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Aldo Rebelo fala em “passado comunista” e se coloca como “nacionalista” na corrida presidencial

Ex-integrante do PCdoB, Aldo Rebelo declara estar afastado das pautas tradicionais da esquerda. Pré-candidato à Presidência, ele se apresenta como um candidato fora dos rótulos ideológicos clássicos. Ele próprio afirma ter rompido com o que chama de “agenda de costumes” da esquerda e passou a defender uma “linha nacionalista”, com críticas frequentes às instituições e ao atual funcionamento do Estado brasileiro. Nos últimos anos, também se aproximou de figuras e pautas associadas ao campo conservador, incluindo interlocuções com Jair Bolsonaro e aliados, embora rejeite se identificar como parte da direita. Nesta entrevista à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, Rebelo expõe sua visão sobre o Supremo Tribunal Federal, a falta de equilíbrio entre os poderes, política externa e os rumos do país.

Entrelinhas: Estamos realizando uma série de entrevistas com pré-candidatos à Presidência da República e, em 2026, há um interesse crescente do eleitorado em entender o papel do Supremo Tribunal Federal e os limites entre os poderes. Qual é a sua visão sobre isso?

Aldo Rebelo: O Brasil vive um processo de desequilíbrio, de desajuste, eu diria até de anomalia na relação entre os poderes. O Supremo Tribunal Federal acumulou muito mais atribuições do que aquelas que a Constituição lhe concede. Ele é o Poder Judiciário, mas exerce funções do Legislativo e do Executivo. Decide sobre comissões parlamentares de inquérito, sobre eleições, e até interfere em decisões que caberiam aos estados. Isso gera uma situação de insegurança institucional, que é ainda mais grave do que a insegurança jurídica.

Entrelinhas: O que essa insegurança institucional provoca na prática?

Aldo Rebelo: Provoca conflitos entre os poderes. Tivemos recentemente decisões antagônicas entre o Congresso e o Supremo sobre o Marco Temporal. Isso cria um país ingovernável. Um presidente eleito com uma orientação diferente da maioria do Supremo pode ficar bloqueado. Em algum momento, isso pode levar a um impasse político de consequências graves.

Entrelinhas: E o Congresso não tem reagido à altura?

Aldo Rebelo: Não tenho dúvida de que falta mais altivez. Mas há muitos parlamentares envolvidos em processos ou preocupados com a execução do orçamento, especialmente as chamadas emendas secretas. O Congresso passou a votar, fiscalizar e executar o orçamento, o que rompe a lógica da separação de funções. Isso cria dependências e receios que acabam enfraquecendo a reação institucional.

Entrelinhas: O senhor defende que ministros do Supremo também possam sofrer impeachment?

Aldo Rebelo: Qualquer agente público que tenha previsão constitucional para perda de mandato pode ser responsabilizado, desde que haja crime de responsabilidade e processo legal. Já tivemos presidentes, deputados e senadores cassados. Não vejo por que abrir exceção para ministros do Supremo.

Entrelinhas: O senhor teve uma longa trajetória no PCdoB e participou de governos como os de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Hoje, o Aldo Rebelo que se apresenta como pré-candidato está mais próximo de qual campo — esquerda, direita ou um outro posicionamento?

Aldo Rebelo: Eu me afastei do partido por uma agenda, porque a minha agenda sempre foi uma agenda nacionalista. Enquanto membro do PCdoB, eu pude ser relator do Código Florestal, eu fiquei no PCdoB. Pude manter minha posição contra o aborto, eu fiquei no PCdoB. Quando o PCdoB abraçou a agenda dos costumes, a agenda do comportamento, e a esquerda também acompanhou, eu me afastei. Mas eu também não tenho nenhuma identidade com a agenda de direita. Nenhuma identidade. Eu tenho identidade com a agenda nacionalista, com a agenda democrática, com a agenda dos direitos sociais, dos direitos do povo, da democracia. Eu formei minha juventude lutando pela anistia, pela constituinte, contra a censura, em defesa da liberdade de imprensa. E hoje muita gente, dos dois lados, relativiza isso. Eu não relativizo. A liberdade é um bem que deve ser garantido a todos, independentemente da ideologia.

Entrelinhas: E quanto à política externa?

Aldo Rebelo: O Brasil deve se relacionar com Estados, não com ideologias. Não escolhemos lados em conflitos internacionais. O lado do Brasil é o Brasil. Precisamos ter boas relações com todos, com base na reciprocidade e no interesse nacional.

Entrelinhas: O senhor critica a condução atual da política externa?

Aldo Rebelo: Sim. Vejo uma diplomacia ornamental, focada em eventos e não nos interesses reais do país. O Brasil deveria priorizar temas como segurança alimentar, energia e minerais estratégicos, que são ativos importantes para nossa projeção internacional.

Entrelinhas: O senhor tem falado que o Brasil está “interditado”. O que isso significa?

Aldo Rebelo: O Brasil é um país rico, mas bloqueado. Há excesso de entraves institucionais e burocráticos que impedem investimentos e obras. Supremo, Ministério Público e órgãos ambientais acabam parando projetos importantes. Precisamos destravar o país para retomar o crescimento e oferecer перспективas à juventude.

Entrelinhas: Sobre o 8 de janeiro, o senhor considera que houve tentativa de golpe? Estando no poder, o senhor concederia anistia?

Aldo Rebelo: Não. Aquilo foi um ato de vandalismo, de arruaça. Golpe exige apoio institucional, o que não existiu. Defendo a responsabilização individual, mas não a classificação como tentativa de golpe. E acredito que, se necessário, a anistia pode ser um instrumento de pacificação nacional, como já foi no passado.

Entrelinhas: Se não chegar ao segundo turno, o senhor apoiará Lula ou Flávio Bolsonaro?

Aldo Rebelo: Eu estou começando uma pré-campanha e trabalho para chegar ao segundo turno. Não faria sentido iniciar admitindo o contrário. Meu objetivo é disputar e vencer.

Entrelinhas: Qual é a principal proposta da sua candidatura?

Aldo Rebelo: Desinterditar o Brasil, retomar o crescimento econômico, valorizar a democracia e reduzir desigualdades. Não quero dividir o país entre esquerda e direita, nem por questões ideológicas. Quero um projeto nacional que una o Brasil em torno do desenvolvimento.

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