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Por que uma das melhores cidades do Brasil tem um transporte público tão ruim

Ônibus lotados, atrasos constantes, desconforto e viagens marcadas por freadas bruscas. A rotina de quem depende do transporte coletivo em Maringá está distante do ideal, segundo relatos de passageiros. Em uma cidade reconhecida pelo planejamento urbano, usuários afirmam que o sistema perdeu eficiência diante do crescimento da frota de veículos particulares e da falta de prioridade para o transporte de massa.

Segundo o Ranking das Cidades, produzido pela Gazeta do Povo com base em 27 indicadores, Maringá é o melhor município do Paraná, acima de 50 mil habitantes. Além disso, a cidade se destaca regionalmente no levantamento que permite uma comparação direta entre os 5.570 municípios brasileiros.

A vendedora Rozeli Bocca conhece bem a realidade do transporte público. Durante quatro anos, utilizou o ônibus diariamente para se deslocar. Hoje, embora utilize carro e bicicleta elétrica, afirma que os problemas persistem. “Além de ônibus lotados e sem bancos para sentar, alguns motoristas dirigem de forma brusca, com freadas repentinas, porque parecem estar sempre atrasados”, relata. Rozeli critica também a infraestrutura dos pontos.“O local que eu pego só tem cobertura superior. Se chover, molha do mesmo jeito, porque a estrutura não veda nada”.

A jornalista Camila Stawinski corrobora as críticas. Segundo ela, a desorganização causada pela concentração de estudantes nos horários de pico é um gargalo frequente. “Não é fácil. A superlotação e os atrasos eram as principais dificuldades”, comenta. Camila também aponta falhas no atendimento: “Alguns motoristas são carrancudos e dirigem de forma agressiva”, explica.

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Subsídio anual chega a R$ 45 milhões

O serviço em Maringá é operado pela Transporte Coletivo Cidade Canção (TCCC), única concessionária responsável pelo sistema até 2031, em contrato firmado por 20 anos. A gestão e a fiscalização são de responsabilidade da prefeitura. Atualmente, a TCCC registra cerca de 74 mil viagens diárias, incluindo as gratuidades. Desse total, aproximadamente 54 mil são pagas.

O equilíbrio financeiro do sistema depende de um aporte público massivo. A tarifa técnica — o custo real do transporte por passageiro — é de R$ 8,10. Como o usuário paga R$ 5,20, a diferença de R$ 2,90 é coberta pela administração municipal. Segundo o município, o investimento anual com subsídios gira em torno de R$ 45 milhões.

Além de reduzir o valor da passagem, o aporte garante as gratuidades previstas em lei, que atendem estudantes, idosos acima de 65 anos, pessoas com deficiência, pacientes em tratamento contínuo, gestantes e pessoas com transtorno do espectro autista.

Apesar das críticas, a prefeitura afirma que a eficiência envolve indicadores técnicos, como regularidade, acessibilidade e velocidade operacional, e que o sistema não pode ser classificado como ineficiente sem critérios específicos.

Concessionária diz que ônibus não são prioridade em Maringá

A TCCC explica que, embora opere os veículos, a definição de itinerários, frota e políticas de mobilidade cabe à prefeitura. Para o diretor da empresa, Roberto Jacomelli, o nó crítico está na disputa por espaço nas vias. “O ônibus não tem prioridade em Maringá como tem em Curitiba. Sem isso, o ônibus perde velocidade e passageiros. Aqui, o transporte individual ainda é favorecido”, afirma.

Maringá possui hoje a terceira maior frota de veículos do Paraná, atrás apenas de Curitiba e Londrina. Atualmente, a cidade conta com apenas dois corredores exclusivos, nas avenidas Kakogawa e Morangueira. Jacomelli lembra que tentativas de implantar novas faixas exclusivas em outras regiões não avançaram por falta de decisão política. “Quando chove, os ônibus não andam. Ficam presos no mesmo trânsito dos carros”, diz.

O sistema também sofre com a retração da demanda no pós-pandemia. Segundo o diretor, o transporte coletivo perdeu 25% dos passageiros entre 2020 e 2021, público que não retornou totalmente. O número de estudantes transportados, por exemplo, caiu de 22 mil para cerca de 15 mil viagens diárias. “O usuário, quando consegue sair do ônibus, sai. Compra um carro, uma moto ou usa aplicativo”, lamenta Jacomelli.

Órgãos de controle pressionam por melhorias

A engenheira de tráfego Bárbara Marchesini concorda que o crescimento anual de 4,5% na frota nacional pressiona os ônibus. Ela destaca que a Política Nacional de Mobilidade Urbana exige prioridade ao transporte público. “As faixas exclusivas aumentam a velocidade média e trazem credibilidade. Investir em pontos seguros e acessíveis melhora a experiência do usuário”, afirma.

A pressão por melhorias também vem do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR). O auditor Fernando Matheus da Silva explica que Maringá foi alvo de auditorias em 2023. O tribunal determinou melhorias em calçadas, pontos de ônibus e a realização de estudos para novos corredores exclusivos.

O TCE-PR também recomendou a busca por receitas alternativas, como a exploração comercial do Terminal Intermodal, para reduzir a dependência da tarifa. “Quanto mais a tarifa sobe, menos passageiros utilizam o sistema, migrando para aplicativos”, alerta o auditor.

Prefeitura afirma buscar Tarifa Zero

A administração municipal informou que contratou uma empresa especializada para implantar uma solução integrada de controle, auditoria e monitoramento do transporte coletivo urbano. O projeto prevê implementação tecnológica, capacitação técnica, consultoria operacional, manutenção e atualização permanente do sistema.

“Com isso, conseguimos atender desde o controle da operação até a satisfação do usuário final”, afirma a prefeitura em nota encaminhada à reportagem.

De acordo com a nota, a prefeitura de Maringá segue realizando estudos técnicos e de viabilidade para a implantação do modelo de Tarifa Zero no transporte coletivo.

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