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“Lula porreta”: o que esperar do discurso de lançamento da campanha do PT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve adotar um tom mais duro no discurso de lançamento da candidatura que vai tentar a reeleição, neste domingo (16), em São Bernardo do Campo (SP).

A escolha do Estádio 1º de Maio, na antiga Vila Euclides, onde Lula liderou assembleias dos metalúrgicos durante as greves do ABC no fim dos anos 1970, resgata o berço sindical que o projetou nacionalmente e funciona como um aceno direto à militância. A primeira assembleia das greves realizada no local, em 1979, reuniu mais de 60 mil trabalhadores.

A simbologia combina com o novo personagem que Lula tenta apresentar na campanha. “Eu não quero o Lulinha paz e amor”, disse o presidente a militantes em 2 de agosto. “Eu quero o Lulinha porreta.”

A expressão contrasta com a imagem construída para a campanha de 2002, quando o PT procurou suavizar a imagem de sindicalista radical de Lula, reduzir resistências no eleitorado e ampliar sua capacidade de atrair o centro. Por ora, a estratégia da campanha é explorar as realizações do governo.

Ao mesmo tempo, irá explorar ao máximo o discurso de defesa da soberania nacional, especialmente em meio aos conflitos comerciais e diplomáticos com os Estados Unidos.

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“Lula porreta” agrada militantes enquanto negocia com Alcolumbre

Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o desafio eleitoral será transformar essa mobilização da militância em uma mensagem capaz de alcançar o eleitor que não se identifica com o PT e que será decisivo para a reeleição. Nesse sentido, a tese do “Lula porreta” é vista com cautela.

“Para ganhar o eleitor mediano, geralmente os candidatos têm que moderar o discurso”, diz o cientista político Adriano Gianturco. “Ele não está fazendo isso, parece estar continuando na radicalização.”

Já Rafael Favetti, da Fatto Inteligência Política, vê no “Lula porreta” um recado político ao Congresso. Para ele, a expressão está relacionada à disputa pelo controle do orçamento e à reação do presidente ao avanço das prerrogativas do Legislativo. Essa mudança de tom, argumenta Favetti, expressa o incômodo de Lula com a perda de espaço político do Executivo.

“Ele quer voltar a ser o Lula porreta justamente porque aonde ele navega na política tinha uma subjugação da figura do presidente.” O discurso contra o Legislativo, no entanto, é visto com ceticismo por Carlos Melo, do Insper. “Eu sinceramente eu não me impressiono com esses discursos de começo de campanha quando o sujeito está conversando com a sua bolha”, afirma.

“Porque é o Lula porreta que vai enfrentar não sei o quê, mas que se reúne com o Davi Alcolumbre, que consegue fechar o apoio do presidente da Câmara, que faz um acordo com Ciro Nogueira (PP). Então, uma coisa é o discurso que se faz para a base, seja na convenção, seja no lançamento da campanha”, explica. 

Melo avalia que o presidente sabe que terá de fazer uma inflexão do discurso para alcançar o eleitorado decisivo. “Duvido que um discurso radical, ‘Lula porreta’, leve eles a algum lugar”, avalia.

Na visão dele, quem vai decidir a eleição são os chamados swing voters. “Esses caras não vão votar no PT e nem no bolsonarismo, eles vão votar contra o PT ou contra o bolsonarismo”, diz.

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Os desafios de Lula rumo ao centro

Para além do pragmatismo que deve orientar Lula ao longo da campanha, os analistas elencam desafios que vão da imagem do presidente à avaliação de seu governo. Aos 80 anos, Lula enfrenta o desgaste acumulado de mais de duas décadas desde a chegada do PT ao Planalto, além da dificuldade de projetar uma imagem associada ao futuro e às novas formas de comunicação.

Favetti afirma que o presidente terá de adaptar sua imagem a uma campanha cada vez mais marcada pelas redes sociais. “O grande desafio é como ele vai contemporizar nesta eleição uma figura que tem 80 anos e talvez tenha dificuldade em se amoldar às perspectivas comunicacionais para com o eleitor, que é o mundo de hoje”, diz.

Para Carlos Melo, do Insper, a dificuldade é também de conteúdo. Lula corre o risco de ser percebido como uma liderança de outra época. “O presidente Lula é um homem de ontem. Quando o Lula pensa em economia, ele pensa, por exemplo, na indústria automobilística, ele pensa na indústria naval, ele pensa naquela sociedade industrial. E o futuro é uma outra coisa que está ligada à tecnologia”, pontua.

A avaliação do governo, porém, será determinada por questões mais concretas para o eleitor, sobretudo economia e segurança. A percepção sobre a gestão tende a passar menos pelos grandes indicadores e mais pelo que afeta o dia a dia.

As pessoas leem a economia não mais pelos números, mas pelo sentimento. Mesmo com bons números agregados do atual governo, o sentimento de boa parte da população é ruim”, diz Favetti.

Gianturco aponta o custo de vida como um dos principais obstáculos. “As pessoas estão sentindo na pele a inflação. Não é sensação. As pessoas notam isso. A economia não está indo”, aponta. 

Na segurança pública, o desafio é ainda maior para o PT, diante da percepção de deterioração do quadro e da desconfiança em relação à esquerda. “As pessoas estão tendo uma percepção de que a segurança piorou. E há uma percepção também de que a esquerda seja mais conivente – ou leniente, para ser gentil – com a segurança”, afirma.

Oposição tem mais meios para atacar

Para Favetti, na prática, Lula carrega o ônus de estar na Presidência. “Nos dias de hoje, ser governo se tornou mais problema do que ser oposição. Você inverteu o eixo. Um governante é vidraça, ao passo que a oposição tem pedras para atacar”, afirma Favetti.

A vantagem de estar no comando do país, contudo, não desaparece. Uma base histórica da Eurasia Group, com cerca de 500 eleições realizadas ao longo de três a quatro décadas, mostra que presidentes com aprovação entre 46% e 48% apresentam historicamente alta taxa de reeleição.

Lula aparece nesse limiar na última pesquisa Quaest, divulgada nesta sexta-feira (14). O levantamento mostrou 46% de aprovação e 48% de desaprovação, com 6% que não souberam ou não responderam.

O quadro, porém, convive com uma percepção ainda majoritariamente negativa sobre o rumo do país. Na pesquisa Ipsos What Worries the World, realizada entre 22 de maio e 5 de junho de 2026, com 23.534 entrevistados em 30 países, 58% dos brasileiros disseram que o país estava no caminho errado, ante 42% que avaliavam estar na direção certa.

No Brasil, violência e criminalidade apareceram como a principal preocupação, citadas por 47% dos entrevistados. Para Gianturco, o cenário intrincado torna a eleição menos previsível. “Quem está no poder tende a ganhar, mas com uma porcentagem de votos menor que a precedente. É raríssimo que ganhe aumentando os votos. Então, se ele ganhar, vai ganhar com a margem minúscula”, afirma.

  • Metodologia da pesquisa Quaest: foram ouvidas 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 de agosto de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. O número de registro da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é BR-06773/2026. O levantamento foi contratado pela Globo em parceria com o jornal O Globo.

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