O ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca deixou o PSD, partido do atual governador Ratinho Junior, para tentar viabilizar a pré-candidatura ao governo estadual. Sem o apoio do governador, apesar de ter feito parte da gestão como secretário de Desenvolvimento Sustentável, Greca migrou para o MDB em busca de espaço para construir uma coligação com outras siglas na disputa pelo Palácio Iguaçu, sede do Executivo paranaense.
Três vezes prefeito de Curitiba, deputado estadual, deputado federal, secretário estadual em diferentes gestões e ex-ministro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Greca já deixou claro que não pretende ser apenas um espectador nas eleições de outubro.
Em entrevista à Gazeta do Povo, ele rejeitou o rótulo de “plano C” de Ratinho Junior e se posicionou como “herdeiro” do governo no Paraná, citando seu DNA “paranista” e os feitos à frente da capital do estado. “Tudo isso não só me credencia, como também me impulsiona a querer dar um futuro para o nosso glorioso passado”, afirmou.
Na segurança pública, o pré-candidato rebateu críticas sobre a situação do centro de Curitiba, classificando a resistência à presença de pessoas em situação de rua como “aporofobia” — termo que define aversão aos pobres.
Confira a entrevista na íntegra de Rafael Greca
Curitiba sempre foi o seu “quintal”, apesar de o senhor já ter sido secretário de Estado várias vezes, deputado e até ministro. Como acha que o Paraná vai acolher o jeito Greca de ser?
Obviamente sou paranaense antes de ser curitibano. Meu pai era o engenheiro Eurico Dacher de Macedo e, quando era diretor do DER [Departamento de Estradas de Rodagem], conheci o Paraná inteiro viajando com ele de jipe, abrindo e conhecendo estradas antes mesmo de serem inauguradas. Em casa, sempre fomos muito devotos do paranismo e, entre amigos e familiares, tive vários que marcaram seus nomes na história do Paraná, como Alfredo Romário Martins, o maestro Bento Mossurunga e até minha prima Maria Falce de Macedo, primeira médica do Paraná.
Com tanta tradição, tendo nascido em um berço tão paranaense e com tanta pertinência, naturalmente acho que não é demais pedir que prestem atenção em mim. Tudo isso não só me credencia, me impulsiona, me provoca a querer dar um futuro para o nosso glorioso passado. Também aplicar todas as coisas que aprendi ao longo da vida, desde o rodoviarismo, passando pelas cadeias produtivas de cada um dos produtos que temos no Paraná, com planejamento. Isto posto, o MDB me deu um ponto de apoio e, com ele, eu pretendo alimentar o mundo.
Não basta querer, não basta ter um DNA paranaense. É preciso uma legenda estruturada e apoios políticos. Como o senhor está trabalhando para conseguir tudo isso e realmente viabilizar sua candidatura?
Com o mesmo sentimento do presidente Juscelino Kubitschek antes de fazer Brasília. Deus me poupou do sentimento do medo.
Mas como o senhor está encarando as conversas com possíveis aliados nessa pré-candidatura?
Não temos feito outra coisa. Está fervendo. Temos recebido muitas adesões, muitas pessoas. É muito bonito, porque também vêm adesões de pessoas muito humildes, como, por exemplo, um vereador de Tunas do Paraná, que me trouxe umas bolachas amanteigadas feitas pelo avô dele para mim. Mais um “Grecalover” me apoiando.
O senhor está satisfeito com os apoios políticos e partidários conquistados até aqui?
Por enquanto, estou muito feliz. Está tudo indo bem. Estamos em voo de brigadeiro. E, adiante, quem viver verá. Não se esqueça de que entrei no PMN na eleição municipal, fui muito depreciado por todas as mídias e até ignorado pelas pesquisas. No fim, terminei “tri-prefeito” de Curitiba.
Hoje o cenário parece outro, já que o senhor terminou a administração com grande aprovação. Por isso a vontade de disputar o governo?
Isso só me faz bem, só me dá mais proximidade com a população. O próximo degrau natural seria o Palácio Iguaçu. Também me dá confiança porque conseguimos eleger o Eduardo Pimentel em Curitiba e ajudamos o Carlos Massa Ratinho Junior no Paraná.
Recentemente, o presidente da Alep disse à Gazeta do Povo que não tinha plano B além da disputa para ser sucessor de Ratinho Junior. No fim, acabou abraçando o plano B. O senhor aparecia como um plano C do atual governador e acabou buscando seu próprio caminho. Ainda há espaço para uma união de forças?
O tempo vai dizer. Ainda há tempo, são três meses. Vamos ver como vão se comportar as candidaturas postas e se a população vai me rejeitar, coisa que acho fora de cogitação. Nem em Curitiba, nem na região metropolitana e muito menos nos setores mais influentes da sociedade paranaense, como as cooperativas, os grandes empreendedores e também os pensadores do Paraná, além da academia, que me aprecia muito e até me distinguiu neste ano com o título de doutor honoris causa pela PUC, o que não é pouca coisa.
O senhor parece mais confiante do que a realidade política sugere. Em que apoia essa confiança? Qual seria sua “bala de prata”?
Não tenho bala de prata. Tenho apenas o meu coração. O meu coração paranaense. Chega de política utilitária, chega de política para amealhar tesouros na Terra que a traça corrói. Quero ser o prefeito amoroso e operoso que fui, capaz de gerar fartura e prosperidade. O governante virtuoso que faz a felicidade do seu povo. E os US$ 8,5 bilhões que constituem o legado herdado pelo jovem prefeito Eduardo Pimentel representam a grandeza do que juntos ainda poderemos fazer.
O senhor disse recentemente que “o Dudu é meu”, demonstrando confiança plena no apoio do prefeito Eduardo Pimentel à sua candidatura. Acontece que ele está no PSD, partido do governador, que lançou a pré-candidatura de Sandro Alex. O senhor segue acreditando nesse apoio?
Greca: De maneira alguma [temo a falta do apoio do prefeito], porque o Eduardo será sempre da Cruz, jamais da Caldeirinha.
O Paraná vive gargalos históricos em infraestrutura. Quais suas ideias para fazer o estado andar em uma eventual gestão?
Vamos olhar para todos os lados, para todos os modelos, um por um. Pensar em uma política de transporte com multimodalidade. E trabalhar muito para não matar a infraestrutura energética do Paraná por intermédio da Copel. Há ressentimento no interior pela falta de eletricidade, e isso causa muita apreensão nos produtores paranaenses. Mesmo aqui na cidade, às vezes, no horário de pico, ocorre queda de energia. Já fiquei preso no elevador do meu prédio. Essas coisas nunca aconteceram. Isso precisa ser remediado.
Temos de trabalhar mais com PCHs, as pequenas centrais hidrelétricas. Há mais de 200 no estado. Podemos fazer 400, inclusive PCHs móveis, hidrelétricas sobre balsas, que não bloqueiam o rio. Podemos implantar novas turbinas nas grandes represas do Paraná, que ainda não operam com toda a capacidade instalada. Por exemplo, Foz do Areia e Salto Osório, construídas no governo Alvaro Dias (MDB), ainda operam com as turbinas originais da época. Podemos aumentar o potencial energético do Estado.
O senhor acha que a venda da Copel foi um erro?
É uma tendência de mercado, mas o tempo dirá. Privatizações não são ruins se forem feitas com decência. Toda privatização decente é boa. Vi Margaret Thatcher falar sobre privatizações ao lado de Fernando Henrique Cardoso, em um hotel em São Paulo. Ela virou para ele e disse: “privatizações malfeitas são shame on you, uma vergonha para vocês. Não façam nenhuma privatização malfeita”.
Mas para uma privatização funcionar bem para os consumidores, uma das condições é haver concorrência.
Melhorando as coisas que já existem, acho que o problema se resolve. Nunca deixarei que algo mal organizado prejudique o povo. Fiz isso em Curitiba. Lavei Curitiba com água oxigenada na pandemia. Sou hiperativo e gosto de ser superlativo. Não quero perder nenhum cuidado com o nosso povo.
E quanto a outras alternativas para geração de energia elétrica?
Também podemos trabalhar muito com a fronteira do biogás e da energia eólica. O próprio governador fez, a meu pedido, as 70 centrais eólicas do sudoeste do Paraná, que estão em licitação. Há muitas outras alternativas que um bom plano de governo colocará no papel.
Como vocês sabem, não costumo ficar em segundo lugar. Sempre tirei o primeiro lugar quando fazia trabalhos escolares. Então, se vou fazer um plano de governo, vou aplicá-lo por completo, como fiz em Curitiba. Está aí a pirâmide solar, as Ruas da Cidadania com tetos solares, as creches, postos de saúde e CMEIs. Aos que duvidam, peço apenas que esperem um pouco. Eu não apostaria no meu fracasso.
O senhor falou recentemente sobre uma solução inusitada para resolver o gargalo das estradas para escoamento da safra. Como funcionaria isso?
Assim como a engenheira Enedina fez na represa do Capivari, levando água de Campina Grande do Sul até Antonina, poderíamos fazer um túnel de soja.
Mas isso é exequível? Já existe algum estudo?
Disseram que a minha pirâmide solar era uma asneira em 2012. Ridicularizaram-me, e eis a pirâmide. Então, por que não um túnel de vácuo ou vento, com terminais ferroviários serra acima e serra abaixo, para acabar com o gargalo da Serra do Mar? Dá para usar a faixa já existente do gasoduto São Francisco do Sul-Araucária. Poderíamos implantar ali o “granoloduto”.
Não é uma ideia minha. Faço justiça ao ex-governador Emílio Hoffmann Gomes, ao engenheiro Eliazib Gonçalves Enes, ao meu pai Eurico Dacher de Macedo e a outros pensadores estratégicos do movimento Pró-Paraná, que defendem soluções para os gargalos ferroviários. O que não podemos é continuar sonhando com uma Ferroeste que começou desenhada pelos irmãos Rebouças, em 1873, e ainda não funciona direito.
Curitiba enfrenta uma sensação crescente de insegurança no Centro, com a presença de muitas pessoas em situação de rua…
Não se esqueça de que sou marido da Margarita e, portanto, herdeiro da FAS. Foi ela quem criou a Fundação de Ação Social. Ela iniciou os “educadores de rua” e o protocolo para recolher desvalidos quando a temperatura cai abaixo de nove graus. Colocar a culpa do problema social nos próprios desvalidos me parece uma coisa de Satanás.
O que precisamos é resolver os problemas de desajuste social com serviço social. Se a FAS falha em algum lugar, o cidadão deve acionar o 156 para identificar o problema.
Já vi equipes da FAS ajudando jovens dependentes químicos, telefonando para suas mães e comprando passagens para que voltassem às cidades de origem. Esse processo social não é fácil, mas não pode ser pautado pelo preconceito.
Evidentemente o problema não é a FAS. Mas há uma sensação de insegurança…
Isso tem nome: aporofobia, que é ódio aos pobres. Isso não pode existir em uma democracia, muito menos em uma cidade que se pretende civilizada.
Mas a cidade também enfrenta problemas de criminalidade, especialmente em regiões como o Parolin…
Consulte a Secretaria de Defesa Social da prefeitura, a polícia estadual. Peça, por meio dos Consegs, que a Muralha Digital identifique os pontos críticos. Não podemos permitir territórios do crime dentro da cidade. Enquanto tive essa responsabilidade, nunca deixei isso acontecer. E, se o senhor diz isso, preciso acreditar, porque o senhor é da Gazeta do Povo. Mas também pode dizer isso ao Eduardo e ajudar como cidadão, acionando o 156.
Mas a responsabilidade sobre segurança pública costuma ser atribuída ao governo estadual…
Não, isso não é verdade. O nível de criminalidade que vemos hoje no Rio de Janeiro, com territórios dominados pelo crime organizado, é um problema federal.
O senhor acha que falta ajuda federal em Curitiba?
Falta intervenção no Brasil inteiro. Não pode haver territórios do crime. O que acontece no Rio é um absurdo. Em Curitiba isso não existe.
Se eleito, o senhor será o chefe da segurança pública. Quais seriam suas propostas?
Não existe outra receita além da vigilância permanente e da presença permanente. Durante muitos anos organizei a festa da Igreja da Ordem com a Margarita no Largo da Ordem. Quando havia jogo de futebol e a polícia deixava a praça, imediatamente apareciam malfeitores. Onde não há policiamento, há problema. Onde há policiamento, não há problema.
Mas também é fundamental a reinserção familiar e social das pessoas. Esse é dever da FAS, das organizações religiosas, da maçonaria, dos clubes de serviço e de todos que se incomodam com o problema.
Todos os candidatos falam em reforço no policiamento…
O plano de governo está sendo montado. Claro que a polícia precisa de novos efetivos. A inteligência artificial ajuda muito, a Muralha Digital ajuda muito. Se pudermos expandir isso para o Estado inteiro, faremos.
Mas o governador não é apenas um caçador de bandidos. Ele formula políticas públicas. E a base da política pública de segurança é a educação.
Como a educação, por exemplo?
Sem dúvida. A segunda base é um serviço social eficiente e a terceira é um sistema de saúde eficiente. Se tudo isso funcionar, as coisas melhoram.
Também precisamos impedir que os filhos dos agricultores deixem suas cidades para vir ser pobres em Curitiba. Precisamos criar oportunidades para que prosperem onde nasceram.
Existe hoje um movimento de migração da cidade grande para o interior. Que projetos o senhor tem para ampliar a industrialização e empregos fora da capital?
As linhas de financiamento do governo do Paraná são excelentes. O Paraná Competitivo é ótimo. A industrialização já é uma realidade.
Hoje eu trabalharia, por exemplo, com a cadeia produtiva do biometano e do agronegócio. Se em Cerro Azul plantam laranja, por que não produzir geleias, perfumes e outros derivados?
Quando a Tom Ford vende um perfume feito com cítricos da costa italiana por centenas de dólares, é porque a cadeia produtiva deles funciona. Por que não pode funcionar em Cerro Azul?
Como o senhor pretende trabalhar com empreendedores e empresas de tecnologia?
Greca: Colocamos R$ 10 milhões para pequenos empreendedores durante a pandemia para evitar falências. Depois reduzimos o ISS de 5% para 2% para incentivar shows, congressos e espetáculos. O Natal de Curitiba é um exemplo disso.
Também desenvolvemos o Vale do Pinhão. Hoje temos cinco unicórnios e mais de 2 mil startups. E isso não ocorre só em Curitiba. Assaí, por exemplo, tem um ecossistema de inovação extraordinário.
Que projeto desenvolvido em Curitiba pode ser expandido facilmente para o restante do estado?
Muitas coisas. O Armazém da Família, o vale-creche, os programas voltados à infância e adolescência, os Faróis do Saber com impressoras 3D e robótica nas escolas, além do Saúde Já, que permite consultas por telefone e computador.
Quero trabalhar com as 20 associações de municípios do Paraná. O prefeito não pode ser refém político. Quero um “Rafaelzinho” ou uma “Rafaelazinha” em cada um dos 399 municípios do Paraná.
O senhor é um político da velha guarda, mas que defende ideias novas. Essa estratégia tem funcionado?
Tenho o mesmo vício do nosso companheiro do MDB do Egito, Moisés, que aos 80 anos começou a caminhar rumo à Terra Prometida.
Faz um ano da morte de sua esposa, Margarita. Como está sendo esse período?
Ela está dentro de mim. Deixou-me um livro chamado “Dentro da Gente”, que fica na minha cabeceira. Nós acreditávamos que dentro da gente está a consciência. E, pela comunhão dos santos, podemos conversar. Eu e a Margarita conversamos sempre. Por intuição, amor e profundo respeito ao desígnio de Deus. Quem sabe isso tenha acontecido para me provar mais e me fazer melhor adiante. Quem sabe eu ganhe um terreno melhor no céu.
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