Com origens em comum dentro dos sistemas prisionais carioca e paulista, respectivamente, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) apostam hoje em estratégias diferentes para garantir o fortalecimento, enriquecimento e perpetuação de seus grupos criminosos e lideranças — além de evitar conflitos entre si.
Nos últimos anos, enquanto o Comando Vermelho tem focado sua atuação criminosa na expansão e controle territorial Brasil afora, o PCC “sumiu” das principais praças do país, com exceção de São Paulo, evita embates com outras facções e mira na expansão internacional através do tráfico de drogas transfronteiriço, principalmente em direção à Europa e Ásia.
Durante muito tempo, desde suas fundações — o CV é criado no final dos anos 1970 e o PCC, no início dos anos 1990 — até a década de 2010, PCC e Comando Vermelho viviam em paz, em uma espécie de aliança informal. Enquanto a facção carioca limitava-se a atuar, primordialmente, dentro do Rio de Janeiro e a paulista, em São Paulo, tudo ia bem entre os dois grupos criminosos.
“Parceria informal” entre facções começa a mudar em 2014
Existia um acordo para que uma facção não perturbasse o território da outra, e até uma parceria informal na compra de drogas dos cartéis latino-americanos nas principais rotas do Sudeste e Centro-Oeste chegou a existir durante vários anos. A situação começou a mudar a partir de 2014, quando disputa por novos territórios e rotas de transporte de drogas, principalmente no Nordeste e no Norte do país, transformou as duas facções até então aliadas em rivais, com uma explosão da violência e assassinatos país afora, principalmente na região Nordeste.
O rompimento definitivo da aliança entre o PCC e o CV, consolidado em 2016, não foi apenas um desentendimento comercial, foi um divisor de águas geopolítico. O estopim ocorreu com o assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, o “Rei da Fronteira”, em Pedro Juan Caballero, de quem tanto PCC quanto CV compravam drogas.
A eliminação de Rafaat permitiu ao PCC o controle direto da rota usada para trazer drogas pelo Paraguai, conhecida como Rota Caipira, dispensando intermediários e ferindo os interesses do CV, que dependia daquela via para abastecer o Rio de Janeiro. Paralelamente, as duas facções passaram a disputar o controle das rotas amazônicas e tanto de mercados quanto de rotas internacionais no Nordeste do país.
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Embate entre PCC e CV resultou em massacres dentro do sistema prisional brasileiro
O resultado foi uma série de massacres dentro do sistema prisional brasileiro, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Em 2017, as chacinas em presídios como Alcaçuz (RN), Anísio Jobim (AM) e a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (RR) chocaram o mundo.
O país assistiu a uma tentativa do PCC de “monopolizar” o crime nacional, enquanto o Comando Vermelho reagia com alianças com facções regionais, como com a “Família do Norte”, parceria que permitiu ao CV prevalecer sobre o PCC na Rota Amazônica, e outras coligações regionais para conter o avanço paulista.
Embora não exista um “tratado de paz” assinado, o conflito evoluiu para uma estabilização, com o PCC dominando a chamada Rota Caipira, no Sudeste e Centro-Oeste, enquanto o CV e seus aliados dominam a Rota Amazônica. A guerra aberta e generalizada entre as duas facções deu lugar a uma disputa de baixa intensidade e alta inteligência.
Ambos os grupos perceberam que a violência excessiva atraía atenção indesejada do Estado (intervenções federais) e prejudicava o fluxo de caixa. Hoje, as disputas são localizadas (como na Bahia e no Ceará), mas a ideia de uma “guerra total” pelo controle de todos os estados arrefeceu em favor de modelos de negócios mais lucrativos.
O país assistiu a uma tentativa do PCC de “monopolizar” o crime nacional, enquanto o Comando Vermelho reagia com alianças com facções regionais.
Atualmente, o Comando Vermelho aposta em um modelo de expansão horizontal e territorial. Diferente do PCC, que busca ser uma empresa de logística, o CV se comporta como um poder paralelo que busca gerir o cotidiano das populações em áreas periféricas.
O CV tem expandido sua presença no Norte e Nordeste através do controle físico de bairros e municípios inteiros. A estratégia é baseada na ocupação geográfica. Uma vez estabelecido, o grupo não lucra apenas com o varejo de drogas, mas com a imposição de uma economia paralela.
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Comando Vermelho busca transformar a geografia em um ativo de poder frente ao Estado
Com a estratégia, o Comando Vermelho monopoliza a exploração de serviços básicos, como provedores de internet (ISP), venda de botijões de gás, transporte alternativo e até taxas de segurança para comerciantes locais. Ao dominar o território, a facção exerce influência sobre o voto e a mobilidade urbana, transformando a geografia em um ativo de poder frente ao Estado.
Apesar da diversificação econômica, o CV ainda depende fortemente da manutenção de pontos de venda (bocas de fumo) espalhados por vastas áreas, o que exige um exército de membros armados para a defesa desses perímetros.
Enquanto o CV é visível nas ruas e nos confrontos com a polícia, o PCC passou por um processo de institucionalização empresarial. A facção paulista percebeu que o lucro real não está no varejo da favela, mas no atacado internacional. O PCC “sumiu” das ruas em muitas praças porque sua prioridade mudou para os portos e aeroportos. O grupo funciona hoje como uma grande empresa de logística de exportação de drogas ilegais.
A facção paulista percebeu que o lucro real não está no varejo da favela, mas no atacado internacional.
O PCC compra a cocaína na origem (Peru, Bolívia e Colômbia) e foca em escoá-la para o Porto de Santos e portos do Nordeste. O objetivo é a Europa, onde o quilo da droga vale até cinco vezes mais do que no mercado interno brasileiro.
A facção estabeleceu bases sólidas na Europa (com parcerias com a máfia italiana ‘Ndrangheta), na África Ocidental e até no mercado asiático. Membros de alto escalão vivem em condomínios de luxo no exterior, focados em lavagem de dinheiro e operações financeiras complexas.
Em vez de invadir territórios e entrar em guerra, o PCC muitas vezes prefere “franquear” sua marca ou fazer acordos de fornecimento com grupos menores, evitando o desgaste de manter soldados e armas em cada esquina. “Tal divergência de foco é explicada pelas origens e pelos contextos distintos de cada facção”, afirma à Gazeta do Povo o advogado criminalista Ricardo Martins, professor de Direito Penal e estudioso do tema.
“Gerado no sistema prisional carioca, o CV enraizou-se na lógica de dominar territórios específicos do Rio de Janeiro, o que pautou sua expansão por meio de confrontos diretos. Já o PCC, que emergiu do sistema prisional paulista e se desenvolveu num estado com robusta infraestrutura logística, adotou abordagem mais pragmática e ‘empresarial’”, diz Martins.
“Ao priorizar o lucrativo tráfico internacional e evitar conflitos domésticos menores, o PCC otimiza seus recursos, minimiza perdas e atrai menos atenção para suas operações mais rentáveis.” A divergência entre esses modelos cria um Brasil de dois crimes.
No Rio de Janeiro e no Norte e Nordeste, o cidadão sente o peso do CV no seu dia a dia, através da taxa da internet ou da proibição de circular livremente em áreas cada vez maiores das cidades. Já em São Paulo e nos grandes centros logísticos, o PCC atua de forma mais silenciosa, “invisível” aos olhos do cidadão comum, mas profundamente infiltrado na economia formal através da lavagem de capitais em setores como transporte público e postos de combustível.
“Olhando para o futuro, é provável que o PCC continue investindo na sofisticação logística, na lavagem de dinheiro e na consolidação de sua rede global, mantendo a aversão a confrontos diretos no cenário nacional para proteger seus negócios internacionais”, avalia Martins. “O CV, por sua vez, deve prosseguir com a estratégia de expansão territorial dentro do Brasil, o que pode acirrar disputas por controle de novas áreas, ao mesmo tempo em que deve buscar maior inserção no tráfico internacional. Este cenário dual exigirá do Estado uma resposta complexa e adaptada”, diz.
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