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Como a IA acabou com uma tradição de 133 anos na Universidade de Princeton

Em 1893, os estudantes da Universidade de Princeton estabeleceram por iniciativa própria, e em comum acordo com a direção da instituição, um Código de Honra. É de acordo com este regulamento que todas as provas escritas, testes e questionários realizados em sala de aula são conduzidos sem a presença de um tutor.

O documento afirma: “Os alunos assumem total responsabilidade pela honestidade nas provas realizadas em sala de aula. As provas não são supervisionadas. O professor responsável distribui as provas, aguarda alguns instantes para que haja perguntas e, em seguida, sai da sala, retornando ao final do período estipulado para recolher as folhas de resposta. Em cada prova, o aluno escreve e assina a seguinte declaração: ‘Declaro, sob minha responsabilidade, que não violei o Código de Honra’.”

A partir do primeiro dia de julho de 2026, essa regra sofrerá uma mudança profunda: as avaliações presenciais vão voltar a contar com um fiscal em sala, como não aconteceu ao longo dos últimos 133 anos. Aprovada ao longo dos últimos meses por todas as instâncias necessárias para que uma alteração deste porte seja validada, a reforma é baseada em um argumento: com o acesso a aparelhos cada vez menores, conectados à internet e habilitados com Inteligência Artificial (IA), não é mais possível garantir a segurança das avaliações.

Até então, além da própria confiança nos estudantes, havia um outro fator que garantia o rigor do processo – as delações dos colegas diante de irregularidades. Elas decaíram em quantidade nos últimos anos. E agora se tornaram praticamente inviáveis, já que é muito difícil identificar acesso irregular à internet e a ferramentas de automação. O tutor que acompanhar a realização das avaliações não estará autorizado a interferir, mas vai reportar comportamentos suspeitos.

Medo de cancelamento

Como argumenta o decano da faculdade, Michael Gordin, em documento compartilhado com diferentes departamentos da universidade sobre a questão, a alteração é motivada pela insegurança crescente na própria comunidade acadêmica.

“Nos últimos anos, e com frequência crescente nos últimos seis meses, um número significativo de alunos de graduação e membros do corpo docente solicitaram que o Gabinete do Decano da Faculdade considerasse uma mudança na política relativa aos exames supervisionados, dada a sua percepção de que a fraude em exames em sala de aula se tornou generalizada”.

Ele prossegue: “Existem diversos fatores que impulsionam essa demanda. Os mais citados são o advento de produtos de inteligência artificial generativa, que reduzem significativamente a barreira para obter vantagem injusta no contexto de uma prova em sala de aula. A facilidade de acesso a essas ferramentas em um pequeno dispositivo pessoal também alterou a aparência externa da má conduta durante uma prova, que é muito mais difícil para outros alunos observarem (e, portanto, relatarem)”.

E cita ainda o impacto das redes sociais. “Muitos relatos que chegam ao Comitê de Honra agora são anônimos devido a outro desenvolvimento tecnológico de longa existência – as mídias sociais – que, segundo relatos, dissuadiram os alunos de denunciarem abertamente por receio de exposição indevida ou humilhação perante seus colegas”. Por fim, Gordin argumenta: “Se apenas os alunos estiverem presentes na sala de exame e não estiverem dispostos a denunciar, não haverá como evitar condutas impróprias durante as avaliações”.

Ele não deixa de admitir que a solução tem alcance limitado: “Alunos de graduação e professores entendem realisticamente que ter um instrutor supervisionando as provas não erradicará a fraude. No entanto, eles acreditam que haverá um significativo efeito dissuasor e que ter uma testemunha adicional na sala reduzirá a pressão sobre os alunos para que percebam e relatem problemas enquanto estiverem realizando as provas. A capacidade do fiscal de servir como testemunha em relação a suspeitas de violações pode potencialmente reduzir tanto falsos positivos quanto falsos negativos perante o Comitê de Honra”.

Fim de uma era

Fundada em 1746, a Universidade de Princeton é a quarta instituição de ensino superior mais antiga dos Estados Unidos. Até 2025, 81 pessoas agraciadas com Prêmios Nobel haviam mantido algum vínculo com a instituição ao longo de suas trajetórias. Dois presidentes americanos, James Madison e Woodrow Wilson, assim como a juíza da Suprema Corte Sonia Sotomayor, passaram por Princeton. Um de seus estudantes, o escritor F. Scott Fitzgerald, em várias ocasiões registrou suas impressões positivas a respeito da instituição. Em uma delas, argumentou que, para um estudante local, colar em uma prova “simplesmente não lhe ocorre, assim como não lhe ocorreria vasculhar a bolsa do seu colega de quarto”.

Em 1876, um editorial publicado no recém-criado The Princetonian, o jornal do campus, atualmente conhecido como The Daily Princetonian, já argumentava que fiscalizar os alunos no momento da avaliação era “um meio de má educação moral”. Argumentava que tratar os alunos como presumivelmente desonestos levaria alguns a sê-lo; tratá-los como honrados levaria a que aprendessem a comportar-se honradamente. “Que cada aluno escreva, ao final de seu trabalho, uma declaração de que não ofereceu nem recebeu ajuda, e que professores e tutores se dediquem a tarefas mais nobres do que vigiar fraudes”, recomendava o texto.

Em 2025, em compensação, o levantamento anual interno realizado entre os formandos apontou que 29,9% dos estudantes admitiram, em condição de anonimato, terem colado em algum exame. O percentual pode ser ainda maior, dado que 44,6% dos entrevistados afirmaram que presenciaram violações ao Código de Honra e optaram por não relatá-las. O número de alunos que usaram o ChatGPT em uma tarefa quando não era permitido subiu para 27,7%, um aumento de 12,5% em relação à turma de 2024.

Como declarou Nadia Makuc, aluna do último ano de Princeton e ex-presidente do Comitê de Honra, à revista The Atlantic, atualmente os alunos postam sobre violações do Código de Honra no Fizz, o aplicativo de mídia social anônimo do campus. Isso faz com que os alunos que seguem as regras se sintam enganados. “Há uma atmosfera de pessoas colando em trabalhos e usando o ChatGPT”, disse. “Enquanto as pessoas acharem que há mais trapaça, isso incentiva mais trapaça”.

O que significa que o Código de Honra sobreviveu a duas guerras mundiais, movimentos culturais questionadores dos anos 1960, crises políticas de credibilidade, como o caso Watergate, e até mesmo ao surgimento da internet e das ferramentas de busca. Mas, agora, não sobreviveu à IA generativa. E este é uma questão que extravasa os muros da universidade, como lembra, em artigo recente, David Hein, professor do Russell Kirk Center for Cultural Renewal. Ele argumenta que a honra está diretamente ligada à qualidade da vida em sociedade. “A inclinação do ser humano para a justiça torna a democracia possível, mas a tendência de um indivíduo ou grupo abusar do poder, uma vez conquistado, torna a democracia necessária”.

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