Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignand em cena de “Amour”, de Michael Haneke. (Foto: Les Films du Losange/Divulgação)
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Célia Maria Cassiano morreu em 15 de abril de 2026, numa cama de Zurique, com duas enfermeiras ao lado e sem sentir dor. Tinha atrofia muscular progressiva – doença que devora os músculos e poupa o intelecto. Antes do procedimento, gravou um vídeo. Disse que estava no limite da dignidade. Disse que os últimos dias na Suíça haviam sido os melhores da vida. Pediu uma lei que permitisse, no Brasil, o mesmo direito.
A frase “limite da dignidade” faz um trabalho filosófico antes de qualquer debate sobre legislação. Pressupõe que a dignidade tem um limiar – um ponto abaixo do qual ela se esgota, e cujo critério é a condição clínica. Quem precisa de três pessoas para ir ao banheiro está, segundo essa lógica, mais próximo do limite do que quem não precisa. Essa premissa, vestida de compaixão, é o que o discurso da morte digna instala antes de qualquer argumento.
Vi minha mãe morrer de câncer. Foi uma dos momentos mais dramáticos da minha vida. Não havia nada de higiênico nisso. Havia dor, morfina, o cheiro específico que a morte tem quando chega, e meu irmão segurando-a quando suspirou pela última vez. Registro isso porque o personalismo que defendo não romantiza a agonia – e quem imagina que sim nunca esteve com o moribundo agonizando às três da manhã. A posição é outra: o sofrimento não anula a pessoa, e a resposta ao sofrimento é o cuidado – cuidado que só o amor sustenta, não a funcionalidade calculada do argumento liberal.
Célia disse que os últimos dias em Zurique, antes da eutanásia, foram os melhores da vida. A frase perturba pelo que revela sobre os dias anteriores
Michael Haneke filmou isso com uma precisão que a bioética raramente alcança. Amour (2012) começa pelo fim: policiais arrombam a porta de um apartamento parisiense e encontram uma mulher deitada na cama, o corpo cercado de pétalas ressecadas. O espectador assiste ao restante sabendo aonde chega. Georges e Anne são professores de música aposentados, octogenários. Um AVC. A cirurgia falha. Georges empurra a cadeira de rodas, levanta Anne do vaso, dá banho, veste, alimenta. Vem o segundo AVC. Anne perde a fala, desenvolve demência. A filha aparece, olha, parte. O médico visita, prescreve, some. Restam apenas os dois no apartamento cada vez mais fechado. Depois, Georges pega um travesseiro e a sufoca. Sim, é um filme. Lindo e brutal.
A leitura liberal do filme é óbvia: um ato de amor supremo, a restituição da dignidade que a doença havia roubado. Não acho que Amour possa ser reduzido a isso. A câmera registra o vácuo no qual o ato ocorre: sem padre, sem médico que permaneça, sem comunidade que absorva o peso. A morte chega como decisão solitária de um homem que não suporta mais ver o que vê e viver o que vive. Haneke não absolve Georges – e também não o condena. Anne ainda é alguém quando ele a mata. O filme deixa isso intacto: o resíduo de perturbação que a narrativa da boa morte não consegue absorver. A modernidade dissolveu os corpos intermediários – família extensa, Igreja, comunidade – e deixou o indivíduo nu diante da morte. Ainda pode chamar de “autonomia”, “consentimento”. A eutanásia preenche o vácuo.
Há duas coisas distintas que o filme mostra, e que o eufemismo trabalha para confundir. A primeira: Georges carrega Anne, a limpa, a cobre, permanece quando todos partiram. A segunda: pega um travesseiro e a mata. A primeira é um ato de amor. A segunda é um ato de gestão. O amor permanece diante do insuportável. A gestão calcula até onde vale a pena permanecer. O amor cuida de Anne porque Anne ainda é alguém. A gestão mata Anne porque Anne já não é o que era. O discurso da morte digna chama o segundo ato de continuação do primeiro – como se tirar o sofrimento e tirar a vida fossem a mesma categoria moral. Não são. Um cuida do corpo que sofre; o outro decide que esse corpo não merece mais cuidado. O espectador que saiu de Amour achando que eram a mesma coisa provavelmente nunca trocou a fralda de ninguém.
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A objeção mais forte é sobre Anne. E se ela tivesse pedido? O consentimento desloca o problema: o que era decisão unilateral torna-se respeito à autonomia. O personalismo recusa que o consentimento encerre a questão moral. Célia pediu. Planejou sete meses. Enfrentou burocracia, resistência, o silêncio daqueles a quem pediu ajuda. E ainda assim: pediu dentro de um sistema que não lhe ofereceu médico que permanecesse, comunidade que absorvesse o peso, cuidado paliativo que reduzisse o sofrimento ao suportável. O consentimento válido pressupõe alternativas reais. Célia não teve alternativas – teve Zurique. O personalismo parte da dor de Célia e da legitimidade da sua escolha. Recusa a conclusão que o discurso liberal tira daí: que essa escolha é, portanto, um direito a ser universalizado e garantido pelo Estado. O sistema que a deixou sem alternativa transforma sua morte em argumento – e chama isso de progresso.
A medicina paliativa demonstra empiricamente que o sofrimento físico na fase terminal pode, em larga medida, ser controlado sem eliminar o paciente. Que a demanda por eutanásia cai quando o controle da dor é adequado e o isolamento, reduzido. O que esses pacientes pedem, na minha leitura, é para não morrer sozinhos. O que o sistema lhes oferece, embrulhado em discurso de autonomia, é exatamente isso.
Célia disse que os últimos dias em Zurique foram os melhores da vida. A frase perturba pelo que revela sobre os dias anteriores – e sobre quem, ou o quê, era responsável por eles.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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