Pré-sal virou promessa vazia: decisões ideológicas enfraqueceram o refino e aumentaram a dependência externa, expondo o Brasil a crises e riscos globais. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
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Alguém se lembra do Pré-Sal? Pois é, quem tiver memória desse manancial de petróleo sobre o qual o Brasil está assentado deve se lembrar de que ele foi apresentado como a promessa de um futuro glorioso para os brasileiros. A crise no Irã nos faz lembrar a vulnerabilidade do Brasil. Não só isso. Na verdade, deve nos ensinar como a ideologia bolivariana nos deixou nessa situação.
Desde o primeiro segundo do governo Lula 3, a bússola do Brasil para os fornecedores de diesel mudou abruptamente dos Estados Unidos para a Rússia e, mais recentemente, para o Golfo Pérsico. O movimento foi apresentado como diversificação e busca por preços baixos. Em parte, foi. Mas também foi uma migração do risco.
O país saiu de uma dependência maior de um fornecedor tradicional e passou a se apoiar mais em origens expostas a sanções, guerra e vulnerabilidade marítima, justamente no momento em que a guerra da Ucrânia reorganizava o mercado mundial de derivados e empurrava diesel russo descontado para compradores alternativos, entre eles o Brasil.
A crise do Irã nos mostra agora o tamanho do problema em um mundo em que o comércio exterior não pode mais focar apenas nos preços, mas na estabilidade e na segurança.
O Estreito de Ormuz não é uma rota qualquer. Por ele transita quase metade do petróleo comercializado no planeta, e não há atalhos para escoamento quando a coisa fica quente por lá. Quando esse corredor entra em colapso, o impacto não fica restrito ao Golfo. Ele se espalha por frete, seguro, disponibilidade e preço. Para um país como o Brasil, que ainda importa cerca de 25% do diesel que consome, isso significa exposição direta a choques externos.
O problema é que o Brasil poderia ter enfrentado essa nova realidade internacional em posição mais sólida se a velha promessa de ampliar a capacidade nacional de refino tivesse sido cumprida com seriedade. Nos governos Lula e Dilma, anunciou-se uma expansão ambiciosa das refinarias brasileiras. O discurso era o de reduzir a dependência externa e transformar a Petrobras em instrumento de soberania energética.
O resultado foi bem diferente. Parte dessa agenda ficou pelo caminho, outra parte foi paralisada, e os principais projetos acabaram associados a desperdício, atrasos, sobrecustos e corrupção. O Comperj, por exemplo, teve as obras virtualmente paralisadas no fim de 2014, quando o escândalo de corrupção já havia implodido contratos e empreiteiras ligadas ao projeto.
Abreu e Lima é o caso mais emblemático. A refinaria nasceu como vitrine da aproximação política entre Lula e Hugo Chávez. A estatal venezuelana PDVSA ficaria com 40% do projeto (mas jamais desembolsou um bolívar sequer) e seria responsável por fornecer 100.000 barris diários para a refinaria.
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Em 2008, Lula e Chávez apresentavam a iniciativa como parte de uma integração regional que reduziria a dependência dos Estados Unidos e da Europa. Ou seja, não era apenas um projeto industrial. Era também um projeto político
E isso ajuda a entender por que a refinaria foi pensada para processar uma carga relevante de óleo venezuelano em associação com a PDVSA, em vez de ser concebida apenas a partir de critérios estritamente econômicos e de segurança energética doméstica.
O custo dessa escolha foi monumental. Ao final do dia, o projeto custou mais de cinco vezes o valor originalmente orçado e ganhou o título de refinaria mais cara do mundo. O mais chocante é que a obra nunca foi plenamente concluída. Abreu e Lima acabou se transformando no símbolo de uma combinação tipicamente bolivariana: voluntarismo estatal, integração energética com o chavismo e corrupção sistêmica.
Em vez de entregar segurança de abastecimento no prazo e no custo prometidos, ajudou a perpetuar a dependência brasileira de diesel importado — a mesma dependência que agora torna o país vulnerável à crise em Ormuz.
A lição é clara. Escolhas ideológicas custam caro ao Brasil quando substituem planejamento por alinhamento político e segurança por retórica. Primeiro, o país apostou em projetos de refino concebidos sob forte carga simbólica e terminou com obras atrasadas, escândalos e capacidade insuficiente. Depois, passou a importar diesel de fornecedores mais baratos, porém assentados em polos geopolíticos muito mais instáveis.
O resultado está diante de nós: um Brasil ainda dependente de importações, pressionado por uma guerra no Golfo e exposto a uma conta que pode crescer em combustível, inflação e renúncia fiscal como último recurso. Preço importa. Mas preço sem estabilidade, sem rota segura e calculado sob a miopia ideológica do petismo não tem como não sair caro demais.
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