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O preço de uma escolha errada

Lula cogita reenviar indicação de Jorge Messias ao STF. após rejeição do AGU pelo Senado. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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A noticiada insistência do presidente Lula em reapresentar o nome de Jorge Messias para o STF, mesmo após sua humilhante rejeição pelo Senado, pode se tornar um dos erros políticos mais graves de seu terceiro mandato. O episódio deixou de ser apenas uma disputa institucional e passou a simbolizar um teste de força entre o Planalto e o Congresso, com reflexos que devem afetar a disputa eleitoral de outubro.

A indicação de um ministro para o Supremo nunca foi um ato puramente técnico, embora faça parte do ritual todos fingirem que é. Há a sabatina, os discursos solenes, as referências à Constituição e ao “notável saber jurídico”, tudo muito elegante. Na prática, trata-se de uma jogada política: escolher alguém que ajude a ampliar a influência de um determinado grupo ou partido. É como se o sistema dissesse, com a maior naturalidade do mundo, que a mais alta corte do país é apenas mais uma peça de xadrez político.

Lula teve a oportunidade de usar a vaga como instrumento de articulação. Se indicasse um nome com trânsito no Congresso, poderia garantir apoio para pautas futuras e reforçar sua relação com o Centrão, esse condomínio ideológico onde tudo se negocia, inclusive convicções. Nesse cenário, Rodrigo Pacheco surgia como alternativa natural. Com experiência institucional e influência no Senado, sua escolha teria representado um gesto pragmático – e mais adequado ao sistema que apoiou o retorno de Lula, mas agora ameaça abandoná-lo.

Mas o presidente preferiu o critério da confiança pessoal. Ao apostar em Jorge Messias, aliado próximo ao núcleo palaciano, fez uma escolha politicamente arriscada. O resultado foi uma derrota incomum: a rejeição de seu indicado pelo Senado, expondo publicamente a dificuldade do governo em articular sua própria base.

Rejeitar um indicado ao Supremo não é apenas votar contra um nome; é mandar um bilhete em letras garrafais para o Planalto. A ideia de reapresentar o mesmo nome tende a piorar o desgaste. Se a primeira derrota já foi interpretada como sinal de fragilidade, insistir no candidato seria uma clara incapacidade de leitura do ambiente político.

Muitas alianças se desfazem menos por divergências programáticas do que por ressentimentos pessoais

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Lula também comprometeu uma relação estratégica. O senador mineiro vinha sendo tratado como peça importante para a disputa de 2026. Havia a expectativa de que Pacheco disputasse o governo de Minas Gerais, estado decisivo em eleições presidenciais, com apoio do PT, formando um palanque relevante. Com o esfriamento dessa relação, o cenário se torna mais adverso. Sem um aliado forte em Minas, Lula enfrentará dificuldades em um dos maiores colégios eleitorais do país.

Além disso, Pacheco é próximo de Davi Alcolumbre, presidente da Casa e personagem-chave na construção de maiorias. Mesmo sem ruptura explícita, o episódio cria ruídos e alimenta ressentimentos. Em política, a percepção de deslealdade frequentemente pesa tanto quanto divergências ideológicas.

O caso expõe um problema maior da política brasileira: cargos que deveriam ser tratados como posições de Estado continuam sendo usados como moeda de troca. Em vez de prevalecerem a excelência técnica, a independência e a reputação jurídica, nomeações se subordinam a cálculos partidários. O STF, nesse contexto, está inserido em uma lógica que enfraquece a confiança pública e reforça a percepção de que, no Brasil, tudo se transforma em barganha política.

Essa distorção é agravada pelo protagonismo que o Supremo passou a desempenhar nos últimos anos. A Corte, que deveria atuar como árbitro constitucional e guardiã imparcial da lei, tornou-se um ator político central, interferindo, sem qualquer cerimônia, em pautas e decisões do Legislativo. É o que acontece quando ministros são escolhidos por afinidade política: o tribunal deixa de ser visto como instância de neutralidade para se tornar mais um ator no jogo do poder.

O episódio revela também uma mudança estrutural: o Congresso atual é mais fragmentado, mais autônomo e menos suscetível ao comando presidencial do que nos mandatos anteriores de Lula. O modelo em que o presidente indicava e o Senado carimbava perdeu força.

Há ainda o fator humano. A política é feita de vaidades e mágoas. Muitas alianças se desfazem menos por divergências programáticas do que por ressentimentos pessoais. Ao ignorar esse componente e gerar uma percepção de deslealdade, Lula pode ter provocado fissuras duradouras em sua rede de apoio. Esse desgaste surge em momento delicado. O governo já enfrenta dificuldades para manter a coesão no Congresso.

Eleições dependem de popularidade, mas também de alianças regionais, palanques estaduais e apoio legislativo. Ao enfraquecer sua interlocução com setores estratégicos do Senado e perder um possível aliado em Minas, Lula ampliou a incerteza sobre a real competitividade de sua candidatura na eleição de outubro.

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