Causou bastante furor um relatório divulgado recentemente, vindo de um dos grupos de estudo criados durante o Sínodo da Sinodalidade, sobre “questões pastorais emergentes” – mais especificamente, sobre como a Igreja deve lidar com a homossexualidade. O texto foi tratado como uma “nova orientação oficial da Igreja”, o que não é; ele no máximo serve como a opinião dos autores, com caráter meramente consultivo, assim como todos os demais relatórios dos outros grupos. Eu li as 32 páginas e, depurando os trechos realmente importantes no meio de todo o lero-lero sinodal, dá para tirar a seguinte conclusão: quem escreveu aquilo não tem fé.
O Grupo 9 é dedicado aos “Critérios teológicos e metodologias sinodais para discernimento compartilhado sobre questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes”, mas no fim das contas trata apenas dos homossexuais e da “não violência ativa” – pelo jeito, não temos outras “questões emergentes” por aí. Obviamente, toda a atenção foi dada ao primeiro tema, e nem podia ser diferente. E eu digo que os redatores demonstram sua falta de fé quando colocam a “mudança de paradigma” (tema de toda a parte I do relatório) como o eixo condutor do seu diagnóstico e das suas sugestões.
A ideia de fundo do relatório, no fim das contas, é a de que a fé não é algo divino e imutável, que a Igreja recebe de Cristo e dos apóstolos, e da qual ela é guardiã, mas algo que pode mudar de acordo com a conveniência, com o “consenso”, com o clamor popular, com o Zeitgeist. É por isso que os autores apontam o “risco de favorecer uma abordagem baseada em pressupostos teóricos abstratos, tratados como definitivamente estabelecidos, em vez dos relatos da experiência viva do Povo de Deus” (ponto 2.2 da introdução, destaque meu), ou a “tentação da ossificação estéril e regressiva de princípios e afirmações, normas e regras, independentemente da experiência de indivíduos e comunidades” (item 1.1 da parte 1, destaque meu). O truque retórico é citar a controvérsia sobre a circuncisão, narrada nos Atos dos Apóstolos (ponto 3 da introdução), como guia para o “discernimento” sobre o tratamento da Igreja aos homossexuais – colocando no mesmo nível uma prática ritual e um comportamento moral. Daí para a frente, só piora.
Universalização das experiências individuais
O relatório cita dois testemunhos, publicados como anexos, de homossexuais que vivem em união com seus parceiros e participam ativamente da Igreja. Um deles afirma receber normalmente a Eucaristia. Ambos falam de sua sexualidade como um “presente de Deus”. Embora os textos sejam anônimos, não foi difícil identificar os autores. Um deles é um norte-americano, que apareceu na capa do New York Times ao lado do seu parceiro, recebendo uma bênção do padre James Martin, no dia seguinte à publicação de Fiducia supplicans. O segundo é um português, que trabalha no Santuário de Fátima e também tem conexão com o padre Martin – o que levou muitos analistas a questionar se o jesuíta não é a mente por trás do relatório, ou se o Grupo 9 se rebaixou ao papel de relações-públicas do padre. Faltou transparência aí, a mesma transparência que o relatório diz ser tão importante no ponto 2.3 da parte I.
A ideia de fundo do relatório é a de que a fé não é algo divino e imutável, que a Igreja recebe de Cristo e dos apóstolos, e da qual ela é guardiã, mas algo que pode mudar de acordo com a conveniência
O testemunho do norte-americano ainda traz críticas ao apostolado Courage, presente em vários países e que ajuda homossexuais a viver plenamente sua fé em obediência alegre ao ensinamento moral da Igreja. Curiosamente, o Grupo 9 não achou necessário ouvir ninguém do Courage, nem para registrar a experiência dessas pessoas – que certamente é bem diferente dos outros dois testemunhos –, nem sequer para confirmar ou desmentir as alegações do autor das críticas. Pelo jeito, toda essa conversa sobre a sinodalidade exigir que se “escute a todos” tem os seus limites.
O relatório louva os testemunhos, que “enfatizam como a comunidade cristã, em todos os níveis – local e universal – podem representar um lugar decisivo de ‘cura e inclusão’ por meio de práticas de acolhimento e hospitalidade”, que só podem acontecer se o estado objetivo de pecado dessas pessoas for simplesmente ignorado. É a tal da “mudança de paradigma” em ação. Chega a ser cínico ver os autores falarem no “poder libertador do encontro pessoal com Cristo”, pois o Evangelho mostra muito bem que, sempre que ocorre esse encontro, há uma mudança radical de vida. Mudança essa que o relatório considera desnecessária no caso daqueles que estão em um relacionamento com pessoas do mesmo sexo.
Autores opõem “doutrina” ao “acolhimento”, e fazem sua escolha
O item 2.3 da parte III fala em um “impasse” entre a “firmeza doutrinal” e o “acolhimento pastoral”, insinuando que não é possível ter ambos, e criando uma dicotomia entre “aqueles que reafirmam princípios não negociáveis em nome da verdade e aqueles que, embora de maneiras diferentes, enfatizam as exigências do amor compreensivo e misericordioso”. Os autores do relatório afirmam que não se trata de estabelecer uma “nova doutrina”, mas de “ouvir as experiências e incentivar práticas eclesiais e pastorais de conhecimento mútuo, colaboração, inclusão e diálogo entre os fiéis”. O texto pede a “superação de um modelo teórico que deriva a prática de uma doutrina ‘pré-empacotada’, ‘aplicando’ princípios gerais e abstratos às situações concretas e pessoais de vida”.
Em resumo: a doutrina é um estorvo, mas não é necessário reescrever o Catecismo, até porque isso acabaria dando muito na cara. Basta ignorá-lo na prática, e transformar isso não em uma atitude isolada de alguns padres rebeldes, mas na orientação tácita para toda a Igreja. Para os autores do relatório, a realidade está aí, e não cabe à Igreja pregar a conversão e a mudança de vida, mas adaptar-se aos novos tempos, aceitar e acolher sem questionar. No fim, é mudança de doutrina, sim. E ainda por cima disfarçada de “é isso que Cristo quer de nós”. Como se a única forma de demonstrar amor pelas pessoas com a inclinação homossexual fosse sonegar-lhes a verdade que liberta. Como se a moral sexual da Igreja fosse uma mera lista de “nãos”, alguns dos quais podem ser relativizados, em vez de um conjunto filosófico robusto e coerente que deriva do papel do ser humano como colaborador de Deus na obra da criação.
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“Põe na conta do Vaticano II”
O item 1.1 da parte I do relatório afirma que todo esse processo é nada mais que o cumprimento daquilo que o Concílio Vaticano II pede. Como já afirmei aqui, citando um amigo, o Vaticano II virou o Super Trunfo usado por todos aqueles que desejam impor suas preferências pessoais à Igreja não só nesse, mas em vários outros temas. Mas nunca foi esse o objetivo do concílio. São João XXIII afirmou, no seu discurso de abertura do Vaticano II:
“O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz. Essa doutrina abarca o homem inteiro, composto de alma e corpo, e a nós, peregrinos nesta terra, manda-nos tender para a pátria celeste. (…) Para que esta doutrina atinja os múltiplos níveis da atividade humana, que se referem aos indivíduos, às famílias e à vida social, é necessário primeiramente que a Igreja não se aparte do patrimônio sagrado da verdade, recebido dos seus maiores. (…) O XXI Concílio Ecumênico, que se aproveitará da eficaz e importante soma de experiências jurídicas, litúrgicas, apostólicas e administrativas, quer transmitir pura e íntegra a doutrina, sem atenuações nem subterfúgios, que por vinte séculos, apesar das dificuldades e das oposições, se tornou patrimônio comum dos homens. (…) é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo. Uma coisa é a substância do depositum fidei, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance.” (destaques meus)
João XXIII olharia horrorizado para esse relatório, e especialmente para a tentativa de justificar o que vai lá proposto usando o Concílio Vaticano II.
“Aham, Cláudia, senta lá”
“O que é que eu vou fazer com a sinodalidade?”, estaria cantando Leão XIV se, em vez de gostar de Michael Bublé, fosse fã do Só Pra Contrariar. Todos esses relatórios que têm sido produzidos – não só o do Grupo 9, mas o dos demais grupos, e também de outras comissões criadas pelo papa Francisco, como a que analisou a controvérsia do diaconato feminino – vão para o papa, que vai ler e decidir o que fazer com eles. E entre as opções está a de não fazer absolutamente nada.
Essa estratégia já foi usada antes, pelo papa Francisco. O documento final do Sínodo da Amazônia, em 2019, pediu explicitamente, no parágrafo 111, que se pudesse ordenar homens casados ao sacerdócio, como forma de contornar a falta de padres. O papa recebeu o documento e soltou um “aham, Cláudia, senta lá”: no ano seguinte, na exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, ignorou completamente o pedido; no trecho sobre o ministério ordenado, ele admitiu que há escassez de sacerdotes, o que impede o acesso frequente dos povos amazônicos à Eucaristia e à confissão, mas limitou-se a “exortar todos os bispos, especialmente os da América Latina, a promover a oração pelas vocações sacerdotais e também a ser mais generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazônia” (parágrafo 90).
A Igreja tem lugar para “todos, todos, todos”, como dizia o papa Francisco, mas isso não significa que a Igreja deve deixar que cada um faça o que bem entender de sua vida no campo moral
Isso não deixa de ser uma resposta, que Leão XIV poderia repetir nesse caso. No entanto, há uma diferença: um bispo que de repente ordene homens casados seria algo impossível de ignorar, e certamente levaria a uma resposta do Vaticano, enquanto padres (e bispos) que decidiram abolir o ensinamento da Igreja, por exemplo dando a comunhão para homossexuais que vivem com seus parceiros, ou tratando a orientação homossexual como “presente de Deus”, seriam muito mais difíceis de conter e causariam muito escândalo aos outros fiéis. Se um eventual silêncio do papa deixar de ser lido como “vocês não terão o que querem” e passar a ser visto como um “quem cala consente”, teremos problemas.
Você pode substituir o relatório do Grupo 9 pela Veritatis splendor
Tudo isso que o relatório do Grupo 9 faz já tinha sido previsto com muita precisão por São João Paulo II em 1993, na encíclica Veritatis splendor. Vejam lá o parágrafo 47, e me digam se “aqueles teólogos” aos quais o papa se refere, os que criticam a moral sexual da Igreja, não são os mesmos que redigiram o relatório. Os parágrafos seguintes, de enorme clareza, se encarregam de demolir todo o lero-lero sinodal ao mostrar todo o sentido da lei moral da Igreja. Toda a terceira parte do capítulo II é uma demonstração de como a “opção fundamental” por Cristo é indissociável do comportamento moral concreto, enquanto a quarta parte, sobre a qualificação moral dos atos humanos, acaba com a pretensão moderna de tratar como bom e meritório aquilo que não o é, culminando com uma frase lapidar no parágrafo 81: “as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção”.
E o início do capítulo III, que fecha a encíclica, é a melhor resposta à pergunta “mas então, o que fazer?” A discriminação contra as pessoas LGBT é odiosa. A Igreja, de fato, tem lugar para “todos, todos, todos”, como dizia o papa Francisco. Deus ama incondicionalmente cada indivíduo, e quer que todos se salvem. Dessas premissas, no entanto, não se depreende a conclusão de que a Igreja deve deixar que cada um faça o que bem entender de sua vida no campo moral. Quando disse à mulher adúltera “nem eu te condeno”, Jesus acrescentou um “vai e não peques mais” – dessa parte quase ninguém lembra.
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Aliás, essas omissões seletivas me lembram também o famoso “quem sou eu para julgar?” do papa Francisco. A pergunta tinha uma condicional: “se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade”. Ora, quem procura a Deus com boa vontade está disposto a acolher com alegria o que Ele pede, inclusive em termos de comportamento. Quem procura a Deus (e à Igreja) apenas com a intenção de ver validadas as próprias escolhas não está com boa vontade. Isso nos traz de volta à Veritatis splendor, que explora o elo entre liberdade, bem e verdade. Diz o papa (88-89):
“Urge recuperar e repropor o verdadeiro rosto da fé cristã, que não é simplesmente um conjunto de proposições a serem acolhidas e ratificadas com a mente. Trata-se, antes, de um conhecimento existencial de Cristo, uma memória viva dos seus mandamentos, uma verdade a ser vivida. Aliás, uma palavra só é verdadeiramente acolhida quando se traduz em atos, quando é posta em prática. A fé é uma decisão que compromete toda a existência. É encontro, diálogo, comunhão de amor e de vida do crente com Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14, 6). Comporta um ato de intimidade e abandono a Cristo, fazendo-nos viver como Ele viveu (cf. Gál 2, 20), ou seja, no amor pleno a Deus e aos irmãos.
A fé possui também um conteúdo moral: dá origem e exige um compromisso coerente de vida, comporta e aperfeiçoa o acolhimento e a observância dos mandamentos divinos. Como escreve o evangelista João, ‘Deus é luz e n’Ele não há trevas. Se dissermos que temos comunhão com Ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade (…) E sabemos que O conhecemos por isto: se guardarmos os Seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-Lo, e não guarda os Seus mandamentos é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas quem guarda a Sua palavra, nesse, o amor de Deus é verdadeiramente perfeito; e, por isso, conhecemos que estamos n’Ele. Aquele que diz que está n’Ele, deve também andar como Ele andou’ (1 Jo 1, 5-6; 2, 3-6). Através da vida moral, a fé torna-se ‘confissão’ não só perante Deus, mas também diante dos homens: faz-se testemunho.”
A Igreja irá de fato ajudar os católicos com orientação homossexual se lhes expuser a verdade e lhes mostrar, com carinho, o caminho traçado por Deus para que todos cheguem à felicidade plena, um caminho que também tem suas exigências. A oração e os sacramentos estão aí para isso, como auxílio valioso para todos os que desejam a amizade com Cristo. Sempre foi assim, mas os autores do relatório do Grupo 9 ignoram essa realidade; querem reinventar a roda, tratando a fé como algo volúvel, como areia que não serve de fundação para nada.


