Ao longo das últimas semanas, além de comentar neste espaço os temas importantes do momento, a Gazeta do Povo tem se dedicado a fazer um diagnóstico da tríplice crise que atinge o país, em suas dimensões institucional, econômica, e cívica ou ético-moral; também temos destacado as mudanças que consideramos necessárias para a recuperação do Brasil nessas três frentes. Depois de termos nos debruçado sobre a dimensão institucional dessa reconstrução, é o momento de analisar a dimensão econômica. Trata-se de saber qual é exatamente o nosso problema e para onde queremos conduzir o país.
O diagnóstico, em si, não é complicado, e boa parte dos economistas e analistas, de várias vertentes e escolas de pensamento, convergem para um mesmo veredito, o de que o Brasil sofre de duas doenças econômicas: um Estado que pesa demais e uma economia que produz de menos. São problemas diferentes, mas profundamente interligados.
O Estado brasileiro absorve uma parcela excessiva da riqueza nacional, gasta mal e entrega pouco; assim, ele retira espaço daquilo que faz um país prosperar: investimento, inovação, empreendedorismo e produtividade. A carga tributária brasileira atingiu, em 2024, seu maior nível histórico, em 32% do PIB, um porcentual superior ao de diversos países em desenvolvimento que oferecem serviços públicos semelhantes, ou mesmo melhores. O gigantismo e a ineficiência do Estado brasileiro são resultado de décadas de expansão contínua das despesas obrigatórias, de baixa capacidade de planejamento e de uma estrutura administrativa excessivamente complexa.
Uma realidade que resume de forma assustadora nossa estagnação é o fato de muitos pais já não terem a certeza de que seus filhos viverão melhor do que eles
O segundo problema, o baixo crescimento econômico, talvez seja ainda mais grave, pelas consequências que produz ao longo do tempo. Há muitos anos o Brasil cresce pouco, e cresce menos do que poderia. A produtividade praticamente estagnou desde o início da década passada, o investimento perdeu dinamismo e fomos nos acostumando a uma mediocridade que já nem sequer causa espanto. Não enfrentamos uma crise passageira; o crescimento medíocre foi normalizado, assim como uma doença crônica, algo que se integrou à vida nacional. Ainda que o Brasil não esteja permanentemente à beira do colapso, está perdendo lentamente a capacidade de enriquecer – inclusive desperdiçando o bônus demográfico, o período em que a população em idade ativa supera a de crianças e idosos.
Um país que deixa de enriquecer compromete todo o resto. Salários crescem pouco, oportunidades se tornam mais escassas, jovens ficam cada vez mais propensos a buscar perspectivas fora do país, e o Estado vive em permanente dificuldade para financiar boas políticas públicas. Uma realidade que resume de forma assustadora nossa estagnação é o fato de muitos pais já não terem a certeza de que seus filhos viverão melhor do que eles.
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Esses dois grandes problemas são agravados por diversos outros fatores, também conhecidos: um federalismo frequentemente disfuncional; uma cultura de ausência de planejamento; um ambiente regulatório complexo e inseguro; baixa capacidade de inovação; desatenção a muitas das nossas riquezas naturais; uma economia excessivamente fechada ao comércio internacional; e uma inserção internacional muito aquém do potencial brasileiro. Cada um desses fatores merece atenção individualizada, mas todos eles convergem para o mesmo resultado: dificultam o aumento da produtividade e reduzem nossa capacidade de crescer de forma sustentada.
Corrigir distorções pontuais, no entanto, não basta se o país não souber qual é sua grande ambição econômica, para onde deseja ir, um sonho compartilhado por todos. Se ao longo de boa parte do século 20 os brasileiros acreditavam que seus filhos viveriam melhor do que eles, em algum momento, como já afirmamos, essa confiança se perdeu e passamos a discutir apenas como administrar dificuldades, equilibrar contas ou repartir uma riqueza que cresce pouco. Pulamos de paliativo em paliativo, deixando de lado os grandes objetivos que unem e entusiasmam uma nação inteira e que, uma vez estabelecidas, permitem encontrar e hierarquizar as melhores medidas para atingi-las.
Dias atrás, mostramos que ainda hoje é possível transformar um país de renda média em um país de renda alta dentro de uma geração, como fez a Costa Rica em 20 anos. Um sonho ambicioso, mas não irreal. O Brasil pode seguir esse exemplo, tornando-se não apenas um país rico, mas uma economia de fato produtiva e inovadora, capaz de gerar riqueza de forma sustentada, sem depender de ciclos de commodities. Ao lado desse grande horizonte, propomos dois “objetivos irmãos”: reduzir drasticamente a pobreza e tornar a miséria um fenômeno residual, ligado a situações específicas de vulnerabilidade, e não a uma falha estrutural do sistema econômico; e aliviar a angústia quanto ao futuro, assegurando a todos uma previdência digna e sustentável. Acreditamos que brasileiro nenhum, independentemente de tendência política, perfil socioeconômico e faixa etária, discordaria de que vale a pena ter essa ambição de um Brasil rico, sem miséria e capaz de garantir um envelhecimento digno a todos.
Um Brasil rico, leve no Estado, livre na economia, responsável nas contas, cuidadoso com o território e integrado ao mundo é um Brasil que vale a pena construir
Para chegar lá, julgamos necessário perseguir alguns objetivos mais específicos, dos quais destacamos quatro. Em primeiro lugar, um Estado do tamanho certo: leve, moderno, eficiente, digital, gerido por indicadores, com uma tributação que, ao longo de poucos anos (no máximo uma década), convirja para no máximo 30% do PIB e, em um horizonte um pouco maior, de talvez 20 anos, para 25% ou ainda menos. Em segundo lugar, uma economia genuinamente livre e competitiva, que figure entre as 30 mais livres economicamente do mundo (o que hoje está longe de ser o caso), com a recuperação do grau de investimento. Em terceiro lugar, uma política ambiental baseada em evidências, não em ideologias, capaz, ao mesmo tempo, de inverter decisivamente a curva de desmatamento e garantir às futuras gerações a possibilidade de fruir de riquezas naturais inigualáveis por meio de um equilíbrio entre conservação e exploração inteligente, responsável e produtiva. E, em quarto lugar, um Brasil mais aberto ao mundo: um parceiro democrático, confiável e economicamente integrado, com peso internacional compatível com seu tamanho e seu potencial.
Um Brasil rico, leve no Estado, livre na economia, responsável nas contas, cuidadoso com o território e integrado ao mundo é um Brasil que vale a pena construir. A discussão sobre os caminhos para essa construção será feita nas próximas semanas; basta-nos, por ora, ressaltar a importância da definição de um sonho comum. Se quisermos voltar a acreditar no Brasil, precisamos voltar a acreditar que ele pode enriquecer, oferecer oportunidades aos seus cidadãos e ocupar seu devido lugar entre as grandes democracias do mundo.


