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Doutrina Donroe: o novo plano de Trump para dominar o Hemisfério Ocidental

A “Doutrina Donroe” pode fortalecer os EUA, mas também corroer seu soft power e transformar aliados em críticos de sua hegemonia. (Foto: Aaron Schwartz/EFE/EPA/POOL)

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Uma postagem da conta oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, feita no último dia 11 de agosto, nos faz voltar ao assunto da Doutrina Monroe. Em um vídeo narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Cabrera, o Departamento de Estado transforma a Doutrina Monroe, de uma política do século XIX voltada a impedir novas intervenções ou tentativas de recolonização europeias nas recém-independentes repúblicas das Américas, em uma doutrina de primazia estratégica dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental, na qual a frase dita pelo presidente Donald Trump, afirmando que “os EUA nunca mais teriam a sua dominância sobre o Hemisfério Ocidental questionada”, ganha papel de destaque.

No vídeo, o Departamento de Estado desenha uma estrutura hierárquica nas Américas, na qual os EUA desempenham, sem constrangimentos, um papel autoatribuído de dominância, em um tom que, em outras circunstâncias, seria considerado muito pouco usual para uma declaração diplomática: o tom inaugurado com a divulgação, em dezembro do ano passado, da nova Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que lançou oficialmente o chamado “corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Aquele documento deixou clara a natureza do tal corolário, apelidado de “Doutrina Donroe”, que pode ser sumarizado em três ideias principais: (1) os EUA impedirão que concorrentes de fora do Hemisfério (sobretudo a China) posicionem forças ou outras capacidades que possam se constituir em ameaças, ou mesmo que “detenham a propriedade ou o controle de ativos estrategicamente vitais no Hemisfério Ocidental”; (2) os EUA atribuem máxima prioridade ao controle da imigração ilegal e do tráfico de drogas nas Américas; (3) os EUA querem ser vistos pelas outras nações das Américas “como sua parceira de primeira escolha” e “desencorajarão por diversos meios a colaboração delas com outros”.

No campo militar, a implementação prática dessas ideias vai ganhando forma e substância. Na semana passada, no Panamá, ocorreu mais uma reunião da Coalizão Contra Cartéis das Américas, que ganhou a sigla A3C, oportunidade em que foi anunciada a importantíssima adesão da Colômbia, que autorizou a participação das forças armadas de seu país nas operações conjuntas com as forças norte-americanas.

O anúncio ocorreu no mesmo momento em que Pete Hegseth, o Secretário da Guerra dos EUA, afirmou que seu país já trabalha com países parceiros no planejamento de operações terrestres contra os grupos narcotraficantes da região. Comparando os grupos criminosos à Al Qaeda e a outras organizações terroristas, Hegseth afirmou que “onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo”.

As falas das autoridades norte-americanas acerca da Doutrina Monroe, entretanto, não ganham apoio unânime na América Latina. Brasil e México, as duas maiores economias da região, não integram a A3C e mesmo o Chile, país que compõe a lista dos participantes, mostrou desconforto com o discurso de dominância norte-americano.

Comentando a respeito, o ministro da Defesa do Chile manifestou suas reservas ao conceito, declarando que “do ponto de vista do Chile, não somos o quintal de nenhum país. Somos um país muito orgulhoso da nossa realidade”.

É evidente que a colaboração no combate ao crime organizado transnacional deve ser comemorada e que toda ajuda é bem-vinda. O problema é o tom adotado pela “Doutrina Donroe” e a pretensão de transformar a primazia norte-americana em princípio ordenador do Hemisfério, inclusive limitando a liberdade dos países da região de estabelecer relações estratégicas com terceiros.

Além disso, no nível global, há uma questão evidente: se Washington reivindica de maneira explícita uma esfera de influência no Hemisfério Ocidental, torna-se inevitável perguntar como os EUA poderão contestar conceitualmente reivindicações semelhantes de esferas de influência por parte da Rússia e da China em suas próprias vizinhanças estratégicas. Isso não significa que os casos sejam juridicamente ou historicamente equivalentes, mas o argumento para a contestação política de iniciativas expansionistas de outras potências se torna muito mais difícil.

Por fim, a postura dos EUA, percebida como arrogante por audiências em toda a região, vai dilapidando uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas pelos EUA: seu inegável soft power, seu poder de atração, a admiração pelo seu modo de vida. Há sinais mensuráveis dessa erosão.

Recentemente, o Pew Research Center realizou pesquisas em 36 países e descobriu que, na maioria deles, a visão dos entrevistados era mais favorável à China do que aos EUA. Isso não acontecia em pesquisas anteriores. A opinião pública sobre os EUA nos dois países com os quais faz fronteira é reveladora da perda desse patrimônio intangível.

No Canadá, a parcela com opinião favorável aos Estados Unidos se reduziu de 57% para 33% em três anos. No México, apenas 40% da população vê os EUA de forma favorável. Em ambos os países, a avaliação positiva da China é superior à dos Estados Unidos.

Talvez os EUA não percebam, mas seu discurso não parece ser favorável aos seus próprios interesses

Tudo indica que, na Doutrina Donroe, o país esteja sendo mais identificado com as potências europeias que buscavam preservar ou restaurar seu domínio sobre as antigas colônias do que propriamente com os EUA de James Monroe, que se apresentavam como defensores da independência das novas repúblicas americanas diante de uma eventual restauração colonial europeia.

O risco é que “potências extrarregionais”, justamente aquelas que os EUA querem manter afastadas do Hemisfério Ocidental, passem a ser percebidas como aquelas que vão ajudar os latino-americanos na luta pela manutenção de sua autonomia. Afinal, não somos o quintal de ninguém.

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