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Como um país pequeno como a Nova Zelândia se tornou um obstáculo para a coerção chinesa

A Nova Zelândia pode ser um país pequeno sob qualquer medida — com pouco mais de 5 milhões de habitantes e cerca de 100 mil milhas quadradas de território —, mas suas características únicas a tornaram um dos principais alvos da China no que Pequim chama de “diplomacia de periferia”, a estratégia do Partido Comunista Chinês de infiltrar-se e estabelecer parcerias com países vizinhos para fortalecer sua posição geopolítica.

Uma economia ocidental avançada

A China tem usado a Nova Zelândia como uma porta de entrada conveniente para o sistema econômico ocidental. O Ministério do Comércio chinês destaca quatro “primeiros” com o país: foi o primeiro a concluir negociações bilaterais na Organização Mundial do Comércio (OMC) com a China, o primeiro a reconhecer a China como uma economia de mercado plena, o primeiro a iniciar negociações de um acordo de livre comércio bilateral e o primeiro a assinar e implementar esse tipo de acordo.

No entanto, as ambições de Pequim na Nova Zelândia vão muito além do comércio e das relações econômicas.

Um relatório de pesquisa de 2020, elaborado por Anne-Marie Brady — especialista em China e professora da Universidade de Canterbury — e seus colegas, intitulado “Segurando uma caneta em uma mão, empunhando uma arma na outra”, explica por que o país é um alvo tão atraente para o Partido Comunista Chinês. A Nova Zelândia abriga empresas de alta tecnologia e cientistas de classe mundial, é membro da aliança de inteligência Five Eyes e parceira da OTAN, além de estar próxima da Antártida e conduzir programas avançados de pesquisa polar.

Esses fatores são extremamente valiosos para a China em sua tentativa de dominar recursos polares e expandir seu sistema de satélites BeiDou. As defesas relativamente frágeis da Nova Zelândia também a tornaram uma porta de entrada para o acesso do Partido Comunista Chinês a tecnologias ocidentais de ponta voltadas à modernização militar.

Ao mesmo tempo, autoridades neozelandesas passaram a reconhecer riscos crescentes. À medida que o Partido Comunista Chinês se torna mais assertivo, Wellington, a capital neozelandesa, avalia que atores patrocinados pelo Estado chinês exploraram vulnerabilidades cibernéticas no país de maneiras que comprometem sua segurança.

Um ator-chave no sistema ocidental

A Nova Zelândia ocupa uma posição central em importantes alianças internacionais. O país integra a rede de compartilhamento de inteligência Five Eyes — ao lado de Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália —, um grupo altamente integrado do qual nem mesmo grandes potências europeias participam plenamente.

Também mantém estreitos laços militares com os Estados Unidos, especialmente com a Força Espacial americana. Em Auckland, abriga um centro de vigilância espacial financiado pelos EUA, responsável por monitorar lançamentos de foguetes e detritos. Sua localização no hemisfério sul oferece vantagens estratégicas para operações espaciais.

Além disso, o país se aproxima da adesão ao Pilar Dois do AUKUS, voltado ao compartilhamento de tecnologias avançadas como inteligência artificial, sistemas quânticos, capacidades hipersônicas, cibernéticas e subaquáticas. A Nova Zelândia também integra o grupo de parceiros da OTAN no Indo-Pacífico (AP4), ao lado de Japão, Coreia do Sul e Austrália, e mantém um programa de parceria com a aliança válido até 2027.

Outro eixo relevante é sua participação nos Five Power Defence Arrangements (FPDA), juntamente com Reino Unido, Austrália, Malásia e Singapura.

Uma potência no Pacífico Sul

Ao lado da Austrália, a Nova Zelândia se vê como uma líder natural no Pacífico Sul, região que reúne 14 pequenas nações insulares e ocupa posição estratégica relevante na arquitetura de defesa dos Estados Unidos.

A chamada segunda cadeia de ilhas inclui Japão, Ilhas Ogasawara, Marianas, Guam, Palau e Indonésia. Já a terceira cadeia — considerada a última linha de defesa antes do território continental americano — abrange Alasca, Ilhas Aleutas, Havaí, Atol Midway, Ilhas da Linha e a própria Nova Zelândia.

Por fatores geográficos, culturais e históricos, Wellington tem atuado em conjunto com Canberra para conter a crescente influência chinesa por meio de diplomacia, assistência e cooperação em segurança. Em 2022, o país aderiu à iniciativa Partners in the Blue Pacific, liderada pelos Estados Unidos.

Mudança na política em relação à China

Durante anos, a Nova Zelândia adotou uma postura relativamente aberta e conciliadora em relação à China. Esse cenário mudou nos últimos tempos, impulsionado por uma atuação mais assertiva de Pequim, incluindo a chamada diplomacia “wolf warrior”, interferência estrangeira e atividades cibernéticas.

Em 2023, a primeira Estratégia de Segurança Nacional do país e seu serviço de inteligência identificaram o regime chinês como uma das principais fontes de risco à segurança nacional, além de classificá-lo como o agente estrangeiro mais ativo em interferência interna.

Em abril de 2025, o governo anunciou um plano de modernização da defesa de 12 bilhões de dólares neozelandeses ao longo de quatro anos, com a meta de elevar os gastos militares de cerca de 1% para mais de 2% do PIB. O primeiro-ministro Christopher Luxon afirmou que esse patamar representa “o piso, não o teto”.

Wellington também passou a reagir com mais firmeza à atuação chinesa em sua área de influência. Em 2025, após as Ilhas Cook firmarem acordos sigilosos com Pequim sem consulta prévia, a Nova Zelândia suspendeu temporariamente a ajuda e, posteriormente, assinou uma nova declaração de defesa e segurança com o arquipélago, reafirmando-se como principal parceiro estratégico.

Episódios recentes evidenciam o aumento das tensões. Em abril, a China acusou uma aeronave P-8A Poseidon da Força de Defesa da Nova Zelândia de realizar ações de reconhecimento no Mar Amarelo e no Mar da China Oriental. Wellington respondeu que a operação fazia parte de uma missão internacional, sob mandato da ONU, voltada ao monitoramento de violações de sanções contra a Coreia do Norte, conduzida em conformidade com o direito internacional.

Considerações finais

A China continua sendo o principal parceiro comercial da Nova Zelândia e uma importante fonte de turismo e exportações. Ainda assim, as ambições globais de Pequim e sua atuação mais assertiva no Pacífico têm aproximado o país de Washington e de seus aliados tradicionais.

Diante desse cenário, a Nova Zelândia tende a buscar um equilíbrio entre sua dependência econômica da China e a necessidade de reforçar alianças estratégicas, além de diversificar sua economia para reduzir vulnerabilidades.

Wang He é comentarista de política e atualidades chinesas, com mestrado em Direito e em História. Estudou o movimento comunista internacional, foi professor universitário e executivo em uma grande empresa privada na China. Desde 2017, vive na América do Norte e publica análises sobre os rumos da China contemporânea

©2026 The Epoch Times. Publicado com permissão. Original em inglês: New Zealand: A Small Country But a Major Player Against China’s Coercion in South Pacific

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