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Como agentes da China perseguiam opositores do regime comunista no Reino Unido

A condenação nesta quinta-feira (7) de Peter Wai e Bill Yuen pelo Tribunal Penal Central de Londres expôs a atuação clandestina de uma rede ligada ao regime comunista da China para perseguir opositores no Reino Unido. Os dois homens foram considerados culpados de ajudar um serviço estrangeiro de inteligência, em um caso descrito pela Promotoria britânica como uma operação de “policiamento paralelo” de Pequim em solo britânico.

De acordo com os promotores, Peter Wai e Bill Yuen usaram suas posições no Reino Unido para vigiar dissidentes do regime comunista da China e apoiadores do movimento pró-democracia. Wai trabalhava como agente da Força de Fronteira britânica, atuava como policial especial da cidade de Londres e administrava uma empresa privada de segurança no país. Yuen era ex-superintendente da polícia de Hong Kong e, em Londres, trabalhava no Escritório Econômico e Comercial de Hong Kong, representação oficial do governo local no exterior.

Segundo a acusação, Yuen extrapolou suas funções no escritório e ajudou a reunir informações sobre locais, deslocamentos e atividades de ativistas e políticos de Hong Kong que haviam se mudado para o Reino Unido após a imposição da Lei de Segurança Nacional em 2020, que ampliou a repressão contra opositores da China em Hong Kong.

Wai, de 40 anos, foi acusado de receber pagamentos de uma conta ligada ao escritório comercial de Hong Kong. Conforme os promotores, ele também usou sistemas policiais fora do horário de serviço para obter informações de ativistas e opositores da China, o que levou à condenação adicional por má conduta em cargo público.

Mensagens telefônicas apresentadas no processo indicaram que a dupla vigiou até mesmo políticos críticos ao regime chinês. Yuen, segundo as mensagens, orientou Wai a prestar atenção especial a parlamentares e funcionários do governo britânico, incluindo o deputado conservador Iain Duncan Smith, crítico da China e copresidente da Aliança Interparlamentar sobre a China.

A investigação contra os dois homens ganhou impulso em maio de 2024, quando a polícia antiterrorismo britânica interrompeu uma operação envolvendo nove pessoas que tentavam invadir a casa de uma mulher de Hong Kong que vivia no norte da Inglaterra.

A partir das prisões ligadas ao episódio, os investigadores passaram a reconstruir comunicações entre os envolvidos e concluíram que Wai havia sido designado por Yuen para realizar tarefas de espionagem em favor da China.

A Promotoria britânica afirmou que as condenações enviam uma mensagem contra repressão transnacional, interferência estrangeira e vigilância não autorizada em território britânico. Bethan David, chefe de contraterrorismo do órgão, disse que a conduta dos homens foi “deliberada, coordenada e realizada com pleno conhecimento de quem seria beneficiado”.

O embaixador chinês no Reino Unido, Zheng Zeguang, foi convocado ao Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido após as condenações. O ministro de Segurança britânico, Dan Jarvis, afirmou que as atividades atribuídas aos dois homens, realizadas “em nome da China”, representaram uma violação da soberania britânica.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, chamou as condenações de “farsa política” e acusou o Reino Unido de manipular procedimentos judiciais para apoiar elementos “anti-China” e desestabilizadores de Hong Kong.

A embaixada chinesa em Londres também classificou a condenação de Yuen como uma decisão política e pediu que o governo britânico pare com o que chamou de “manipulação política anti-China”. O governo de Hong Kong, por sua vez, afirmou não ser parte do caso e rejeitou acusações contra o escritório comercial em Londres.

O processo ocorre em um momento de tensão entre Londres e Pequim. Dezenas de milhares de moradores de Hong Kong se mudaram para o Reino Unido desde 2020, quando entrou em vigor a lei de repressão, incluindo ativistas pró-democracia procurados pelas autoridades chinesas. Hong Kong chegou a oferecer recompensas de quase 100 mil libras (R$ 669 mil) por informações que levassem à captura de opositores do regime chinês.

Peter Wai e Bill Yuen devem conhecer suas sentenças em audiência que deverá ser realizada no Reino Unido no dia 15.

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