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Derrotas de Lula no Congresso indicam aposta do Centrão em enfraquecimento do governo

A sequência de derrotas sofridas pelo governo no Congresso na última semana acendeu um alerta vermelho no Palácio do Planalto. A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada de vetos presidenciais estratégicos não foram apenas reveses pontuais, mas a confirmação de uma mudança estrutural na postura do Centrão em relação à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Os episódios envolveram pautas que demandaram alto investimento político do Executivo e são vistos por analistas como um sinal de que a base aliada se tornou mais volátil e menos comprometida com a agenda governista.

Para o cientista político Emerson Masullo, professor da Universidade de Brasília (UnB), o movimento vai além de falhas na articulação. “As recentes derrotas não devem ser lidas apenas como ineficiência, mas como uma ‘precificação’ de autonomia. O Centrão não busca necessariamente a queda do governo, mas a manutenção de uma ‘crise controlada’”, afirma.

Na leitura do especialista, o bloco atua com foco no médio prazo, já de olho no cenário eleitoral de 2026. Essa estratégia funciona como um “hedge político” — termo do mercado financeiro que designa uma estratégia de proteção.

“Ao impor derrotas em pautas ideológicas ou fiscais sensíveis, o bloco sinaliza ao eleitorado de centro-direita que não é um ‘puxadinho’ do Executivo. Assim, o grupo valoriza seu passe para as coligações futuras, independentemente de quem esteja no poder”, explica Masullo.

Emendas viram “pedágio” e não garantem mais apoio

Os fatos citados também evidenciaram os limites dos instrumentos tradicionais de governabilidade. Em uma tentativa de garantir a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), o governo federal empenhou R$ 12 bilhões em emendas parlamentares. O montante recorde, contudo, não se traduziu em votos automáticos ou facilidade na sabatina.

“A liberação de recursos era o fim da negociação; hoje, é apenas o ‘pedágio’ para o início da conversa”, diz Masullo.

Na avaliação do professor, com o fortalecimento das emendas impositivas e maior autonomia orçamentária do Congresso, o Executivo perdeu capacidade de controle. “Emendas e cargos garantem a sobrevivência, mas não garantem mais a agenda”, completa.

Votação de Messias vira “termômetro” da fragilidade do governo

O analista político Alexandre Bandeira avalia que o problema reside na forma como o governo se organiza desde o início do mandato. Para ele, a articulação é falha por não passar pelas lideranças do próprio governo, mas sim pelas mãos das presidências da Câmara e do Senado.

“A sabatina de Jorge Messias foi um grande laboratório, um termômetro da força do governo. Mesmo com a liberação massiva de recursos, houve dificuldade extrema em garantir votos”, pontua Bandeira.

O episódio expôs que o Planalto não controla integralmente sua base nem em votações de altíssimo interesse pessoal do presidente.

Entre parlamentares, a leitura sobre esse movimento é menos teórica e mais pragmática: a sequência de derrotas do governo é vista como um recado claro de que o Centrão elevou o preço do apoio e passou a testar os limites do governo de Lula.

Nos bastidores, deputados e senadores admitem que não há rompimento em curso, mas falam em “recalibragem” da relação, com votações usadas para marcar posição diante do eleitorado e ampliar poder de barganha. A avaliação predominante é de que o bloco atua com cautela: mantém espaços no governo, mas evita associação automática ao Planalto, especialmente em pautas de maior desgaste, já considerando o cenário eleitoral de 2026.

Janela curta pressiona governo e aumenta risco de novas derrotas

Além da mudança de comportamento, o calendário joga contra. Com a aproximação do período eleitoral, a tendência é de esvaziamento das atividades no Congresso, o que reduz a margem de manobra do governo e aumenta o risco de novos reveses em matérias de impacto fiscal.

Para Alexandre Bandeira, o cenário eleitoral também influencia a saída do Centrão da base do governo, porque, segundo ele, decisões no presente já consideram a possibilidade de mudança no comando do Executivo.

“Os parlamentares olham para as pesquisas e tomam decisões. Há um pragmatismo do Centrão no sentido de olhar 2027, nem tanto mais 2026”, afirma.

Masullo também pontua que o bloco do Centrão ensaia um distanciamento, mas ainda mantém uma certa influência no governo.

“O que vemos é o fim da ‘lua de mel utilitária’. O Centrão se afasta no discurso, mas mantém os fios conectados nos espaços de poder e nos ministérios que gerem entregas diretas na ponta [municípios]”, diz. Ou seja, o Centrão tentará preservar cargos e influência, mas vai se descolar do governo em votações que forem convenientes.

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