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Primeira caneta de semaglutida genérica é aprovada: o que muda e quais os tratamentos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro da primeira caneta de semaglutida genérica do Brasil. Produzida pela farmacêutica EMS, a nova opção utiliza a substância obtida por via sintética e representa uma mudança no mercado de medicamentos à base de semaglutida, que ganhou espaço nos últimos anos principalmente pelo tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.

Além do genérico, a agência aprovou um medicamento similar da farmacêutica Germed, que será comercializado com o nome Semaclique.

Os dois produtos são apresentados como soluções injetáveis em canetas preenchidas para aplicação semanal. A aprovação, porém, não significa que os medicamentos já estejam disponíveis nas farmácias. As empresas ainda não informaram quando os produtos chegarão ao mercado nem os preços.

A expectativa entre especialistas é de que a entrada de novas opções aumente a concorrência e possa facilitar o acesso aos tratamentos. Ao mesmo tempo, médicos alertam que a maior disponibilidade não deve ser confundida com autorização para uso indiscriminado da semaglutida.

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Semaglutida genérica pode ampliar acesso

Segundo o endocrinologista Rodrigo Mendes, da Afya Educação Médica Curitiba, a aprovação é relevante por ampliar as opções disponíveis. Para ele, o principal impacto esperado é justamente sobre o acesso ao tratamento. “A aprovação do primeiro genérico de semaglutida no Brasil é relevante porque aumenta a concorrência e tem potencial para melhorar o acesso ao tratamento”, afirma.

A endocrinologista Angela Nazário, presidente do Instituto da Pessoa com Diabetes (IPD), também destaca o impacto da novidade sobre o acesso. “O que muda com a chegada do genérico é o acesso à medicação. As indicações continuam as mesmas”, afirma.

Segundo ela, a expectativa é de que a produção nacional permita preços mais acessíveis. “A gente espera que tenha os mesmos efeitos positivos que a semaglutida biológica teve”, diz.

O cirurgião do Aparelho Digestivo e da Obesidade Pedro Henrique Lambach Caron também avalia que a novidade pode contribuir para a democratização do tratamento da obesidade, ao permitir que mais pacientes tenham acesso a medicamentos com preços potencialmente menores.

O que são medicamentos genéricos?

Os medicamentos genéricos precisam demonstrar equivalência em relação ao produto de referência para obter o registro sanitário. No caso da nova caneta, Mendes ressalta que o medicamento de referência é o Ozivy, da própria EMS, que contém semaglutida sintética.

A diferença está na origem da molécula. Medicamentos como o Ozempic utilizam semaglutida produzida por processo biotecnológico. A EMS desenvolveu uma versão sintética da substância, o que permitiu a existência de um medicamento de referência sintético e, posteriormente, de sua versão genérica.

A Anvisa já havia esclarecido que os insumos agonistas de GLP-1 podem ser obtidos por vias biotecnológica ou sintética.

O que a aprovação significa para o paciente

Um ponto importante é que a aprovação da semaglutida genérica não significa que o novo produto tenha sido registrado especificamente para emagrecimento. Segundo as informações divulgadas sobre o registro, a indicação aprovada para a nova caneta é o tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlado.

A semaglutida pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, hormônio envolvido na regulação da glicose, da fome e da saciedade. No diabetes tipo 2, a substância contribui para o controle da glicemia e também pode reduzir a ingestão alimentar e favorecer a perda de peso.

Nazário ressalta que as chamadas canetas emagrecedoras são ferramentas terapêuticas e não produtos destinados simplesmente a atender padrões estéticos. “São medicamentos indicados para diabetes tipo 2 ou para o tratamento do sobrepeso e da obesidade, sempre considerando critérios clínicos, histórico de saúde, presença de comorbidades e avaliação individual”, explica.

No Brasil, há medicamentos à base de semaglutida registrados com indicação para obesidade e sobrepeso, mas cada produto possui bula, indicação e condições de uso próprias. A Anvisa também determina que os agonistas de GLP-1 sejam vendidos mediante retenção da receita médica.

Entrada da semaglutida genérica no mercado brasileiro deve aumentar a concorrência entre fabricantes. (Foto: Divulgação/Receita Federal)

Uso sem acompanhamento traz riscos

A chegada de uma versão potencialmente mais acessível ocorre em um momento de forte procura pelas chamadas “canetas emagrecedoras”. Para os especialistas, entretanto, a redução de preço e a maior oferta não devem estimular a automedicação.

“A semaglutida deve ser utilizada sob prescrição e acompanhamento médico, com indicação adequada, definição individualizada da dose, titulação progressiva e monitoramento da resposta ao tratamento e de possíveis efeitos adversos”, afirma Mendes.

Entre as reações mais comuns estão náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal. Em situações mais intensas, vômitos e diarreia podem provocar desidratação e repercussões renais.

A perda acelerada de peso também pode vir acompanhada de redução de massa muscular quando não há alimentação adequada e prática de exercícios.

Caron destaca ainda que o tratamento da obesidade não deve depender apenas da medicação. Mudanças na alimentação, atividade física, qualidade do sono e controle do estresse fazem parte do acompanhamento. Dependendo do caso, o paciente pode precisar de uma equipe multidisciplinar, com médico, nutricionista, psicólogo e profissional de educação física.

Outro cuidado apontado pelos médicos é evitar o aumento da dose por conta própria, o compartilhamento de canetas e a compra de produtos de origem desconhecida. “Democratizar o acesso ao tratamento é diferente de banalizar o uso do medicamento”, resume Mendes.

A preocupação com o uso inadequado levou a Anvisa a adotar, desde junho de 2025, regras mais rígidas. A venda exige receita em duas vias, com retenção de uma delas pela farmácia, e a prescrição tem validade de até 90 dias. A medida foi adotada após a agência identificar número elevado de eventos adversos associados ao uso desses medicamentos fora das indicações aprovadas.

Para Angela Nazário, a chegada da nova opção só deve ser encarada como um avanço quando estiver associada ao acompanhamento adequado. “O ponto principal é que não existe uma caneta indicada para quem simplesmente quer emagrecer alguns quilos. Existe um paciente que precisa ser avaliado e, quando houver indicação, pode se beneficiar de um medicamento dentro de um plano de tratamento”, afirma.

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