É possível defender que a reputação sinistra de Nicolau Maquiavel é injusta. Isso não significa ignorar as profundas falhas na visão do florentino sobre o homem, o mundo e Deus; trata-se apenas de notar que sua obra não é tão desprovida de sentimento moral quanto sugere a imagem popular de um supervilão conspirador. Até mesmo seu livro mais famoso, O Príncipe, nos fornece evidências de que a política maquiaveliana pode ser uma melhoria em relação ao criptossocialismo que passou a dominar grande parte do Ocidente. O príncipe “deve incentivar seus cidadãos a seguir suas atividades tranquilamente, no comércio, na agricultura e em todas as demais ocupações humanas, de modo que ninguém tenha medo de incrementar suas posses por receio de que sejam tomadas, nem de abrir um negócio por medo dos impostos”. Note-se que não há aqui nada sobre reconstruir relações sociais, impor ideologia igualitária ou confiscar renda como parte de um plano de redistribuição de riqueza.
Mais impressionante ainda: após mostrar como Agátocles da Sicília se tornou governante de Siracusa e teve uma longa e bem-sucedida carreira baseada na brutalidade e na traição, Maquiavel adverte que “não se pode chamar de ‘virtude’ matar os próprios cidadãos, trair os amigos, não ter fé, nem misericórdia, nem religião; isso pode permitir conquistar um império, mas não a glória”. Quaisquer que sejam as falhas de O Príncipe, é a busca da glória – e não apenas do império – que motiva o livro. Maquiavel não elogia uma ambição puramente egoísta, mas sim a libertação da Itália de um estado de dominação estrangeira, “sem chefe, sem ordem, derrotada, saqueada, dilacerada, pilhada e submetida a toda sorte de ruína”. A solução, argumenta ele, é um líder totalmente empenhado em resgatar o país em dificuldade: “Pode-se ver como ela [a Itália] reza a Deus para enviar alguém que a resgate dessas crueldades e insultos bárbaros”. Curiosamente, Maquiavel era especialmente fascinado pela figura de Moisés, um homem celebrado tanto por sua retidão quanto por sua incansável defesa do bem de seu povo.
Até mesmo “O Príncipe” nos fornece evidências de que a política maquiaveliana pode ser uma melhoria em relação ao criptossocialismo que passou a dominar grande parte do Ocidente
E, por mais surpreendente que possa parecer para aqueles que o conhecem apenas por sua imagem popular, Maquiavel de fato preferia a democracia à monarquia: um povo corrompido pode ser reconduzido pelo convencimento e por uma liderança habilidosa, insiste ele, ao passo que “um mau príncipe não pode ser persuadido por ninguém, e o único remédio para seu caso é o aço frio”. Usando um raciocínio facilmente compreensível para os defensores modernos do localismo e dos direitos dos estados, ele aconselha governantes a ocuparem pessoalmente as províncias problemáticas, em vez de tentar administrá-las à distância, a partir de uma posição confortável e distante:
“Pois, se você estiver lá, os distúrbios podem ser percebidos quando surgem, e você pode remediá-los rapidamente; se não estiver, eles só serão compreendidos quando já forem grandes e não houver mais remédio. Além disso, a província não será saqueada por seus funcionários; os súditos ficarão satisfeitos por terem acesso direto ao príncipe, de modo que terão mais motivos para amá-lo se quiserem ser bons e, se quiserem agir de outra forma, mais motivos para temê-lo.”
Maquiavel merece crédito por tais afirmações, na medida em que chamam a atenção para falhas inerentes no sistema norte-americano. Como alguém pode levar a sério a ideia de que elites quase olímpicas isoladas em Washington representam de fato uma “república” composta por mais de 300 milhões de “cidadãos” vivendo em uma enorme diversidade de comunidades espalhadas por milhões de quilômetros quadrados? Como observou Donald Livingston, da Universidade Emory, a escala desumana dos Estados Unidos é totalmente estranha a toda teoria republicana, seja antiga ou moderna, platônica, jeffersoniana ou maquiaveliana. É simplesmente absurdo fingir que aqueles que vivem longe dos centros de poder possam ter “acesso direto” aos burocratas e líderes que transformaram o processo democrático em um jogo manipulado. Se os conservadores quiserem aproveitar bem o chamado “efeito Trump”, devem resistir à tentação de centralizar tudo no governo federal e, em vez disso, trabalhar para restaurar a autoridade às instituições estaduais e locais, de modo que “os distúrbios possam ser percebidos quando surgem” por aqueles que detêm o poder.
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Nada disso pretende sugerir que Maquiavel deva ser celebrado sem reservas. Talvez o maior problema de O Príncipe não esteja em sua ênfase no aspecto adversarial da vida política – uma realidade inegável, especialmente hoje –, mas na ideia de que ele representaria uma nova “ciência” política, uma disciplina precisa, organizada e previsível como a engenharia mecânica ou a química. Para uma visão mais fiel da realidade, deve-se consultar uma autoridade igualmente realista, porém filosoficamente mais profunda. A política é uma arte humana e complexa, não uma ciência, explica Aristóteles: “A pessoa instruída busca exatidão em cada área na medida em que a natureza do assunto o permite, pois é igualmente errado exigir demonstrações de um orador quanto aceitar [meramente] argumentos persuasivos de um matemático”. Quando se trata de estudos complexos sobre o homem, devemos nos contentar em “indicar a verdade de modo aproximado e em linhas gerais”.
Assim, lido com cautela, Maquiavel pode ajudar o homem moderno a pensar com mais clareza sobre poder e prudência, e a lembrar que o mundo é um lugar perigoso onde nem tudo é o que parece. Ao mesmo tempo, projetos políticos devem sempre ser limitados pelo respeito às leis de Deus e guiados pelo bom senso. Caso contrário, podemos acabar nos parecendo menos como dom Corleone, de O Poderoso Chefão, e mais como o Coiote do desenho animado.
Jerry Salyer é bacharel em Ciências Aeronáuticas, mestre em Artes, veterano da Marinha dos Estados Unidos com passagem pelo Golfo Pérsico, ex-assistente de segurança na base naval norte-americana em Nápoles (Itália), e trabalha atualmente como educador e escritor free-lancer.
©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: Is Machavelli a Monster?


