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Cem anos de solidão para a transição energética

A ministra colombiana Irene Vélez e a holandesa Stientje van Veldhoven durante a 1ª Conferência sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, Colômbia. (Foto: Ricardo Maldonado Rozo/EFE)

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A 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis não poderia ter um palco mais adequado do que a Colômbia, terra natal de Gabriel García Márquez. De fato, o evento, realizado em abril na cidade caribenha de Santa Marta, bem poderia ter tido como sede a Macondo de Cem anos de solidão, obra-prima do mestre do realismo mágico, dado o nível de dissonância cognitiva dos participantes.

O convescote foi organizado pelos governos da Colômbia e da Holanda como uma espécie de prêmio de consolação para os adeptos da delirante agenda da “descarbonização” da economia mundial, que esperavam sair da conferência climática COP30, realizada em novembro último em Belém (PA), pelo menos com um “mapa do caminho” para a substituição acelerada dos combustíveis fósseis. E, com isso, sustentar por mais algum tempo a sua agenda ilusória, que está sendo desmantelada a olhos vistos, principalmente com os golpes assestados pela nova gestão de Donald Trump na Casa Branca.

Estiveram em Santa Marta representantes de 57 países, inclusive o Brasil, que produziram as seguintes resoluções:

  • elaboração de “mapas do caminho” nacionais;
  • foco nas emissões da produção dos combustíveis fósseis, sendo a Noruega e a Margem Equatorial Brasileira citadas como exemplos;
  • busca de recursos a fundo perdido dos países industrializados para o Sul Global, sem a correspondente geração de dívidas;
  • criação do Painel Científico para a Transição Energética Global, para “assessorar” os governos engajados.

Em um momento em que a guerra no Golfo Pérsico está ressaltando a extensão da dependência da economia mundial dos hidrocarbonetos, reforçando a percepção de que tal condição não poderá ser significativamente alterada em um futuro previsível, é simplesmente irreal (ou surreal) imaginar que a “transição para longe dos combustíveis fósseis” irá integrar as agendas estratégicas da maioria das nações do planeta.

E, da mesma forma, acreditar que as economias industrializadas se disporão a financiar a fundo perdido uma “transição” desprovida de viabilidade tecnológica e econômica e até mesmo de sentido prático.

Quanto ao Painel, ele é o mais recente produto da parceria da dupla de climatologistas Carlos Nobre e Johan Rockström, entre os mais ativos propagandistas do catastrofismo ambiental e climático. O brasileiro, entre outros crachás “verdes”, é cofundador do Painel Científico para a Amazônia, cuja modesta missão autodeclarada é “tornar-se uma autoridade global, fornecendo ciência e conhecimento de ponta relevantes para políticas sobre a Amazônia”, além de ser arroz de festa na mídia para assuntos climáticos, sempre sob uma ótica alarmista.

O sueco é presidente do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK), um dos principais centros de difusão do alarmismo climático na Europa. Ambos também são membros dos Guardiões Planetários, entidade criada pelo bilionário britânico Richard Branson com a mesma finalidade.

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Na COP 30, o pavilhão dos Guardiões ficou praticamente às moscas, e a dupla passou a conferência lamentando que os negociadores não os procuravam para ouvir a “palavra da Ciência”. Ao final, divulgaram um documento qualificando a ausência do pretendido “mapa do caminho” para o banimento dos combustíveis fósseis como “uma traição à ciência e às pessoas”.

Em Santa Marta, um grupo de cientistas da linha catastrofista promoveu um debate na Universidade de Magdalena, de onde saíram as seguintes recomendações:

  • interrupção de novos projetos de combustíveis fósseis;
  • redução das emissões de metano (leia-se pecuária);
  • aceleração da eletrificação dos transportes e da indústria;
  • fim dos subsídios ao setor petroleiro.

Segundo os debatedores, as propostas se sustentam em evidências econômicas que, supostamente, apontam para um declínio acelerado da indústria do petróleo. Porém, como até mesmo a Agência Internacional de Energia (EIA) já revisou as suas projeções sobre um pico do consumo de petróleo em 2030, e a eletrificação automobilística não vai muito bem das rodas (como atestam os monumentais prejuízos dos fabricantes europeus), não se sabe onde os diligentes cientistas foram buscar tais dados.

Em essência, só podemos imaginar que decidiram criar uma espécie de realismo mágico para justificar os seus delírios tecnológicos sobre uma transição energética que o mundo real vai se encarregando cada vez mais de desqualificar.

Em outras palavras, os únicos “fósseis” que precisam sair de cena são os catastrofistas e suas pretensões de converter os seus delírios em políticas públicas.

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