa. É ali que o visitante percebe o efeito do tempo: mesma origem, mesmo produtor, e uma diferença enorme em maciez, aroma e profundidade entre a cachaça nova e a de 18 anos de barril.

Para quem não consegue ir até o Vale do Itajaí, a garrafa também chega ao consumidor final em tiragens ainda limitadas. Ele informa que hoje são liberados cerca de 15 mil litros por ano, o equivalente a algo em torno de 20 mil garrafas, com tendência de aumento gradual à medida que mais barris atingem o ponto de maturação.

A ideia, segundo o empresário, é seguir produzindo novas edições com o mesmo padrão de excelência, mantendo “a paciência e a visão de longo prazo” que definem a história da marca.

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