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Bons acordos comerciais fazem bons vizinhos

É provável que, se você se envolve com política ou tem um interesse moderado pelo tema, já tenha assistido a The West Wing; e, se não assistiu, provavelmente deveria assistir. No mínimo, veja o episódio 16 da segunda temporada, “Somebody’s Going to Emergency, Somebody’s Going to Jail”. Em meio a um protesto contra a expansão da Organização Mundial do Comércio, o diretor de Comunicações da Casa Branca, Toby Ziegler, faz uma declaração que tem sido muito repetida ultimamente:

“Você quer os benefícios do livre comércio? A comida fica mais barata. A comida fica mais barata, as roupas ficam mais baratas, o aço fica mais barato, os carros ficam mais baratos, o telefone fica mais barato. Você percebe que eu estou criando um ritmo aqui? É porque sou redator de discursos e sei como enfatizar um ponto. Isso reduz preços, aumenta renda. Viu o que fiz com ‘reduz’ e ‘aumenta’? Isso se chama a ciência da atenção do ouvinte. Fizemos repetição, fizemos opostos flutuantes, e agora terminamos com aquele que não é como os outros. Preparado? O livre comércio impede guerras. É isso. O livre comércio impede guerras! Quanto ao resto, nós damos um jeito!”

O “aquele que não é como os outros” de Toby – “o livre comércio impede guerras” – é um pouco mais simples do que a realidade complexa do impacto do comércio internacional nas relações entre nações; mas certamente parece que as instituições (quando não os princípios) do livre comércio conseguiram resolver tensões diplomáticas entre dois países latino-americanos: Equador e Colômbia, que foram forçados por uma recente decisão da Comunidade Andina (CAN) a recuar de uma guerra comercial crescente que vinha se intensificando desde o início de 2026.

A disputa começou em janeiro, quando Daniel Noboa, presidente do Equador, anunciou uma tarifa de 30% sobre todos os produtos colombianos, classificando-a como uma “taxa de segurança” devido ao fato de a Colômbia “não conseguir conter a mineração ilegal e o tráfico de cocaína”, além de citar a aparente “falta de reciprocidade e ação firme” do governo colombiano em relação ao tráfico de drogas na fronteira. Em resposta, o presidente colombiano, Gustavo Petro, negou as acusações e prometeu uma tarifa retaliatória equivalente de 30% sobre todos os produtos equatorianos, além de suspender temporariamente as exportações de energia elétrica.

Parece que as instituições (quando não os princípios) do livre comércio conseguiram resolver tensões diplomáticas entre dois países latino-americanos: Equador e Colômbia

A situação permaneceu nesse nível durante fevereiro, enquanto as tarifas eram implementadas, mas em março o Equador aumentou as tarifas sobre exportações colombianas para 50%, elevando-as ainda mais para 100% no início de abril, com entrada em vigor em 1º de maio. Àquela altura, a intensificação assumiu um tom intensamente pessoal: o aumento para 100% ocorreu após Petro chamar publicamente o vice-presidente equatoriano Jorge Glas de “preso político”, depois que ele foi preso após uma controversa invasão da embaixada mexicana em Quito. Ao mesmo tempo, a Colômbia formalizou tarifas diferenciadas sobre 190 produtos equatorianos, variando entre 35%, 50% e 75%.

Finalmente, em uma tentativa de esfriar a situação, a Comunidade Andina ordenou, em 8 de maio, que ambos os países encerrassem todas as tarifas recíprocas no prazo de dez dias úteis. A ordem veio após a decisão da CAN de que as medidas impostas por cada país violavam o Acordo de Cartagena de 1969, bem como o princípio do livre comércio intracomunitário.

Mas o desacordo entre os dois países não é apenas econômico; a política, como sempre, desempenhou um papel importante nesse episódio. Noboa, cujo partido Ação Democrática Nacional (ADN) é de direita e geralmente mais conservador, buscou relações cada vez mais próximas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao mesmo tempo em que se afastou do socialista Petro (eleito em 2022 como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia), em razão do problema regional do tráfico de drogas.

A CAN, criada em 1969 após o Acordo de Cartagena, e composta por Bolívia, Colômbia, Equador e Peru – expandindo-se posteriormente para incluir Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai como membros associados, enquanto o Chile saiu em 1976 –, foi explicitamente estruturada para lidar com o comércio de bens e serviços, a regulamentação de uma união aduaneira entre membros, um mercado comum e até mesmo política externa.

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Originalmente chamada de Pacto Andino, a CAN foi impulsionada pelo desejo de autossuficiência econômica regional e proteção contra grandes potências globais, numa época em que as nações latino-americanas eram parte do “Terceiro Mundo”, espremidas entre o “mundo livre” e o bloco soviético e seus aliados. Como resultado, ela não apenas tem autoridade e poder para decidir conflitos comerciais entre membros, mas também tem precedência sobre a legislação nacional e aplica suas decisões diretamente, sem necessidade de ratificação adicional. Evidentemente, ela não consegue resolver as condições políticas que levam a crises como a briga entre Equador e Colômbia, mas pode ao menos forçar as duas nações a interromper a escalada.

Num momento em que as barreiras comerciais estão aumentando e o bloco comercial mais reconhecido do mundo – a União Europeia – está sobrecarregando de regulamentações as economias que deveria proteger e cujo comércio intrabloco deveria facilitar, a decisão da CAN é um lembrete bem-vindo de que o livre comércio é uma das garantias mais eficazes de paz internacional da história. A União Europeia é um exemplo particularmente grave desse sufocamento do comércio: no espaço de cinco anos, entre 2019 e 2024, cerca de 13 mil atos foram criados na UE (comparados com aproximadamente 3,5 mil leis em Washington). Da mesma forma, a Meta dedicou algo em torno de 600 mil horas de engenharia e mais de 11 mil funcionários para cumprir a Lei de Mercados Digitais da UE.

A CAN talvez não consiga resolver as condições políticas que levaram à escalada dessa guerra comercial; evidentemente terá dificuldades para combater o tráfico regional de drogas, não inculca por si só o respeito ao Estado de Direito e certamente não pode impedir o presidente colombiano de comentar sobre a legalidade da política interna equatoriana. Ainda assim, a CAN ao menos consegue remover atritos entre nações e suas economias por meio da institucionalização do livre comércio e do incentivo a uma cultura de comércio internacional.

Jake Scott é cientista político especializado em populismo e sua relação com a constitucionalidade política, e foi professor em várias universidades britânicas.

©2026 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: Good Trade Deals Make Good Neighbors

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