Era uma vez um rei vaidoso que confundia aplausos com amor, até que o povo, cansado da ostentação, o vaiou e revelou sua verdadeira força. (Foto: Reprodução/Pixabay)
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Era uma vez um rei que se julgava amado. Não amado como se ama um pai justo, ou um líder prudente, mas amado como se ama o sol: inevitável, incontestável, ofuscante. Convencido de que brilhava por mérito próprio, era conhecido como Sua Luminosidade — apelido que ele próprio inventara e repetia com modéstia ensaiada.
Morava em um palácio de mármore que se erguia acima da capital. Nos jardins, pássaros coloridos piavam hinos à sua grandeza, enquanto palmeiras balançavam em sua homenagem, ao som de ventos quentes. Nos salões, espelhos dourados multiplicavam a imagem real até parecer que o reino tinha vários sóis, todos com a mesma barba aparada e a mesma coroa reluzente.
Enquanto o monarca banqueteava iguarias importadas de terras longínquas, o povo pagava tributos cada vez maiores. De tempos em tempos, era convocado a aplaudir. E aplaudia — uns por hábito, outros por medo. O rei confundia o som das palmas com amor genuíno. “Vede como me adoram!”, dizia do alto da sacada, enquanto os súditos, lá embaixo, abanavam-se com boletos.
Um dia, ao acordar de um sonho onde desfilava sobre nuvens e tomado por uma inspiração que julgou divina, o rei teve uma ideia brilhante: encomendar um grandioso desfile de Carnaval em sua homenagem. “Será o maior espetáculo da História!”, proclamou. “Eu serei o enredo vivo, e minha rainha sairá como destaque, sambando na cara de todo o reinado!”
Convocou então seus ministros — homens de fala macia e espinhas flexíveis — e anunciou:
— Faremos o maior desfile de Carnaval que este reino já viu. E será em minha homenagem!
Tão vaidosos quanto o rei, e sendo avisados de que teriam uma ala só para eles, todos acharam o desfile uma excelente ideia. Os preparativos começaram imediatamente. Convocaram os melhores artesãos do reino e costureiras que teciam fantasias com fios de ouro e prata. Músicos foram regiamente pagos para compor um samba-enredo que narrava, em versos rimados, as glórias do monarca: sua infância prodigiosa, suas decisões históricas, sua inigualável sensibilidade social.
A rainha, mulher de gostos exuberantes, surgiria no último carro, vestida de deusa da prosperidade, coberta de cristais que refletiriam a luz dos fogos de artifício, sob os olhares embevecidos dos súditos. Ornada de diamantes e plumas de pavão, sua fantasia custava o equivalente a um ano de colheita.
Enquanto isso, nas ruas, o povo enfrentava pequenos inconvenientes: alimentos cada dia mais caros, serviços cada vez piores, falta de oportunidades, violência crescente, propaganda no lugar de resultados. Mas o rei e seus ministros estavam convencidos de que bastava um bom refrão para resolver qualquer descontentamento
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Chegou o dia do desfile. As ruas da capital foram enfeitadas com bandeiras vermelhas e douradas, e o sol do meio-dia brilhava como cúmplice da vaidade real. Na plateia, a Corte ocupou os lugares centrais, ao lado do camarote real, protegida por guardas e por uma confortável distância do povo. Convocado, este compareceu em massa — afinal, ninguém perde um espetáculo gratuito, sobretudo quando já o pagou em prestações invisíveis.
O desfile começou com atraso, como manda a tradição. O primeiro carro alegórico trazia uma réplica do palácio girando lentamente sobre uma plataforma, vestidos com grande espalhafato e acenando com sorrisos treinados. Os ministros cantavam a plenos pulmões:
“O rei é luz que nunca se apaga,
É farol que nos guia no mar da esperança…”
Vieram, em seguida, alas representando “As Reformas Audaciosas”, “O Futuro Radiante”, “A Inveja dos Reinos Vizinhos” e “Em Defesa da Monarquia”, esta última zombando dos prisioneiros da masmorra real.
Tudo brilhava. Tudo cintilava. Tudo se desenrolava conforme combinado e ensaiado. No início, o povo aplaudiu timidamente, constrangido pelo medo dos guardas reais que patrulhavam as calçadas. A maioria observava em silêncio.
Conforme previsto, a rainha apareceu no alto do último carro, erguendo os braços como quem abençoasse seus súditos. Era o clímax, o momento em que, segundo o roteiro combinado com a TV oficial do reinado, o povo deveria explodir em aplausos e consagrar definitivamente o monarca.
Mas o som que se ergueu não foi o esperado.
Começou como um ruído indistinto, uma dissonância na harmonia oficial. Um grupo aqui, outro ali. Um “uh!” mais prolongado. Um “basta!” sussurrado que ganhou coragem. E então a vaia explodiu, estrondosa, ensurdecedora, um rugido coletivo que abafou a bateria e calou o samba-enredo. “Buuuu! Buuuu!” O povo, cansado da vaidade do rei e da crueldade de seus ministros, transformou o desfile em um tribunal popular.
Os ministros, de sorriso amarelo, fingiram que não era com eles — mas a vaia atravessava qualquer protocolo. O rei, que a tudo assistia no camarote oficial, congelou o sorriso. A rainha hesitou o passo e quase perdeu o compasso, tropeçando no próprio ritmo. Os cristais de sua fantasia já não refletiam admiração, apenas a luz crua da insatisfação popular.
Naquela noite, o clima no palácio ficou sombrio. Os jornais do dia seguinte, que até a véspera tinham apoiado incondicionalmente o rei e seus ministros, começaram a falar da soberba de um governo que perdera a conexão com seu povo. Entendendo que o vento tinha mudado, voltaram a falar de escândalos de corrupção. Soltaram a mão do monarca sem titubear.
O Carnaval não tirou o rei do trono. Mas antigos aliados e até ministros começaram a se afastar, alegando compromissos urgentes em reinos vizinhos. Orientados pela elite financeira do reino, conselheiros passaram a sugerir uma transição suave, revelando grande ingratidão. E o próprio rei, outrora convencido da própria perfeição, passou a evitar sacadas e espelhos.
Meses depois, o rei anunciou sua aposentadoria. Ele tinha aprendido que o sentimento de um povo não pode ser coreografado, porque há algo que nenhuma majestade controla: o momento em que os súditos decidem vaiar. Quando isso acontece, não há máscara, fantasia ou purpurina que dê jeito. Pelo menos nas fábulas.
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