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Por que as gigantes da tecnologia estão conversando com o Vaticano?

Em 2016, o ChatGPT ainda nem existia. E o Vale do Silício acreditava que resolveria o futuro da humanidade com códigos, investimentos bilionários e aplicativos geniais.

Foi justamente nessa época que o Vaticano começou a convidar executivos de tecnologia para conversas reservadas. O primeiro encontro foi realizado em Santa Maria sopra Minerva, uma das igrejas mais simbólicas de Roma.

O nome da série de conferências também não foi escolhido por acaso: Minerva Dialogues, numa referência à deusa romana da sabedoria. A mensagem era clara. Não se tratava de discutir traquitanas ou inovação, mas de pensar o que essa revolução tecnológica significa para o ser humano.

A expectativa, agora, é de que esse debate não fique só nas reuniões com os chefões das big techs. Ainda em 2026, a Igreja pode publicar um novo e amplo documento sobre inteligência artificial e o lugar das pessoas nesse novo mundo.

Cenário de série

O responsável por colocar os Minerva Dialogues de pé é o bispo Paul Tighe, assessor do Dicastério para a Cultura e a Educação — junto com o padre Eric Salobir, dominicano fundador da Optic, uma rede de reflexão sobre tecnologia e fé.

Ninguém pode divulgar quem são os participantes sem autorização. Mesmo assim, os nomes que apareceram ao longo dos anos dão a dimensão da proposta. Entre eles, Eric Schmidt (ex-CEO do Google), Reid Hoffman (cofundador do LinkedIn) e James Manyika (ex-chefe do McKinsey Global Institute, braço de pesquisas da maior consultoria de negócios do mundo).

Bilionários das big techs, muitos deles ateus, discutindo filosofia e moral com teólogos católicos em igrejas antigas de Roma. Parece o cenário de uma série cult de algum serviço de streaming, mas talvez seja a imagem do esforço do Ocidente para repensar seus próprios rumos.

A Igreja chegou antes

Para entender por que o Vaticano entrou nesse debate, e antes de quase todo mundo, é preciso voltar ao final do século XIX.

Naquela época, a Revolução Industrial deixava milhões de trabalhadores em condições críticas: crianças em fábricas, jornadas desumanas e salários miseráveis. Enquanto governos se perdiam e ideologias radicais (como o comunismo) ganhavam força, a Igreja resolveu agir.

Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), documento que marcou a posição católica diante da industrialização. O texto não condenava a tecnologia, e sim a ausência de limites morais em seu uso.

Mais de 130 anos depois, ao ser escolhido papa, Robert Francis Prevost escolheu o nome Leão XIV justamente para sinalizar um paralelo entre a Revolução Industrial e a era da IA.

Em seu primeiro discurso ao Colégio dos Cardeais, ele explicou: “O Papa Leão XIII abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial. Hoje, a Igreja oferece a todos o seu patrimônio de doutrina social para responder a mais uma revolução industrial, ligada aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”.

A grande questão social

O ponto mais interessante é a antecipação. Os Minerva Dialogues começaram há dez anos, quando governos e universidades ainda tratavam a ética em IA como um assunto à parte.

Mas Roma percebeu cedo que inteligência artificial não era apenas tecnologia. Era a grande questão social do século XXI.

Dario Amodei, CEO da Anthropic (empresa que desenvolveu o modelo de IA Claude), resumiu o problema: “O câncer é curado, a economia cresce 10% ao ano, o orçamento está equilibrado. Mas 20% das pessoas não têm emprego”.

Aliás, em março deste ano, a própria Anthropic promoveu um seminário em sua sede na Califórnia para discutir a “formação moral” de seus produtos — e, entre os convidados, havia padres católicos.

O que as big techs não têm

Mas por que bilionários da tecnologia aceitaram discutir IA com uma instituição religiosa de dois mil anos?

A melhor resposta veio de alguém do próprio Vale do Silício: Jaron Lanier, pioneiro da realidade virtual e cientista-chefe da Microsoft. Depois de participar de uma conferência no Vaticano sobre inteligência artificial, ele voltou aos EUA impressionado.

Segundo Lanier, a visão católica sobre o ser humano é “imensamente, imensamente, imensamente mais sã e razoável” do que a de seus colegas do ramo de tecnologia.

O “imensamente” repetido três vezes não foi por acaso. Nem o fato de a frase ter sido dita por um dos homens que ajudaram a criar a internet como conhecemos.

Jaron Lanier reconheceu que a Igreja possui algo em falta no Vale do Silício: uma antropologia. Ou seja, uma visão articulada, coerente e de longa data sobre a condição humana.

O documento Antiqua et Nova, publicado pela Igreja em 2025, resume isso de forma objetiva. Inteligência não é sabedoria, diz o texto. Uma máquina processa informação, porém não distingue o que faz bem ou mal às pessoas.

As IAs mentem, bajulam os usuários e inventam fatos a torto e a direito. E as big techs parecem estar percebendo, talvez a contragosto, que construir máquinas capazes de imitar o comportamento humano é muito mais simples do que lidar com os dilemas morais criados por elas. É justamente aí que a filosofia e a teologia reaparecem.

“Legionários do Anticristo”

Mas nem todo mundo do Vale do Silício entrou nessa conversa. Em novembro do ano passado, Marc Andreessen — investidor da OpenAI e membro do conselho da Meta — debochou de uma publicação do Papa Leão XIV sobre discernimento moral na inteligência artificial.

O bilionário respondeu à mensagem do pontífice com um meme da atriz Sydney Sweeney revirando os olhos. Horas mais tarde, após receber comentários furiosos do público, ele apagou o próprio post.

Andreessen é o autor do “Manifesto Tecno-Otimista”, no qual defende a aceleração tecnológica a todo custo. E chega a afirmar que qualquer recuo no desenvolvimento da IA “custará vidas”.

No entanto, ninguém no setor é tão agressivo quanto Peter Thiel. Cofundador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook, ele também é o criador da Palantir Technologies, empresa de softwares que mantém contratos gigantescos na área de segurança com o governo dos EUA.

Cristão ortodoxo e considerado o principal “guru” do vice-presidente J.D. Vance (que é católico), Thiel chegou a incluir o Papa Leão XIV numa lista de “legionários do Anticristo” que ousam tentar colocar freios morais nos avanços tecnológicos e, assim, ameaçam o progresso.

Máquinas que decidem

A verdade é que Leão XIV tocou num ponto sensível da visão de mundo e, principalmente, nos negócios de figuras como Peter Thiel. “Nenhuma máquina deve decidir tirar a vida de um ser humano”, disse o pontífice, ao se referir às armas autônomas — sistemas militares capazes de atacar sem o comando de pessoas.

Mas a resposta do Vaticano veio rápido: o padre Paolo Benanti, principal conselheiro da Santa Sé para a ética em tecnologia, definiu as ideias de Thiel como “heresia”.

Segundo Benanti, todo modelo de IA carrega uma “disposição de poder” e uma determinada visão de sociedade, geralmente baseada em interesses comerciais desconhecidos pelo usuário comum. Em resumo, a tecnologia nunca é neutra. Quem programa sistemas também programa valores.

Uma nova Rerum Novarum?

Em junho de 2025, representantes do Google, OpenAI, Anthropic, Meta, IBM e Palantir participaram da Segunda Conferência Anual de Roma sobre Inteligência Artificial, Ética e Governança Corporativa.

Não eram relações-públicas posando para fotos juntos e tentando melhorar a imagem institucional de suas empresas. Eram executivos e diretores jurídicos. E a presença deles mostra que a Igreja se tornou um espaço de reflexão e influência que nenhum governo ou universidade conseguiu construir.

No ano anterior, o Vaticano já havia ampliado o Rome Call for AI Ethics (“Chamado de Roma pela Ética na IA”), documento criado em parceria com a Microsoft e a IBM para estabelecer princípios básicos como transparência, responsabilidade, segurança e imparcialidade. O texto ganhou apoio de líderes de 21 religiões diferentes e passou a nortear até debates regulatórios na Europa.

E há sinais de que o próximo passo já está sendo dado. A agência de notícias católica alemã KNA, citando fontes da Igreja, informou que o papa deve publicar ainda neste mês sua primeira encíclica, provisoriamente chamada de Magnifica Humanitas (“Humanidade Magnífica”).

O Vaticano não confirmou nada oficiamente, mas o tema já é dado como certo: inteligência artificial, trabalho e dignidade humana.

Caso isso realmente aconteça, será o primeiro grande documento papal dedicado à era dos algoritmos — um sinal de que a conversa iniciada discretamente numa igreja de Roma, há dez anos, está longe de acabar.

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