Em expansão e mais organizado, o eleitorado evangélico tem se aproximado de candidaturas de direita, por afinidade e alinhamento com pautas de costumes. Esse movimento tende a se consolidar nas eleições de 2026, impulsionado pelo crescimento do segmento no país — especialmente em estados de perfil mais conservador, como Santa Catarina.
Na avaliação do presidente do Conselho de Pastores de Santa Catarina (Copasc), Leonardo Aluísio, essa convergência é uma resposta aos discursos políticos contra a família e contra os valores cristãos. “Nos posicionamos frente a tudo o que discordamos, e fica muito visível nossa postura política, enquadrando-se mais ao espectro da direita”, afirma o pastor.
Para ele, o crescimento da população evangélica também aparece na ocupação de espaços políticos, com a eleição de representantes que professam a mesma fé ou que defendem os mesmos valores. “Nove dos 16 deputados catarinenses fazem parte da bancada evangélica no Congresso Nacional. Além disso, temos vários prefeitos eleitos da base evangélica, alinhados à direita conservadora”, pontua Aluísio.
Em 2023, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) instalou, pela primeira vez, a Frente Parlamentar Evangélica, com seis deputados estaduais. “Durante vários mandatos, apenas três parlamentares se declaravam evangélicos. Acreditamos que houve um avanço nesta legislatura. Além disso, há outros que pertencem ao segmento, embora não tenham sido eleitos com essa bandeira”, explica o pastor.
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Evangélicos crescem 32% em Santa Catarina
Dados do último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o segmento evangélico cresceu 32% desde 2010, totalizando 1,6 milhão de pessoas em Santa Catarina. Embora o estado abrigue 4,3 milhões de católicos (64,3% da população), esse grupo perdeu espaço em comparação aos 73,5% que registrava em 2010.
Ou seja, as igrejas evangélicas ganharam cerca de 500 mil membros em pouco mais de uma década, conforme o IBGE. “Muitas comunidades promovem ações de apoio e acolhimento, com iniciativas voltadas à recuperação pessoal e à reinserção social. Essas atividades ampliam a presença das igrejas no cotidiano das comunidades”, analisa o pastor Aluísio.
Uma pesquisa eleitoral do instituto AtlasIntel, realizada em março, aponta que 56% dos 1.280 catarinenses se declaram católicos. Outros 25,3% afirmam pertencer a alguma denominação evangélica. Já 8,2% indicam outras religiões. Os sem religião somam 5,5%. Agnósticos ou ateus representam 5%.
Apesar da maioria católica, o levantamento indica avanço do eleitorado evangélico no apoio a candidatos de direita no estado. Entre os católicos, 46,3% preferem um candidato alinhado a esse espectro. Já entre os evangélicos, o índice chega a 66,6%.
A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o nº SC-05257/2026.
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Crescimento evangélico foi decisivo nas eleições de 2022 e 2024
Em 2022, Jair Bolsonaro (PL) recebeu 69,27% dos votos no estado. No mesmo cenário, Jorginho Mello (PL), alinhado a Bolsonaro, venceu o governo estadual com 70,69% dos votos no segundo turno, a maior porcentagem registrada entre os governadores eleitos no país naquele ano.
De acordo com o PL, em 2024, o partido conquistou 90 prefeituras catarinenses, enquanto legendas de centro também garantiram grandes fatias do estado, como o MDB com 70 prefeituras, o PP com 53 e o PSD com 41 municípios.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, os resultados das últimas eleições em Santa Catarina estão associados ao peso do eleitorado evangélico. “O eleitor mostrou como pensa. O crescimento da parcela evangélica da população indica que valores, como família e liberdade individual, são prioridades e orientam a agenda conservadora”, analisa.
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Cientista político destaca diferença histórica entre católicos e evangélicos
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) indica que 52% dos evangélicos no Brasil se declaram de direita, enquanto 18% se identificam com a esquerda. Na população geral, 34% se posicionam à direita e 28% à esquerda.
O cientista político Mário Lepre explica que a dinâmica política entre evangélicos e católicos seguiu caminhos distintos na história política do país. “Entre os católicos, a esquerda avançou por meio da Teologia da Libertação, corrente alinhada a pautas sociais e historicamente associada à esquerda”, lembra.
Já no meio evangélico, Lepre indica uma coesão de valores que impulsiona o discurso em alinhamento ao campo conservador. “Esses princípios tendem a aproximar esse grupo de posições políticas de direita. Não se trata de unanimidade, mas de uma tendência predominante. Santa Catarina é um recorte que exemplifica essa coesão”, afirma o cientista político.
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