A leitura de que há um eleitorado cansado da polarização levou o senador Flávio Bolsonaro (PL) a ajustar nos últimos dias o tom de seu discurso de pré-candidato à Presidência e ampliar acenos ao centro político, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém uma narrativa pela reeleição mais voltada à mobilização de sua base histórica, enquadrando a disputa como embate ideológico e social.
Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o contraste entre a moderação estratégica de Flávio e a mobilização identitária de Lula já está marcando a pré-campanha presidencial de 2026, com o surgimento de ajustes calibrados conforme o humor do eleitorado.
Apesar de Lula afirmar que ainda construirá o discurso da “guerra eleitoral” — declaração feita no aniversário do PT, em fevereiro, na Bahia —, o duelo com Flávio já está delineado em símbolos: continuidade versus ruptura, Estado indutor versus ajuste fiscal e apelo social versus agenda liberal.
Enquanto o senador busca se apresentar como uma opção de retomada da missão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com pragmatismo e mais abertura a outros públicos, o presidente Lula aposta na valorização de benesses sociais e em um discurso de suposta defesa da soberania nacional.
Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, avalia que as linhas mestras dos discursos dos dois principais candidatos da corrida presidencial já estão consolidadas e que os ajustes tendem a ser apenas de forma e intensidade. Segundo ele, a antecipação das narrativas “ajuda a orientar o eleitor em ambiente já polarizado”, esvaziando opções ao centro.
Na última semana, Flávio fez ajustes no discurso após estrategistas da pré-campanha indicarem resistência entre eleitores mais ao centro, movimento que incluiu estratégia mais conciliadora nas redes sociais e acenos a públicos fora da base tradicional da direita.
O pré-candidato passou a defender o combate ao racismo, manifestando apoio ao jogador Vinícius Júnior após denúncias de ataques, além de enaltecer o carnaval como manifestação cultural e econômica relevante e reagir positivamente a postagens voltadas à comunidade LGBT, numa tentativa de ampliar o diálogo com o eleitor de centro e reduzir a percepção de alinhamento automático ao estilo confrontador do pai e de militares.
Nesta segunda-feira (23), publicou até uma mensagem no X usando a chamada linguagem neutra, que altera regras ortográficas em benefíco de ações afirmativas de gênero. “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição! Gostaria de contar com todas, todos, todes , todys e todXs! Gostaria de contar com todas, todos, todes , todys e todXs!”, escreveu.
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Flávio aposta em fim do ciclo petista, ajuste fiscal e tom moderado
Em publicações em suas redes sociais e em entrevistas recentes, Flávio Bolsonaro sustenta que Lula “já deu o que tinha de dar”, recorrendo a metáforas como a de um carro antigo para simbolizar um modelo político ultrapassado — comparação feita em diversos momentos ao comentar o cenário econômico e político, sempre usando o termo “material vencido”. A ideia central é a de encerramento de um ciclo histórico com a “aposentadoria” de Lula.
Ao migrar do tom conciliador de 2022 para uma retórica mais combativa, Lula ancora seu discurso na defesa institucional e em entregas sociais, buscando reduzir resistências em segmentos de renda média. Flávio, por sua vez, mantém a austeridade como eixo econômico e tenta se posicionar como herdeiro político mais pragmático, capaz de dialogar com o mercado e o Congresso.
Para Márcio Coimbra, a tendência é de que o embate reflita divisões ideológicas profundas, com pouco espaço para mudanças estruturais de discurso.
A argumentação de Flávio enfatiza o desequilíbrio fiscal, juros elevados e a percepção de insegurança pública causados por Lula, pontos frequentemente citados por economistas e presentes em discursos do senador ao defender que “o Brasil precisa voltar a crescer com responsabilidade fiscal”. Indicadores como a trajetória da dívida pública e o patamar ainda elevado da taxa básica de juros costumam ser citados por aliados para sustentar o argumento.
“Tesouraço” vira símbolo de plataforma pró-mercado de Flávio
O senador tem reiterado a proposta de um “tesouraço” — termo usado por ele para sintetizar cortes de gastos, redução de impostos e privatizações, em tom mais ameno que a motosserra do presidente argentino Javier Milei — afirmando que o objetivo é “cortar privilégios e liberar o setor produtivo”. Em entrevistas recentes, tem defendido a necessidade de “enxugar a máquina para fazer o país voltar a investir”. O recado está dado para o mercado.
Ao mesmo tempo, Flávio busca se diferenciar do estilo mais combativo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele afirma querer “dialogar com todos os setores” e reduzir a tensão política. O movimento inclui acenos a segmentos como o eleitorado jovem, minorias e setores culturais. Trata-se de uma tentativa de reduzir a rejeição e ampliar a competitividade em relação ao eleitor de centro, estratégia apontada por analistas como essencial para a viabilidade eleitoral.
Leandro Gabiati, diretor da consultoria Dominium, vê Lula reforçando a polarização como estratégia para consolidar sua base e, ao mesmo tempo, tentando dialogar com o centro por meio de pautas econômicas. Já Flávio ainda teria como principal desafio reduzir a rejeição e ampliar a percepção de moderação.
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Lula reprisa discurso de defesa da democracia, soberania e agenda social
Lula enquadra a eleição como uma “guerra de narrativas”, com prioridade em impedir o retorno da direita ao poder, discurso reforçado em eventos partidários e falas públicas recentes. O presidente costuma apresentar a disputa como escolha entre projetos de país com implicações sociais profundas.
A retórica reforça o papel do Estado e a defesa da soberania diante do que chama de interesses do mercado financeiro e pressões externas, retomando o tom nacional-desenvolvimentista característico de seus mandatos anteriores.
Para Arthur Wittenberg, professor de Relações Institucionais do Ibmec-DF, Lula deverá complementar o discurso social com respostas mais claras sobre segurança pública e inflação percebida – sensação que as pessoas têm de que os preços estão subindo, independentemente de o índice oficial de inflação estar alto ou não. Esses são temas que têm peso entre eleitores urbanos.
Ele avalia que Flávio tende a concentrar a narrativa no combate à corrupção e ao crime organizado e ainda na responsabilidade fiscal, contrastando com a ênfase social do presidente. A tendência, segundo o professor, é de programas com abordagens distintas — um mais focado em proteção social e outro em reformas estruturais.
Medidas como ampliação de programas sociais, políticas de emprego e propostas de alívio tributário para rendas mais baixas são apresentadas como prova de compromisso com trabalhadores e classe média. Lula frequentemente cita a redução da pobreza e a retomada de políticas sociais como marcas de governo.
Programas de transferência de renda, habitação e combate à fome permanecem como pilares discursivos, com forte apelo ao eleitorado popular e à base histórica do lulismo, reforçando a estratégia de mobilização do campo progressista.
Discursos rivais serão traçados em meio a um contexto político desafiador
As estratégias de campanha se desenvolvem em ambiente de polarização consolidada e eleitorado sensível a sinais claros de posicionamento. O avanço do eleitorado evangélico, a percepção de custo de vida elevado e o cansaço com lideranças tradicionais influenciam o cenário.
Ao mesmo tempo, a tendência pragmática do Centrão e o ambiente internacional de fortalecimento de correntes conservadoras reforçam a leitura de disputa entre projetos distintos de Estado e economia.
Nesse contexto, Lula e Flávio combinam convicção ideológica com cálculo estratégico, ajustando discurso e tom conforme a reação do eleitorado, num embate que já se desenha como “plebiscito” entre modelos de país.


