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Da sala de aula para à comunidade: quando aprender também é transformar 

Formar cidadãos comprometidos com a sociedade é um dos maiores desafios da educação contemporânea. Em um cenário marcado pelo aumento das desigualdades sociais e pela necessidade de fortalecer a participação democrática, a escola é chamada a ir além da transmissão de conteúdos, criando oportunidades para que os estudantes vivenciem experiências capazes de desenvolver senso de responsabilidade coletiva, empatia e protagonismo. 

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada para o Ensino Médio em 2018, reforça esse compromisso ao estabelecer competências que extrapolam os conhecimentos disciplinares. Entre elas, destacam-se a valorização da cidadania, da participação social e da adoção de princípios éticos e solidários. No entanto, transformar essas competências em práticas efetivas ainda representa um desafio para muitas instituições de ensino. Falar sobre cidadania em sala de aula é importante, mas proporcionar experiências em que os estudantes assumam o papel de agentes de transformação torna a aprendizagem mais significativa e duradoura. 

Foi com esse propósito que o Colégio SESI da Indústria, unidade CIC, em Curitiba, desenvolveu, no primeiro trimestre, a Oficina de Aprendizagem “Fantástica Fábrica de Chocolates”. A proposta consistiu em desafiar os estudantes da 2ª série do Ensino Médio a planejar e executar uma campanha de arrecadação de chocolates para beneficiar crianças da Escola Municipal Mansur Guérios. Mais do que promover uma ação solidária, o projeto buscou estimular a reflexão sobre as desigualdades sociais e incentivar os jovens a mobilizar diferentes segmentos da comunidade (famílias, comércio local, indústria e a própria escola) em torno de um objetivo comum. 

A oficina foi estruturada de forma transdisciplinar, tendo como princípio a aprendizagem baseada em projetos. A partir de critérios previamente estabelecidos, os estudantes tiveram autonomia para definir estratégias de divulgação, estabelecer parcerias, elaborar materiais de comunicação e organizar as etapas da campanha. Ao assumirem o protagonismo de todas as ações, colocaram em prática competências relacionadas à comunicação, planejamento, criatividade, resolução de problemas, trabalho colaborativo e responsabilidade social. 

Os resultados evidenciaram o alcance da iniciativa. Ao final da campanha, foram arrecadadas 1.797 caixas de Bis, 260 caixas de bombom, 31 pacotes de bombons e 42 barras de chocolate. Com o apoio de 22 estudantes voluntários, esse material foi transformado em 772 kits distribuídos às crianças da escola parceira e outros 112 kits destinados a duas ONGs da cidade. 

Embora os números expressem a dimensão da campanha, seu principal impacto está na aprendizagem construída durante o processo. Ao identificar uma demanda da comunidade, mobilizar parceiros, dialogar com diferentes públicos, organizar recursos e apresentar os resultados em uma feira de exposição, os estudantes compreenderam que o conhecimento escolar ganha sentido quando se converte em ação. Mais do que arrecadar chocolates, vivenciaram uma experiência que fortaleceu competências socioemocionais, o exercício da cidadania e a compreensão de que a transformação social também pode começar dentro da escola. 

Os desdobramentos da iniciativa demonstram que experiências de protagonismo e participação social tendem a gerar novos movimentos dentro da própria comunidade escolar. Inspirados pela campanha realizada no primeiro trimestre, os estudantes da 3ª série passaram a desenvolver, no segundo trimestre, uma nova ação solidária: uma campanha de arrecadação de livros infantojuvenis destinada à biblioteca da mesma escola parceira. A proposta surgiu a partir de uma necessidade identificada pelos próprios alunos da 2ª série durante a entrega dos kits de Páscoa, quando perceberam a escassez de obras voltadas ao público pré-adolescente. Mais uma vez, a aprendizagem parte da observação da realidade para a construção de soluções coletivas. Ao transformar desafios concretos em projetos de intervenção, a escola fortalece competências previstas pela BNCC e evidencia que o exercício da cidadania se consolida quando os estudantes deixam de ser apenas espectadores para se tornarem protagonistas de mudanças em sua comunidade. Em um contexto marcado pelo uso intenso das tecnologias e pelas interações mediadas por telas, iniciativas como essas também favorecem o fortalecimento dos vínculos humanos, ampliando a conexão dos jovens com o território, com o outro e com o propósito social da educação. 

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