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O que faz São Paulo dominar ranking de educação pelo terceiro ano seguido

Pelo terceiro ano consecutivo, o estado de São Paulo é destaque em uma classificação na área da educação — mas o próprio estudo revela que a liderança convive com desafios que ainda precisam ser superados. Trata-se do Ranking de Competitividade dos Estados 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), que mapeou o desempenho dos 26 estados brasileiros em cinco dimensões: economia, segurança pública, gestão pública, sociedade e meio ambiente.

A educação integra a dimensão “sociedade”. São Paulo alcançou a liderança pela consistência de desempenho em indicadores como Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), assim como a taxa de atendimento da educação infantil e a taxa de frequência líquida no ensino médio.

“O desempenho do estado está muito ligado a um conjunto de políticas que estruturamos com foco em aprendizagem, permanência, engajamento e projeto de vida”, disse o secretário paulista da Educação, Renato Feder, à Gazeta do Povo.

Feder respondeu às perguntas enquanto participava do Encontro de Líderes de Aprendizagem, evento que reúne os 5 mil diretores da rede estadual ao longo das próximas semanas, com foco em gestão escolar e estratégias para o segundo semestre.

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Secretário destaca avanço na frequência e no aprendizado

Entre os avanços destacados por Feder está o salto na frequência escolar. No fim de 2025, a rede estadual registrou 91% de presença dos alunos — quase dez pontos percentuais acima dos 82,5% de 2023. “Todos os dias, a rede tem 300 mil alunos a mais na sala de aula. Isso é precioso, é fundamental”, disse.

O secretário também destacou a expansão da educação profissional — de 35 mil alunos em 2023 para 231 mil em 2026, com meta de 350 mil em 2027 —; o programa “Provão Paulista Seriado”, que cria um novo caminho de acesso ao ensino superior; e o “Bolsa-estágio Ensino Médio”, que conecta cerca de 11 mil estudantes a empresas parceiras.

“São políticas que ajudam a explicar os avanços que a gente vem observando em indicadores como o Ideb e o Enem”, disse. Renato Feder também citou o uso intensivo de dados como diferencial. “A gente acompanha a evolução dos alunos de forma muito próxima e usa essas informações para orientar as ações pedagógicas.”

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Ranking não captura todos os indicadores, aponta especialista

Para Claudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de educação do Banco Mundial, a liderança de São Paulo no levantamento tem explicações estruturais que vão além das políticas da atual gestão. “São Paulo é o estado mais rico da nação. Sendo o mais rico, tem a obrigação de ter uma educação muito boa“, opinou.

Ela lembra que 68% do sucesso escolar de uma criança depende da escolaridade dos pais — e o estado paulista tem uma população historicamente mais escolarizada do que a média nacional. Costin reconhece os méritos da gestão atual, mas pondera que o caminho não foi linear.

No início da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a secretaria apostou em colocar todo o processo de ensino em plataformas digitais desde o 1º ano do fundamental — uma decisão que não deu certo e precisou ser corrigida.

“Eles começaram meio mal, mas ajustaram as práticas”, apontou Costin. Entre os acertos que vieram depois estão a estruturação do processo de ensino — com o professor sabendo o que ensinar em cada aula —, o trabalho baseado em dados, a formação continuada de professores e a expansão do tempo integral.

Mas a mudança de cultura gerou resistência. A rede paulista tinha uma tradição de autonomia — cada escola funcionava de forma independente, com o diretor conduzindo o trabalho como bem entendesse. A gestão Feder quebrou esse modelo ao estruturar o ensino de forma unificada, fazendo a rede “remar na mesma direção”.

O resultado em aprendizado melhorou, mas o processo gerou tensão. “Ficou a sensação de que as coisas estão sendo impostas de cima para baixo — do secretário para os diretores, dos diretores para os professores. Há um ressentimento no ar que precisa ser trabalhado para que os avanços sejam sustentáveis”, disse Costin. E completa: “A direção para onde estão remando está correta.”

O ranking do CLP, porém, não captura tudo. Uma avaliação federal recente — o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada — mostra que São Paulo teve 61% das crianças alfabetizadas no 2º ano em 2025, resultado abaixo de estados como Rondônia (75%) e Ceará, o melhor colocado do país. “Esses dados não estão no ranking, e eu acho que deveriam estar”, avaliou Costin.

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Estados do Norte e Nordeste avançam mais rápido no ranking

O ranking de Competitividade dos Estados do Centro de Liderança Pública apresenta dois recortes distintos: posição atual e ritmo de crescimento. Enquanto São Paulo lidera em desempenho, estados do Norte e Nordeste destacam-se pelo avanço mais acelerado nos últimos três anos. Roraima passou do 25º para o 20º lugar, seguido por Pernambuco e Tocantins.

Costin, porém, relativiza esse crescimento. “Quando você está muito embaixo, é fácil crescer rápido. Roraima é um desastre completo em educação por todos os indicadores. Qualquer pequeno esforço gera uma melhora expressiva”, apontou.

O estado que mais a impressiona é Rondônia, que tem 75% das crianças alfabetizadas no 2º ano, acima da média nacional de 66%. Os dados citados por Costin são do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, política do governo federal que busca a alfabetização de 100% das crianças até o final do 2º ano do Ensino Fundamental.

O destaque do Nordeste é o Piauí, que cresceu cinco posições na avaliação — do 21º para o 16º lugar. Para Costin, o avanço tem explicação: “O Piauí fez escola em tempo integral em todas as escolas de ensino médio, trabalhou em regime de colaboração com os municípios e introduziu ensino técnico e profissional. É o mesmo caminho que explica o sucesso do Ceará.”

Segundo números apontados pela especialista, o Piauí alcançou o maior Ideb do Nordeste no ensino médio em 2023 — 4,54 pontos —, consolidando-se em 4º lugar no Brasil. A expansão do tempo integral foi determinante: o estado saiu da 9ª posição nacional em 2021 para o 4º lugar.

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São Paulo enfrenta desafios para sustentar liderança na educação

Na avaliação da especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de educação do Banco Mundial, São Paulo ainda tem trabalho a fazer. O principal gargalo estrutural é a municipalização das escolas de anos iniciais — algo que o estado tenta avançar, mas que enfrenta resistência dos municípios.

“A rede estadual não deveria ter escolas de ensino fundamental 1. Deveria focar no fundamental 2 e no ensino médio”, opinou ela. Outro ponto é o modelo de seleção de diretores: São Paulo usa concurso público, o que garante estabilidade, mas nem sempre seleciona líderes com perfil de gestão.

“Você não escolheria um líder com base só numa prova escrita”, disse Costin. A gestão atual tem tentado contornar isso ao indicar diretores de um banco de talentos nas escolas que se tornam de tempo integral.

Wesley Barcelos, analista de Competitividade do CLP, aponta dois indicadores que o estado paulista precisa melhorar. O primeiro é a taxa de frequência líquida no ensino fundamental — que mede o percentual de crianças de 6 a 14 anos que estão matriculadas e frequentando o nível de ensino adequado para a idade. No ensino médio, São Paulo vai bem; no fundamental, a taxa cai significativamente.

O segundo é o Índice de Oportunidade da Educação, que avalia quanto cada estado contribui para o sucesso educacional de todas as crianças e adolescentes que vivem naquele território — incluindo quem está fora da escola. “Os estudantes não conseguem consolidar conhecimentos em disciplinas que necessitam de conhecimento acumulado, como português e matemática”, disse Barcelos.

Para Feder, o próximo horizonte é ter 90% das crianças do 2º ano do ensino fundamental alfabetizadas até o final de 2026. “É uma meta muito ousada, mas que vai se tornando mais e mais realidade a cada dia”, acredita ele.

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