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PSDB racha entre direita e esquerda após tentar liderar o centro na corrida presidencial

Após buscar construir uma terceira via para superar a polarização política, o PSDB se aproxima de uma decisão crucial para sua frágil estrutura interna: apoiar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aderir à direita de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou ainda tentar permanecer neutro na eleição presidencial de 2026.

Sem candidatura própria competitiva e pressionado pela necessidade de sobrevivência política, o partido que governou o país por oito anos (1995-2002) vê crescer o risco de racha entre a ala pragmática e a inclinada à centro-direita, que dialoga com o conservadorismo da família Bolsonaro.

O ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes informou ao deputado Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, que não disputará a Presidência em 2026, encerrando a tentativa tucana, iniciada no ano passado, de oferecer uma alternativa à forte entre esquerda e direita no plano nacional.

Fracasso em liderar terceira via acelera crise interna no ninho dos tucanos

Em telefonema na segunda-feira (11), Ciro agradeceu o convite feito por Aécio em abril e confirmou que manterá o projeto de disputar o governo do Ceará. Desde a saída do governador Eduardo Leite (RS) para o PSD, em maio de 2025, o PSDB busca um novo nome para se reposicionar nacionalmente.

Antes de Ciro, dirigentes tucanos também sondaram o ex-presidente Michel Temer (MDB), que igualmente recusou disputar o Palácio do Planalto. Sem alternativa viável, cresce entre analistas a percepção de que o PSDB acabará negociando espaço em projetos presidenciais já consolidados no tabuleiro.

Aécio reassumiu a presidência nacional do PSDB em novembro de 2025 e articula simultaneamente sua pré-candidatura ao Senado por Minas Gerais. Nos bastidores, ele conversa com o senador Rodrigo Pacheco (PSB), possível candidato ao governo mineiro que vinha sendo defendido por Lula.

Nas articulações para as eleições em Minas, PSDB se aproxima do PT

As negociações do PSDB em Minas aproximaram antigos rivais históricos. Interlocutores relatam que setores do PT estimulam a aliança envolvendo Pacheco ao governo e Aécio ao Senado, numa frente contra a direita no estado. A hipótese expõe a dificuldade do PSDB em manter identidade própria.

Ao mesmo tempo, o partido também ensaia aproximação com a centro-direita. Em fevereiro, o deputado Paulo Abi-Ackel, presidente do PSDB mineiro, admitiu diálogo com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, desde que o PL se consolide num campo mais moderado de centro-direita.

A ambiguidade nos planos estadual e nacional reflete o declínio de protagonismo tucano. Sem governadores desde 2025 e após fracassarem negociações de fusão ou federação com Podemos e Cidadania, o PSDB passou a avaliar alianças e candidatura própria para evitar o isolamento.

Cláusula de barreira pressiona tucanos a lutarem por sobrevivência política

O PSDB trava há quase uma década uma luta política e institucional pela sobrevivência no sistema partidário. Desde o avanço da cláusula de barreira, o partido sofreu perdas de deputados federais, redução de bancadas estaduais e debandada de quadros históricos.

O encolhimento parlamentar atingiu diretamente o fundo partidário e o tempo de propaganda eleitoral. Hoje, a busca por candidatura presidencial é vista pela cúpula menos como projeto real de poder e mais como mecanismo de sobrevivência institucional e fortalecimento proporcional.

Atualmente, o PSDB possui 18 deputados federais. Em 2022, a federação PSDB-Cidadania recebeu 4,9 milhões de votos para a Câmara, equivalentes a 4,5% do total nacional. Em 2026, porém, a cláusula de desempenho subirá para 2,5%, ampliando a pressão sobre legendas médias.

PSDB pode ampliar declínio eleitoral e ainda sofrer o risco de ruptura interna

A trajetória presidencial tucana revela perda progressiva de força. Desde 2002, o partido perdeu quatro disputas presidenciais para o PT no segundo turno. Em 2018, Geraldo Alckmin despencou para 4,7% dos votos válidos, pior resultado da história da legenda desde a redemocratização.

Para o cientista político Ismael Almeida, a recusa de Ciro Gomes aprofunda um dilema existencial do PSDB. “Sem candidatura própria que traga coesão, a tendência é o racha entre líderes avessos a Bolsonaro e setores inclinados à direita por rejeitarem integralmente o PT”, afirma.

Já Ricardo Caldas avalia que Aécio identificou corretamente um espaço para terceira via, mas não encontrou um nome capaz de ocupá-lo. Segundo ele, um eventual apoio formal do PSDB ao PT acentuaria ainda mais a perda de identidade de uma legenda que, durante décadas, estruturou sua existência política justamente no antagonismo ao petismo.

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